A tensão entre cultura popular e segurança pública volta ao centro do debate, com holofotes sobre o Carnaval carioca.
As relações entre celebridades, escolas de samba e figuras apontadas como contraventores voltam a ser discutidas. A fala de um ex-capitão do BOPE acendeu uma comparação incômoda e colocou artistas da TV sob escrutínio.
As críticas de Rodrigo Pimentel ganham eco
O ex-capitão do BOPE e ex-comentarista de segurança pública da Globo, Rodrigo Pimentel, questionou a presença de estrelas em ambientes associados a chefes do crime. Em entrevista recente, ele comparou a ida de influenciadores a bailes em áreas dominadas por facções à presença de atrizes em quadras de escolas de samba cujos patronos são apontados como envolvidos com contravenção.
Para Pimentel, há um duplo padrão quando a fama se encontra com territórios sob influência criminosa. Ao citar a advogada e influenciadora Deolane Bezerra, ele argumentou que o mesmo rigor usado para cobrar quem frequenta bailes armados deve valer para celebridades em eventos carnavalescos financiados por figuras controversas.
O cerne da crítica: a normalização de presenças ilustres onde a influência do crime ganha verniz social.
As declarações surgem em meio a uma megaoperação policial em comunidades do Rio que reacendeu discussões sobre a permeabilidade entre cultura, política e crime organizado. O tema movimentou redes sociais e dividiu opiniões no mundo do entretenimento.
Quem é Deolane e por que entrou na mira
Deolane Bezerra, ligada ao mercado de apostas on-line e ex-participante de reality show, costuma adotar postura combativa. Em 2024, ela afirmou em entrevista televisiva preferir defender réus confessos a clientes que, segundo ela, tentam enganar. Também disse ter sido advogada de “alguns” integrantes do PCC. As falas, públicas e documentadas, foram usadas por Pimentel como exemplo para questionar limites éticos de figuras públicas em ambientes de risco.
O ponto levantado pelo ex-BOPE não se restringe a uma pessoa. Ele mira a lógica de prestígio que se cria quando celebridades reforçam espaços e personagens com histórico de denúncias. Essa prática dá sobrevida social a estruturas que se beneficiam do espetáculo, da proximidade com a mídia e da aura de glamour.
O Carnaval entre patrocínio, contravenção e política
O financiamento do Carnaval do Rio é complexo. Envolve subvenções públicas, patrocínios privados, turismo, venda de fantasias e apoio de patronos. Parte dessa engrenagem convive historicamente com o jogo do bicho, contravenção prevista em lei e ainda presente na memória das escolas. Esse passado alimenta dúvidas sobre a influência de velhos e novos benfeitores.
Em períodos de maior tensão, o debate volta à tona. Quem sustenta o desfile? Quem ganha com a exposição? E até onde a presença de artistas sinaliza endosso a práticas ilícitas? Sem acusações formais específicas, a discussão gira em torno de responsabilidade simbólica e de reputação.
Quando a cultura vira vitrine, cada aparição pública movimenta dinheiro, poder e narrativa.
Como as escolas são financiadas hoje
Mesmo com a profissionalização das agremiações, a ordem financeira ainda depende de múltiplas fontes. Algumas são transparentes. Outras nem tanto. A falta de padronização de compliance na cadeia do Carnaval abre espaço para ruído e suspeita, especialmente quando nomes citados em investigações aparecem nos bastidores.
- Recursos públicos: subvenções e contratos ligados a turismo e cultura.
- Receita própria: bilheteria, ensaios, fantasias, camarotes e produtos.
- Patrocínio privado: marcas que ativam experiências e mídia nos desfiles.
- Patronos: doações de pessoas físicas, muitas vezes decisivas no orçamento.
- Prestação de contas: exigências variam; nem sempre há auditoria independente.
O que está em jogo para celebridades e marcas
Para artistas, a linha é tênue. Estar em uma quadra ou em um baile pode ser apenas trabalho, sociabilidade ou agenda profissional. Mas há risco de associação indireta. O público costuma interpretar presença como apoio. Marcas, por sua vez, evitam exposição a ambientes onde a origem dos recursos não é clara.
Nesse contexto, a fala de Pimentel atraiu atenção por cobrar coerência. Se há crítica dura a influenciadores em bailes controlados por facções, por que relativizar quando o palco é o Carnaval? O argumento coloca a mesma lente sobre ambientes diferentes, mas atravessados por interesses semelhantes: dinheiro, projeção e poder local.
Coerência virou palavra-chave: mesmo ambiente de risco, mesma régua para avaliar escolhas públicas.
O que diz a lei e onde estão os limites
Frequentar eventos, por si só, não configura crime. O problema surge quando há promoção de atividade ilícita, financiamento com dinheiro sujo ou relação que caracterize favorecimento a organizações criminosas. A jurisprudência exige provas, mas a reputação pesa antes de qualquer sentença.
Advogados consultados em casos parecidos costumam apontar três zonas de atenção: origem do cachê, uso de imagem para legitimar estruturas suspeitas e repetição do vínculo. Sem transparência, a vulnerabilidade jurídica cresce, e a reputação sofre abalo imediato.
Como o público pode avaliar o que vê
Nem toda crítica procede. Há generalizações que mais aquecem a polêmica do que esclarecem fatos. Ainda assim, há sinais práticos que ajudam o consumidor a formar opinião e cobrar coerência de quem admira.
- Transparência: artistas divulgam o contratante e a natureza do evento?
- Condições de segurança: há protocolos e autorização oficial para o local?
- Recorrência: é presença pontual ou vínculo frequente com o mesmo grupo?
- Contrapartida social: existem ações públicas de responsabilidade naquele território?
- Resposta às críticas: há postura ativa para esclarecer dúvidas?
Boas práticas que podem reduzir riscos
Celebridades e equipes podem adotar rotinas simples para diminuir a chance de associação com atividades ilícitas. O mesmo vale para produtores culturais e diretores de escolas de samba que desejam blindar projetos.
- Due diligence básica do contratante, com checagem em bases públicas.
- Contratos formais, com origem dos recursos explicitada e notas fiscais.
- Cláusulas de integridade, prevendo rompimento em caso de irregularidades.
- Transparência prévia sobre cachês e finalidade do evento.
- Equipe jurídica e de compliance avaliando riscos reputacionais.
O impacto na avenida e o que pode mudar
O Carnaval tende a passar por ajustes. O tema volta a pressionar por auditorias independentes em subvenções e por políticas de integridade nas agremiações. Marcas parceiras avaliam contratos com mais rigor. Celebridades passam a exigir histórico do contratante antes de posar em quadras ou camarotes.
Se essa pressão se consolidar, a consequência prática é um Carnaval mais documentado e com menos espaço para nebulosidade financeira. A imagem dos desfiles como patrimônio cultural permanece. O desafio está em afastar a percepção de que dinheiro sem origem clara segue movendo carros e fantasias.
Os citados têm espaço para apresentar sua versão dos fatos; o debate segue aberto e necessário.
Informações úteis para o leitor
Jogo do bicho é contravenção prevista na Lei de Contravenções Penais, diferente de crime. A distinção técnica muda a pena aplicável, mas não elimina o risco reputacional quando dinheiro da contravenção financia atividades culturais. Em paralelo, leis de lavagem de dinheiro alcançam recursos de origem ilícita, ainda que misturados a atividades legais.
Para quem ama o Carnaval e quer participar com consciência, uma boa prática é valorizar iniciativas com prestação de contas pública e projetos sociais permanentes nos territórios. Outra medida é observar a evolução das regras de subvenção municipal e estadual, que tendem a exigir mais transparência de quem recebe verba e de quem patrocina a festa.



Le parallèle de Pimentel est interéssant: si on critique les influenceurs dans des bailes contrôlés, pourquoi fermer les yeux quand il s’agit de quadras sponsorisées par des patrons présumés? Sans juger qui que ce soit, exigeons la même transparence sur l’origine des fonds, les cachés et les contrats. Les marques et les artistes devraient publier qui paye quoi.
Sujet épineux, débat nécessaire.