Enquanto a cidade dormia, um comboio policial cercou um prédio esquecido. Do lado de dentro, famílias empacotavam pressa e incerteza.
O antigo Hotel Colorado, em Taguatinga, voltou ao mapa nesta quinta (30/10). Depois de semanas de negociação com o poder público, o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas anunciou que as famílias decidiram sair do imóvel durante a operação de reintegração de posse. O acordo com a Polícia Militar definiu a retirada pacífica e abriu uma nova etapa: a corrida por uma alternativa de moradia.
Madrugada de operação
Equipes da Polícia Militar chegaram por volta das 3h30. Viaturas fecharam acessos e orientaram a desocupação ao amanhecer. Um ônibus e um caminhão de mudança entraram no estacionamento para agilizar a saída dos pertences, enquanto lideranças do movimento conferiam listas de moradores.
Com um acordo firmado no local, famílias começaram a deixar o prédio sem confronto, levando móveis e documentos. O foco agora recai sobre o atendimento social e a inclusão em programas habitacionais.
Segundo o movimento, cerca de 80 famílias viviam no prédio, muitos com crianças, idosos e pessoas com dificuldades de locomoção. O imóvel estava desativado há aproximadamente 15 anos, sem uso e acumulando degradação.
Como surgiu a ocupação
A ocupação começou em 7 de setembro, em um ato pelo direito à moradia. O grupo viu no antigo hotel uma saída temporária diante do aumento do aluguel e da fila por habitação popular na capital federal. Moradores relatam despejos recentes, emprego informal e renda instável como fatores que empurraram a coletividade para a ação direta.
A partir daí, representantes do movimento abriram negociação com o governo local para registrar as famílias e apresentar o perfil de vulnerabilidade social à rede de assistência. A expectativa era deixar o terreno improvisado e buscar um encaminhamento institucional.
Negociação e promessa de cadastro
Uma audiência judicial estabeleceu que a Secretaria de Desenvolvimento Social faria o cadastro das famílias e criaria um relatório com as situações mais urgentes. O documento, segundo os representantes, foi finalizado na noite anterior à operação e enviado à Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal para análise de prioridade.
Relatório social entregue: a bola está com a habitação para definir prioridade e próximos passos de inclusão.
Enquanto o relatório circulava, a ordem de reintegração avançou. O movimento considerou que o processo de negociação seguia aberto, mas decidiu orientar a saída para evitar risco a crianças e idosos e proteger bens pessoais.
Quem vivia no antigo hotel
Os perfis levantados mostram diversidade de histórias e carências. Entre os moradores havia famílias chefiadas por mulheres, trabalhadores informais, pessoas desempregadas, migrantes recentes e idosos sem rede familiar. Crianças estavam em período escolar e exigiam atenção para transporte e continuidade de matrículas.
- Famílias chefiadas por mulheres com renda intermitente;
- Trabalhadores informais e diaristas com queda de demanda;
- Idosos e pessoas com doenças crônicas que dependem de medicamentos;
- Crianças em idade escolar, com necessidade de garantir vaga e transporte;
- Migrantes internos em busca de oportunidade no DF.
Durante a retirada, moradores priorizaram documentos, remédios, roupas e itens de cozinha. Doações de colchões, água e alimentos chegaram por meio de redes solidárias do próprio movimento.
O que esperar nos próximos dias
Após a saída do prédio, a rede socioassistencial deve atualizar cadastros e identificar quem tem perfil para benefícios emergenciais, como acolhimento temporário, cestas e auxílio para aluguel. A avaliação de prioridade na habitação social também entra em pauta, com base no relatório entregue.
| Órgão | Papel no caso |
|---|---|
| Polícia Militar | Cumprir a ordem judicial e negociar uma retirada sem confronto |
| Secretaria de Desenvolvimento Social | Cadastrar famílias, avaliar vulnerabilidade e emitir relatório social |
| Codhab | Analisar o relatório e definir critérios de prioridade para programas de moradia |
| Judiciário | Conduzir a ação de reintegração e acompanhar medidas de proteção social |
Direito à moradia versus propriedade
A reintegração de posse coloca em choque duas dimensões reconhecidas pela legislação: o direito de propriedade e a função social da moradia. Decisões judiciais costumam exigir avaliação prévia de risco social e a adoção de medidas para evitar que o despejo gere situação mais grave do que a anterior. A presença de crianças, idosos e pessoas com deficiência pesa na definição de prioridades e na necessidade de atendimento imediato.
Sem endereço fixo, a renda cai e o acesso a emprego, escola e saúde sofre. A resposta pública precisa ser rápida e rastreável.
Operações de madrugada reduzem o impacto no trânsito e no comércio, mas também aumentam a ansiedade de quem dorme no local e precisa desmontar a vida às pressas. Por isso, protocolos de proteção social e de comunicação com as famílias fazem diferença na prática.
Como as famílias podem se organizar agora
Para acelerar o acesso a benefícios e garantir presença nas listas de prioridade, cada núcleo familiar precisa manter documentação atualizada e comprovar sua situação de vulnerabilidade. O passo a passo básico ajuda a atravessar os próximos dias com menos perdas.
- Separar documentos: RG, CPF, certidões, laudos médicos, comprovantes de renda e de escola das crianças.
- Atualizar o CadÚnico no centro de referência de assistência social mais próximo.
- Solicitar avaliação para benefício eventual, como auxílio aluguel emergencial, quando disponível.
- Registrar contato telefônico confiável para receber chamadas e mensagens dos órgãos públicos.
- Guardar protocolos e número de processos para acompanhar prazos e decisões.
Perguntas que você pode fazer ao atendimento
Que tipo de benefício eu posso solicitar hoje? Em quanto tempo a análise do relatório vira decisão? Como acompanho minha posição na fila da habitação? Meu filho terá manutenção da matrícula e transporte escolar? Há vaga de acolhimento temporário para idosos ou pessoas com deficiência?
Informações úteis para quem enfrenta despejo
Reintegrações costumam prever o acompanhamento de equipes sociais. Quando a família recebe orientação estruturada, o risco de perda de documentos, de interrupção de tratamento médico e de evasão escolar diminui. Uma alternativa frequentemente acionada é o auxílio aluguel, um repasse temporário que permite alugar um quarto ou kitnet até a solução habitacional definitiva. O valor e os critérios variam e dependem de avaliação técnica.
Para quem tenta ingresso em moradia popular, valem alguns cuidados: manter o CadÚnico ativo, comunicar mudança de telefone, informar composição familiar correta e registrar formalmente situações de violência doméstica, deficiência ou doença crônica. Esses fatores costumam influenciar a prioridade. Quem atua no trabalho informal pode apresentar declaração simplificada de renda, assinada, com contatos de referência de empregadores eventuais.
A soma de cadastro atualizado, documentos em dia e atendimento social consistente encurta caminhos e reduz lacunas entre a desocupação e uma moradia digna.
O caso do antigo Hotel Colorado mostra como a articulação entre movimento social, assistência e habitação precisa andar no mesmo ritmo da operação policial. Para moradores, cada dia sem endereço custa caro: compromete renda, rompe rotinas de cuidado e afasta da escola. Para gestores, o desafio é transformar rapidamente um relatório em ação concreta, com benefício emergencial e perspectiva real de acesso à casa própria.



15 ans d’abandon et on mobilise la Police à 3h30 pour vider 80 familles… La ville a un sérieux prblm de priorités. Où sont les solutions de habitaion d’urgence annoncées? On parle de CadÚnico, de Codhab, mais les loyers flambent pendant qu’on attend les listes.
3h30, sirènes… super réveil pour Taguatinga 🙂