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Por que tantos bebês têm refluxo?

by Redação taofeminino Published on 26 de maio de 2017

Muito comum durante o primeiro ano de vida, o refluxo incomoda os bebês e as mães: de um lado regurgitos frequentes; de outro, o cheiro de azedo que predomina nas roupas. Por Juliana Couto

Mãe, pai e cuidadores, separem a fralda de boca e não se surpreendam: bebês regurgitam (ou golfam) e, sim, cheira azedo. Condição comum em bebês principalmente até o sexto mês de vida, o refluxo é caracterizado por regurgitos ou golfos frequentes em bebês e "nada mais é do que o retorno do conteúdo gástrico para o esôfago", como explica Thiago Gara, gastroenterologista pediátrico. Segundo Thiago, o refluxo acontece em função do aumento de patologias associadas, como, por exemplo, a alergia a proteína do leite de vaca - apesar de diversos fatores contribuírem para o desenvolvimento dessa condição passageira. Para ele, há muitos diagnósticos errôneos. Segundo informações em Tratamento da Doença do Refluxo Gastrintestinal em Crianças, documento da Organização Mundial de Saúde (OMS), “em sua maioria, os episódios são breves e não causam sintomas, lesões esofágicas ou outras complicações. A frequência dos episódios de refluxo, bem como a proporção que resulta em regurgitação, diminui com o aumento da idade. A maioria desses episódios cessa ao final do primeiro ano de vida e é incomum em crianças maiores de 18 meses de idade”.

Assim, seu filho regurgitar o leite algumas vezes não significa que ele tem refluxo. Um regurgito (ou alguns, espaçados), não são sinais suficientes. A regurgitação ou o vômito podem estar associados a uma série de situações (e outras doenças) e é essencial que sejam realizados diagnósticos diferenciais. De acordo com Thiago, entre os sinais que os cuidadores precisam observar nos primeiros meses de vida estão: perda ou baixo ganho de peso, irritabilidade e sinais indiretos que podem estar associados, como broncoespasmo de repetição e pneumonias de repetição. Bebês que vomitam muito após mamar podem ter consequências gástricas mais amplas. Como os líquidos estomacais são muito ácidos, ao atingirem o esôfago podem provocar esofagite, que é a inflamação do esôfago, e até úlcera. E então, o que era refluxo passa a ser a doença de refluxo gastroesofágico (DRGE), caracterizada por complicações associadas como esofagite, complicações pulmonares e comprometimento no ganho ponderal. De acordo com a OMS, a criança com DRGE deverá ser tratada com medicamentos.

Regurgitos frequentes? Hora de procurar um profissional

Se o seu filho está com os sinais, é essencial procurar acompanhamento regularmente com um profissional. No caso de Maria Clara, de um ano e cinco meses, o refluxo começou logo após o nascimento. Carolina Roberta Santos (SP), 29, mãe de Maria, conta que ainda na maternidade, com menos do que 24 horas de vida, ela já havia golfado algumas vezes. “Ela não demonstrava incômodo, então minha preocupação nessa época era ter que lavar e trocar a Maria Clara toda hora. No hospital minha tia levava e trazia as roupas, todo aquele planejamento de conjunto, roupa de saída da maternidade, etc., não deu certo. Ela usou tudo antes mesmo de sair e repetiu novamente. Fomos para casa e precisamos comprar mais roupinhas RN, porque no quarto dia ela já não tinha mais nada para usar. Ainda bem que era pequenininha, então não perdeu rápido! E assim começou, a clássica posição de colocar para arrotar no ombro era a pior! Tomei altos banhos nas costas assim, inesquecível! Eu e meu marido tentávamos encontrar a posição ideal toda hora, o pediatra pedia para segurar ela em pé por 30 minutos, mas mesmo assim não ajudou”. Maria Clara regurgitava sempre que tomava banho, sempre que colocava na cadeira do carro, sempre que era ninada. Em todas as fotos dos primeiros meses, Maria está com um babador enorme e paninhos protegendo a roupinha. Carol, que amamenta Maria Clara com leite materno em livre demanda desde o nascimento da pequena, buscou tratamento homeopático com o pediatra de sua filha, mas o resultado foi ineficaz. Ela foi diagnosticada com DRE (Doença do Refluxo Esofágico), foi tratada com medicamento com dois meses de vida (o medicamente era diluído no leite materno). Como não houve melhora, no quinto mês de vida a medicação foi suspensa. Apesar do refluxo, Maria Clara não apresentou defasagem no ganho de peso e não apresentava desconforto físico.

Maria Clara puxou a mãe. Pelo menos é o que fala o avô da pequena, pai de Carolina. Ele conta que nunca tinha uma camisa sem cheiro de azedo e que todos da família receavam em colocar a Carol, então bebê, para arrotar. “Eles davam mamadeira (nunca fui amamentada) aos poucos, para o leite não voltar de uma vez. Acredito que tenha sim um motivo para esse refluxo excessivo, acho que vale uma conversa com profissionais, pois nem sempre é alérgico (fiz dieta tirando leite e soja da minha alimentação), pode ser fisiológico”. A melhora veio somente depois dos seis meses, com a introdução alimentar. Para Carol, começar a sentar sem apoio na mesma época também contribuiu para a diminuição do refluxo, até que ele parasse totalmente. “Acho que passou lá pelos 8 meses, tendo um ou outro escape desde então. Agora ela tem quase um ano e cinco meses e nem me lembro quando foi a última vez que ela regurgitou. Nunca encontrei um real motivo para o refluxo. Me arrependo de ter entrado com medicação, hoje vejo que foi completamente desnecessário, principalmente ela sendo tão pequena”.

Enzo, um ano, filho de Natalia Zanfelice Silvestre (SP), 31, nasceu com um pouco de torcicolo congênito e plagicoefalia pela posição pélvica (Enzo ficou pélvico da 25ª semana de gestação até a 39ª e só virou durante o trabalho de parto). Foi esse o diagnóstico dado por seu pediatra quando Enzo tinha sete dias de vida, que também alertou a mãe que o torcicolo era passageiro. Com uma semana de vida, segundo Natalia, Enzo já regurgitava bastante, mas como ela ouvia que era normal, esperou. “ Ele mamava muito! E logo com 10 dias começou a choradeira. Era um choro inconsolável. Fui ao pediatra e ele falou que íamos tentar tratar como cólica, mais pele a pele, mais banho morno: 20 dias depois, nada. Ele ainda chorava demais e golfava muito”, conta. Após tentativas com duas medicações e pouco resultado, a escolha foi tratar com medidas posturais. “Mas era notório o incômodo dele. Cortei leite e derivados por três semanas. Nada. Comecei a ler e me informar muito sobre refluxo. Li sobre osteopatia e o impacto de torcicolo congênito no esôfago, fizemos cinco sessões, mas ele ficava muito agitado, mesmo nas sessões! Ele era um bebê incomodado e eu desesperada tentando fazer ele ter paz. Ele chorava no peito, fora do peito, era raro um momento de paz. Com três meses, eu falei para o pediatra de um tratamento com uma medicação mais forte, que encontrei nas pesquisas que havia feito”. Em 20 dias, os primeiros sinais de melhora. A introdução alimentar do Enzo foi iniciada aos cinco meses, apesar da recomendação oficial ser a partir dos seis meses, e ele passou a regurgitar menos. Com seis meses a medicação foi suspensa e com oito meses ele não golfava mais e dormia bem melhor. “Hoje, com um ano ele é um santo. E eu nem sei como foi que sobrevivemos aquele começo: ele vivia sujo de leite, vomitava o dia inteiro. Ele só não teve problema de ganho de peso porque mamava muito (leite materno em livre demanda), o dia inteiro”, finaliza Natalia.

Prematuridade do bebê pode influenciar a ocorrência do refluxo

Se leva tempo para se acostumar com o leite materno, que é resultado de uma produção espécie-específica, ou seja, para aquele bebê, certamente levará mais tempo para se acostumar a digerir o leite artificial. Em uma cultura neonatal como a brasileira, que privilegia nascimentos de cesáreas eletivas, portanto agendadas e na maioria das vezes de bebês prematuros, reforçada pela cultura do leite artificial, por meio da qual muitas mães saem das maternidades com receitas de leites artificiais, mamadeiras e chupetas (os bicos artificiais comprometem a amamentação por causarem a confusão de bicos, já que o bebê mama de modo diferente no seio materno e no bico artificial) não é surpresa que o diagnóstico seja comum, já que bebês majoritariamente prematuros são desmamados e alimentados com leite artificial, além de estarem mais propensos a desenvolver o refluxo. Curiosamente, o pico de incidência do refluxo é próximo dos quatro meses de idade, quando a maioria das mães brasileiras já desmamaram seus filhos (a média de aleitamento materno no Brasil é de 54 dias).

Seu bebê regurgita uma ou duas vezes por dia? Pode ser normal e pode ser que após os seis meses de idade (ou mais) essa situação se normalize. Tanto Thiago quanto as recomendações da OMS são objetivas: o diagnóstico é clínico. E pode ser comprovado com exames como o EED (esôfago, estômago e duodeno), Endoscopia, Cintilografia e Phmetria de 24h. Para a OMS, a primeira medida terapêutica é a mudança de estilo de vida. O tratamento, segundo Thiago, consiste em mudanças posturais, geralmente de posição: elevação em 30 graus, deixar a criança 20 a 30 minutos ereta no ombro após a mamada. Para bebês já em introdução alimentar, “a alimentação dever ter volume de ingestão e fracionamento de refeições adequados, com preferência por alimentos espessados (embora só diminuam episódios de regurgitação, não de refluxo). A posição também é muito importante: após a alimentação, devem ser mantidos na posição vertical durante 10 a 20 minutos; para dormir, devem ser posicionados em decúbito dorsal”, segundo as recomendações da OMS. Entre as recomendações maternas, como as de Carolina e Natalia, a assistência profissional é essencial para o diagnóstico e o tratamento. E, cuidadores, preparem-se para se adaptar a uma rotina um pouco mais azeda e com mais roupinhas para lavar. Em tempo: não é somente a mãe a responsável por lavar roupa, ok?

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