Uma bicicleta usada, quatro alforjes e tempo de sobra. A história começa sem glamour e termina com memórias que mudam vidas.
Um gaúcho de 38 anos somou 10 mil quilômetros pedalando em duas longas jornadas pela América do Sul. Ele partiu sem rotina de treinos, confiou na própria saúde e na hospitalidade alheia, reduziu custos e descreveu encontros e paisagens como a grande recompensa de viver devagar na estrada.
Quem é o viajante e como a ideia ganhou forma
Atila Valadares trabalha como editor de vídeo e nunca se viu como atleta. A curiosidade veio das histórias de estrada de um primo motociclista e de conversas com amigos que falavam de viagens de bicicleta. Ele mergulhou em relatos de cicloviajantes, estudou rotas em blogs e definiu um princípio: ir sem pressa e com autonomia.
Foram duas viagens longas (2013–2014 e 2017–2018) que somaram 10 mil quilômetros, muita carona, pouco dinheiro e uma rede de solidariedade.
Sem treino, com saúde e estratégia de tempo
Ele não seguiu planilha de treino. Checou a saúde, ajustou a bike e priorizou resistência mental. A regra pessoal: cuidar do corpo, pedalar no ritmo do dia, aceitar pausas e respeitar o terreno.
Primeira jornada (2013–2014): do litoral gaúcho ao Atacama
A primeira saída ocorreu em novembro de 2013, desde Imbé, no litoral do Rio Grande do Sul. O plano era atravessar países vizinhos e alcançar o Deserto do Atacama, um antigo sonho. A rota incluiu Colônia do Sacramento, no Uruguai, e cidades argentinas como Buenos Aires e Rosário. Em Rosário, ele sofreu um assalto, mas seguiu viagem e construiu amizades que renderam acolhimento e apoio.
De trem, avançou até San Miguel de Tucumán e, de volta ao selim, percorreu centenas de quilômetros pela Rota 40. O Chile chegou em San Pedro de Atacama, já em março de 2014. Ali, o dinheiro rareou, e ele decidiu trabalhar. O deserto virou casa por seis meses. O retorno ao Rio Grande do Sul veio de avião, em outubro.
Orçamento da primeira viagem: cerca de R$ 400 por mês, com camping, casas de moradores, hostels e até quartéis de bombeiros.
Autonomia com quatro alforjes
Ele dividiu a carga em quatro bolsas: moradia (barraca e saco de dormir), cozinha (panela e frigideira), comida e roupas. Essa organização reduziu gastos, ampliou a segurança e permitiu bivacar quando necessário.
Segunda jornada (2017–2018): Andes e Patagônia em dupla
Depois de vender a bicicleta Trek 930 usada, ele a recomprou. Com uma namorada, iniciou a segunda viagem na Colômbia e desceu por Equador, Peru e Bolívia. No Chile, seguiu por trechos da Carretera Austral. A Argentina encerrou o itinerário, com a Patagônia como meta.
Nem tudo foi pedal. Ônibus e caronas encurtaram distâncias e ajudaram a escapar de janelas de mau tempo. O ciclista levou notebook, tripé e câmera para fazer trabalhos esporádicos e sustentar a estrada. Parte do retorno aconteceu de avião e de barco; o trecho do Uruguai até o Rio Grande do Sul veio com a carona de um amigo.
Na Carretera Austral, o casal pedalou mais de 1.000 km em cerca de 80 dias, com acampamentos selvagens e poucas noites em camping estruturado.
Rota, números e logística das duas viagens
| Período | Saída e chegada | Países e marcos | Km pedalados | Como voltou |
|---|---|---|---|---|
| 2013–2014 | Imbé (RS) → Atacama (Chile) | Uruguai, Argentina (BA, Rosário, Tucumán, Rota 40), Chile (San Pedro) | ~4.000 km | Avião até o RS |
| 2017–2018 | Colômbia → Patagônia (Argentina) | Equador, Peru, Bolívia, Chile (Carretera Austral), Argentina | ~6.000 km | Avião, barco e carona |
Onde dormir e quanto gastar
O teto mudava a cada quilômetro. Ele alternou barraca, hostels simples, casas de moradores e, às vezes, quartéis de bombeiros. Uma plataforma de hospitalidade e a rede de cicloviajantes facilitaram contatos. Esses convites permitiram reduzir custos e criar laços.
Os maiores gastos entravam na conta da comida, da manutenção das bicicletas, de eventuais deslocamentos pagos e de hospedagens pontuais. No primeiro roteiro, o valor mensal girou em R$ 400. Na segunda viagem, a experiência trouxe mais precisão para fazer mercado e ajustar o ritmo às condições da estrada.
Hospitalidade, planejamento básico e adaptação diária sustentam longas rotas com orçamento bem baixo.
Equipamentos que fizeram diferença
- Bicicleta robusta e revisada (Trek 930 usada, recomprada para a segunda jornada).
- Alforjes impermeáveis, com divisão clara de categorias.
- Barraca leve, saco de dormir e isolante térmico para frio andino e noites úmidas.
- Ferramentas e peças de reposição simples: câmaras, remendos, cabos, pastilhas de freio.
- Caderno de anotações ou celular para registrar contatos e dicas de hospedagem.
- Eletrônicos para trabalho eventual: notebook, tripé e câmera.
Pessoas, paisagens e a linha tênue entre aventura e rotina
A recepção ao ciclista chama atenção. Chegar de bicicleta desarma as defesas. Moradores convidam para um banho quente e um prato de comida. Outros oferecem o quintal para armar a barraca. A vulnerabilidade vira ponte.
Nem tudo brilha. O assalto em Rosário e dias de vento contrário testaram a cabeça. Em certo ponto, a novidade virou repetição. Quando a estrada passou a parecer expediente, ele encerrou as etapas. A memória que fica: gente e geografia.
Quer seguir a mesma rota? Guia rápido para você
Planeje sem pressa
- Tempo define quase tudo. Reserve janelas para descansar, trabalhar e esperar clima melhor.
- Rotas de altitude exigem aclimatação gradual. Programe subidas curtas nos primeiros dias andinos.
- Leve autonomia hídrica para trechos remotos, como deserto e pampa ventoso.
Documentos, saúde e segurança
- RG em bom estado resolve fronteiras do Mercosul; verifique prazos e exigências específicas.
- Vacinas em dia e kit de primeiros socorros na bolsa de fácil acesso.
- Evite pedalar à noite e informe contatos sobre o próximo destino.
Simulação de orçamento mínimo atual
| Duração | Orçamento sugerido | Como gastar menos |
|---|---|---|
| 30 dias | R$ 1.200 a R$ 2.000 | Mais camping e cozinha própria; priorize mercados locais |
| 60 dias | R$ 2.400 a R$ 4.000 | Negocie hospedagens solidárias; faça manutenção preventiva |
| 90 dias | R$ 3.600 a R$ 6.000 | Evite transporte pago em longos trechos; ajuste ritmo ao clima |
Os valores mudam com câmbio, custo regional de comida e eventuais manutenções maiores. A lógica segue a do viajante gaúcho: cozinhar, aceitar convites seguros, pedalar devagar e reduzir imprevistos.
Rota em destaque: do Caribe aos Andes, até o fim do mundo
O segundo roteiro mostra uma costura de diferentes climas. Colômbia e Equador rendem estradas verdes e subidas constantes. No Peru e na Bolívia, a altitude exige paciência e hidratação. A Carretera Austral, no Chile, combina lago, monte e chuva fina. Na Patagônia argentina, o vento dita o relógio. O deserto do Atacama, visitado nas duas fases de vida do ciclista, oferece silêncio e céu aberto para acampar com autonomia.
Para onde ir depois e como a vida muda
Ele cogita novas rotas, possivelmente Europa ou Estados Unidos. A chegada da paternidade traz outro tipo de mapa: o desejo de manter a estrada por perto e, quem sabe, ver a filha pedalar em viagens futuras. Ao fim, a bicicleta vira linguagem familiar e ferramenta de aprendizado.
Quer começar? Teste um fim de semana com 80 km, durma em camping, cozinhe no fogareiro e anote o que faltou. Refaça a mochila, ajuste a posição no selim e aumente a distância. A estrada recompensa quem chega sem pressa, com a cabeça aberta e o coração leve.



Sans entrainement, vraiment ? 10 000 km à travers Andes et Patagonie sans plan de récup, ça ressemble à une glorification du risque. Où sont les infos sur blessures/overuse et gestion des imprevus météo ?