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Como retomar a vida sexual após o primeiro filho

by Redação taofeminino Published on 16 de fevereiro de 2016

O pós-parto envolve disposição, tempo e horas de sono perdidas (sim, bebês não dormem como adultos). A retomada da vida sexual nesse período pode ser um desafio. Por Juliana Couto

O puerpério, período decorrente do parto até que o estado geral da mulher volte às condições anteriores à gestação, exige muito da nova mãe. O bebê é dependente principalmente dela até os seis meses de idade e requer muitos cuidados. Além disso, a vida está se reorganizando ao redor com um novo membro na família, o aleitamento materno (exclusivo até os seis meses, conforme recomenda a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde) envolve entregar-se à cria, as mudanças no corpo da mulher podem ser chocantes, os hormônios estão completamente alterados em função do filho, a pressão social para dar conta de cuidar de um bebê, amamentar, cuidar da casa (sim, majoritariamente, os cuidados da casa ainda são relegados à mãe recém-parida, pasmem) e ainda cuidar de si mesma – como se a vida seguisse o mesmo curso. E, para completar, a pressão de ter a vida sexual inalterada.

Segundo Lígia Baruch de Figueiredo (SP), psicóloga clínica e pesquisadora de temas contemporâneos (incluindo sexualidade feminina) e mestre em Psicologia pela PUC-SP, “a chegada do primeiro filho é uma mudança drástica, pois inaugura uma experiência muito nova para o casal. Eles passam a ser pais e com isso vem a tensão, a responsabilidade, a falta de tempo, noites sem dormir... A antítese do prazer que necessita de tempo, energia e despreocupação. Sem falar da mudança hormonal, que no caso das mulheres, principalmente na fase da amamentação, que naturalmente se voltam para o cuidado da prole. Mas essa fase também pode afetar alguns homens que passam a enxergar a mulher de forma mais maternal e menos sexualizada.”

Entender que você nunca mais será a mesma

Para Maíra Suarez, mãe do Gael, de um ano e cinco meses, o essencial é se permitir mudar. “Meu puerpério foi punk. Gael sempre foi um bebê que lutou pra não dormir, acorda diversas vezes de madrugada, então eu vivo exausta, sem forças. Até o nono mês de Gael eu não possuía nenhuma lubrificação, parecia que tinha voltado a ser virgem. Com nove meses do Gael, a lubrificação voltou um pouco e o desejo também, antes disso o sexo acontecia raramente. Além da melhora do puerpério, o sono dele melhorou e eu criei um grupo sobre sexo no Facebook para mulheres conversarem sobre, sem nenhum pudor. Esse grupo reacendeu a chama que existia em mim até onde era possível, foi uma das melhores coisas que me aconteceu, mas eu ainda não sentia tanta excitação, pois não havia menstruado e ainda amamento. Quando menstruei, com um ano e um mês do Gael, minha libido melhorou um pouco, mas ainda aguardo uma supermelhora, depois que meu bebê desmamar.”

No caso de Maíra, não houve brigas entre o casal por causa da mudança na rotina sexual, mas pelo cansaço e pela falta de paciência. "Além de eu querer que ele fosse muito mais ativo. Mas ele sempre fez tudo. Ficamos muito afastados, por causa desse estranhamento. Cheguei a cogitar me separar. Estava cansada. Muito mesmo." Para Maíra, é importante conversar sobre tudo. “Sair, passear, conhecer pessoas, mães. Sair muito com bebê no sling. Desapegar um pouco e deixar o pai ou algum outro cuidador também cuidar do bebê. Dividir tarefas e cuidados do bebê. Se possível, terceirizar os cuidados com a casa nos primeiros meses. Descansar sempre que possível e procurar fazer uma atividade que te dá prazer."

Para Juliana Bertolini (SP), 36, mãe de Safira, oito meses, é preciso muito diálogo e muita informação para os homens entenderem a mudança que é para a mulher e se informarem ainda antes do parto. “O meu (companheiro) não se informa, eu que acabo martelando na cabeça dele, que participo de grupos, que li etc.". Após dois meses de relacionamento, ela engravidou e durante a gestação o sexo mudou. "Fiquei exausta e dolorida, tivemos poucas relações. Aí, veio o susto, tive pré-eclâmpsia grave, quase morri no processo de parto, a Safira veio prematura, aquele trauma todo. Eu, 10 dias de internação, ela, um mês na internação pré-natal. Fiquei destruída emocionalmente. Bem, conseguimos ter alguma relação quatro meses depois. Aos sete meses dela havia acontecido duas vezes. Nós brincamos bastante com a situação, tiramos sarro, e mantemos o carinho. Tem contato, abraço, beijo. Mas não tem uma relação completa.”

A culpa não é do bebê

Para Aline Rossi (SP), 36, mãe de Stella, um ano e nove meses, a mudança na vida sexual também foi intensa. “O desejo de sermos pais surgiu naturalmente e engravidei em menos de um ano. Durante a gestação, a vida sexual foi legal. Aliás, toda a gestação foi bacana, foi uma das melhores épocas da minha vida! Fiz atividade física, fiz acompanhamento nutricional, mantive meus bons hábitos, trabalhei bastante como já fazia. Tive muita disposição! Stella nasceu de parto natural hospitalar e Luís acompanhou tudo, foi demais isso, sinto que fortaleceu nosso relacionamento. Eu ainda amamento e tenho o apoio dele. Mas com a dedicação a ela, a vida sexual despencou. Ele também sofreu demissão nesse período de crise, o que afetou a autoestima dele e piorou a situação.” Para Aline, o essencial é a paciência. “Acredito que são fases e que os dois primeiros anos do bebê realmente nos demandam demais. Creio que outras formas de intimidade do casal podem amenizar a questão. É muita paciência e carinho com a mãe, que às vezes se sente mais sozinha por conta da amamentação e da curta licença-paternidade no Brasil”.

É importante mudar a percepção em relação ao sexo. Além da libido, mudada pelos hormônios do pós-parto e da amamentação, o cansaço da rotina com o novo bebê e o momento da mãe estar mais focada no filho, existe a fantasia (social) de que “o sexo tem que ser algo sempre espontâneo e especial”, segundo Ligia. “Quando se tornam pais, esses momentos ficam muito raros. É preciso cuidar, colocar na agenda um tempo para o casal sair, jantar, ir ao cinema. Caso seja deixado ao acaso, normalmente a sexualidade não volta a ser como era antes. Costumamos dizer que, com a chegada do primeiro filho, a vida sexual do casal tem duas possibilidades: na melhor das hipóteses desce e depois torna a subir como um U, na pior das hipóteses diminui até acabar”, completa.

“A gente já foi bem mais animado. Mas pelo cansaço, principalmente, por termos os horários invertidos, eu acordar muito cedo e ele acordar mais tarde, tivemos poucas oportunidades. Quando estamos juntos, o Artur está acordado, brincando. A gente está retomando aos poucos”, relata Carolina Vasconcellos (SP), 27, mãe do Artur, cinco meses. Após descobrir que está grávida de surpresa, sem fazer planos, Carolina passou por uma gestação tranquila, mas por ter tido um pequeno sangramento com 11 semanas e os hormônios transformados (e uma libido baixa), manteve poucas relações durante a gravidez. Agora, retoma sua vida sexual com parceria, tranquilidade e, claro, amor. “A primeira vez (após o parto) foi chocante. Eu não tive parto normal, eu achava que seria mais difícil se eu tivesse tido parto normal. Mas por ser cesárea, achei que não teria diferença. Mas tem sim. Acho que principalmente pela falta de lubrificação que a mulher tem durante o período de amamentação. Então a gente tem retomado aos poucos. Ainda não está como já foi”.

A frequência caiu drasticamente e ambos estão tranquilos em relação a isso? Ótimo! É importante saber que essa é uma fase, um período de aprendizado e dedicação ao filho e que vai passar. A pressão social que existe para que sempre haja excitação e pratique sexo regularmente é uma questão que deve ser resolvida entre o casal. "Se para ambos não houver problema a falta de sexo, está tudo bem. O problema surge quando um do casal não está satisfeito com a diminuição de frequência e fica ressentido, achando que o bebê foi o responsável pela sua perda de atenção." E, então, a culpa recai sobre o bebê, podendo criar situações em que o homem pede a mulher que ela vá ao médico para tratar a falta de interesse e de cobrança, quando o argumento é "não aguento mais, estou subindo pelas paredes". Segundo Ligia, esse tipo de comportamento é muito comum. "É preciso muita conversa, negociação. Sexo forçado nunca funciona. Negociação, paciência e cuidado com o outro são sempre importantes para a saúde emocional do casal."

A maternidade pede uma suspensão. Da rotina, dos costumes e da falta de diálogo. É preciso saber pedir ajuda, saber pedir espaço e permitir dividir a carga. É preciso esquecer o relógio, abrir a percepção para se comunicar com o seu filho e suspender, definitivamente, a falta de diálogo com seu parceiro(a). É preciso dialogar sobre o sono, sobre amamentação, sobre as fraldas (e, digamos, seu recheio), sobre a dor, sobre os cuidados. É preciso dialogar sobre o parto, que é um evento sexual na vida do casal. E é preciso falar sobre sexo. Pode ser com alta médica com 15 dias após o parto. Pode ser depois dos 40 dias necessários, caso você tenha feito uma cirurgia cesariana, por exemplo. É importante não se prender ao tempo. E, sempre, prender-se a ideia de construir esse novo relacionamento juntos.

Dicas para redescobrir o sexo

  • Explore outros lugares da casa: você não precisa fazer sexo no seu quarto, principalmente se o bebê estiver dormindo lá (não, não se acorda um bebê dormindo, só uma mãe com muito sono vai entender).
  • Converse com seu parceiro(a). É importante compreender que houve mudanças para os dois lados do casal.
  • Aceite que seu corpo mudou. Seja pelo parto normal, seja pela cesárea, seja pela amamentação, o seu corpo mudou. Sim, você continua linda.
  • Reserve um tempo para você. O bebê é muito dependente da mãe ao longo dos dois primeiros anos de vida. Muito. Procure dividir os cuidados do seu filho, procure reservar um tempo para você.
  • Parceria. É importante buscar um relacionamento de parceria e companheirismo. Nem pense em “agradar” seu companheiro(a) com sexo, brincadeiras sexuais. Você não foi feita para agradar seu companheiro(a), principalmente no puerpério.

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