Brasilienses pagaram R$ 4,7 milhões: você aceitaria alugar 3 TVs por R$ 54 mil e 20 karts hoje?

Brasilienses pagaram R$ 4,7 milhões: você aceitaria alugar 3 TVs por R$ 54 mil e 20 karts hoje?

A pista brilhou, os motores rugiram e o público se divertiu. Depois da festa, surgiram dúvidas sobre contratos, prazos e equipamentos.

No rastro do Acelera Brasília, parceria bancada por emendas no DF, o Ministério Público investiga suspeitas de preços inflados e uso comercial de bens adquiridos para o evento.

Como surgiu a investigação

O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios abriu apuração sobre o Acelera Brasília 2024, que consumiu R$ 4,7 milhões. A entidade responsável, o Instituto de Produção Socioeducativo e Cultural Brasileiro, executou a ação no estacionamento da Arena BRB. O dinheiro saiu de emendas de 14 deputados distritais, com maior aporte de Roosevelt Vilela (PL), R$ 1,7 milhão, e Daniel Donizet (MDB), R$ 1 milhão.

R$ 4,7 milhões em recursos públicos financiaram o Acelera Brasília 2024. O MP busca respostas sobre preços, contratos e destino dos bens.

Documentos enviados aos investigadores listam itens que, segundo denúncias, teriam custado mais que a média de mercado. Entre os exemplos, o aluguel de três televisores por 90 dias por R$ 54 mil. Outro ponto sensível: vinte karts alugados pelo mesmo período por R$ 720 mil. Também entrou no radar a cessão de um espaço de 17,5 mil m² na Arena BRB por quatro meses, ao custo de R$ 956 mil, com estrutura de pista e áreas de suporte inclusas.

Os números que chamam atenção

Os comparativos abaixo ajudam você a avaliar a proporcionalidade dos gastos:

Item Prazo Valor pago Equivalência no mercado
3 televisores 90 dias R$ 54.000 Preço de compra a R$ 2.000/unid. permitiria adquirir ~24 TVs
20 karts 90 dias R$ 720.000 Estimativa indica compra de ~36 karts novos
Espaço na Arena BRB (17,5 mil m²) 4 meses R$ 956.000 Instalação de pista, áreas de suporte e serviços associados

Na prática, o aluguel de 3 TVs por R$ 54 mil gera um custo médio de R$ 200 por dia por aparelho. Uma TV de R$ 2 mil “se paga” em dez dias nesse ritmo de aluguel. Em 90 dias, o gasto por TV atinge R$ 18 mil, nove vezes o preço estimado de compra.

Nos karts, o valor por dia ficou em R$ 400 por unidade. Em 90 dias, cada kart sai por R$ 36 mil no aluguel. A referência de compra, estimada a R$ 20 mil por unidade, indica que o gasto com 90 dias supera a aquisição em 80% por kart, sem considerar manutenção e depreciação.

Cláusulas e destino dos bens

O termo de fomento do Acelera Brasília 2024 trouxe uma cláusula sobre a titularidade de bens usados na parceria. Pela regra, bens poderiam ser doados à organização da sociedade civil e a terceiros, com retirada em até 60 dias após o ato de doação.

A possibilidade de doação de bens da parceria a uma OSC ou terceiros acendeu o alerta sobre eventual apropriação e uso comercial posterior.

Informações encaminhadas aos promotores relatam que a estrutura custeada com verba pública teria sido explorada comercialmente após o fim do evento. Esse uso, se confirmado, levanta dúvidas sobre a destinação correta dos bens e o cumprimento do plano de trabalho pactuado.

Quem pagou a conta e como funcionam as emendas

As emendas parlamentares, que somaram os R$ 4,7 milhões de 2024, permitem que deputados direcionem recursos a projetos específicos. A prática é legal, mas exige parâmetros de preço, plano de trabalho detalhado e prestação de contas. O controle envolve a Secretaria de Esporte e Lazer, órgãos de fiscalização urbana e o próprio Ministério Público, além do Tribunal de Contas do DF.

Perguntas que a investigação precisa responder

  • Os preços praticados estiveram acima das referências de mercado?
  • Houve conformidade da cláusula de bens com a legislação de fomento a OSCs?
  • Bens e estruturas pagos com verba pública foram usados de forma comercial depois do evento?
  • A Secretaria de Esporte e Lazer conferiu a execução conforme o plano de trabalho?
  • Empresas que atuaram no espaço operaram com licenças válidas?

Fiscalização no terreno e autuação

Após pedido do Ministério Público, a fiscalização urbanística vistoriou a área da Arena BRB. O relatório aponta que o Kart Point era administrado por Victor Lucas Branquinho Kart Ltda., com arrendamento da concessionária. Sem licença de funcionamento para a atividade, a empresa recebeu autuação. O órgão de investigação informou ter oficiado a Secretaria de Esporte e Lazer. A pasta afirma que não recebeu notificação, sustenta que segue parâmetros de preços públicos e diz que a prestação de contas está sob análise técnica, dentro dos prazos.

Em 2025, novo evento e mais dinheiro

O governo firmou parceria com a Federação de Automobilismo do DF para a segunda edição, realizada em outubro no Guará. O Acelera Brasília 2025 custou R$ 5,5 milhões, novamente pagos com emendas. O evento também entrou na mira dos investigadores.

Edição 2025: R$ 5,5 milhões em emendas e novas diligências sobre contratos, execução e preços.

O que diz a lei de parcerias

Parcerias com organizações da sociedade civil seguem regras da Lei 13.019/2014. O termo de fomento exige plano de trabalho, metas, cronograma, orçamento e indicadores. Bens duráveis precisam de inventário, rastreabilidade e destinação compatível com o interesse público. Doações de bens da parceria, quando permitidas, devem observar regras de economicidade, motivação formal e transparência.

Riscos comuns nesse tipo de contrato

  • Aluguel caro de itens que poderiam ser comprados por menor preço total.
  • Aquisição de serviços pouco detalhados, difícil de medir e atestar.
  • Cláusulas vagas sobre bens, que permitem perda de patrimônio público.
  • Uso privado de estruturas montadas com verba pública após o evento.
  • Falta de licenças para atividades comerciais em áreas públicas ou concessionadas.

Como o cidadão pode acompanhar e comparar

Você pode verificar empenhos, liquidações e pagamentos no Portal da Transparência do DF e acompanhar prestações de contas publicadas pelos órgãos. Vale comparar preços de referência com bases públicas de compras, consultar catálogos de fornecedores e checar parâmetros de diárias de locação. Em caso de suspeita, qualquer pessoa pode acionar o Ministério Público ou o Tribunal de Contas com dados objetivos.

Exemplo prático para medir economicidade

Considere um item de R$ 2.000. Se a locação diária custa R$ 200, a compra se paga em dez dias de uso. Ao planejar um evento de 90 dias, a conta de aluguel sobe para R$ 18.000 por unidade, sem deixar patrimônio ao final. Quando o contrato prevê doação de bens ou transferência a terceiros, a exigência de justificativa técnica e comissão de acompanhamento do ajuste ganha peso, porque qualquer lacuna pode transformar gasto temporário em custo permanente para o erário.

Próximos passos prováveis

O Ministério Público pode instaurar inquérito civil, requisitar documentos, ouvir gestores, propor ação de improbidade caso identifique dolo e pedir ressarcimento ao erário. O órgão urbanístico segue com processos sancionatórios por atividade sem licença. O controle externo pode auditar contratos, glosar despesas e apontar responsáveis. Enquanto isso, a análise de prestação de contas do projeto continua, com possibilidade de exigência de devolução de valores e correção de rumos em futuras parcerias.

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