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Violência obstétrica é institucionalizada no Brasil e atinge uma em cada quatro mulheres

Publicado por Redação taofeminino
em 16 de fevereiro de 2017

A violência obstétrica no país está enraizada na cultura do poder do médico sobre a paciente e tem duas vertentes: é escancarada quando uma enfermeira se debruça em uma gestante para ela parir mais rápido, e velada, quando a parturiente escuta “na hora de fazer foi bom”. Por Juliana Couto

Qualquer ato ou intervenção relacionada à mulher durante gestação, parto, puerpério ou abortamento e realizado sem informação e sem o seu consentimento explícito é violência obstétrica. Gritar, xingar, amarrar, ironizar e desrespeitar a mulher em sua autonomia e sua integridade física e mental, suas escolhas ou suas preferências, é violência obstétrica. No Brasil, uma em cada quatro mulheres sofre violência durante a gestação ou parto segundo a pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado, feita pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o SESC. Entre as principais agressões apontadas pela pesquisa estão o exame de toque de forma dolorosa, negar algum tipo de alívio para sua dor, gritar com a mulher, não informá-la de algum procedimento que está sendo feito em seu corpo e amarrar a mulher tirando sua autonomia. A violência obstétrica é institucionalizada no Brasil. Para compreender o cenário institucional da violência, é preciso compreender como a gestação deixou de ser um processo de gerar um filho e compartilhar informações e situações entre mulheres para passar a ser um evento médico-hospitalar, assim como o parto.

“O parto e o nascimento de um filho são eventos marcantes na vida de uma mulher. Infelizmente muitas vezes são relembrados como uma experiência traumática na qual a mulher se sentiu agredida, desrespeitada e violentada por aqueles que deveriam estar lhe prestando assistência. A dor do parto, no Brasil, muitas vezes é relatada como a dor da solidão, da humilhação e da agressão, com práticas institucionais e dos profissionais de saúde que criam ou reforçam sentimentos de incapacidade, inadequação e impotência da mulher e de seu corpo”. É o que aponta o dossiê sobre violência obstétrica Parirás com Dor, desenvolvido pelo Parto do Princípio, mulheres em rede pela maternidade ativa, entregue à CPMI da Violência contra a Mulher em 2012. De acordo com o documento, muitas vezes a violência acontece de modo velado e silencioso. “É assim, por exemplo, que alguns protocolos institucionais que em princípio visariam humanizar o atendimento são efetivados de modo a reforçar, na mulher, o sentimento de abandono, configurando-se como violência”. Um relato do documento exemplifica a violência velada: “Até hoje é rotina da maternidade, após a cesárea; o bebê é colocado entre os joelhos da mãe, pois já que não sentimos as pernas, o bebê não cai. Ninguém me ajudou, eu não conseguia levantar a cabeça para ver se ela estava incomodada com algo, não conseguia pegá-la, e não tinha ninguém na sala de recuperação. São 2 circulantes para 6 ou 8 leitos. Eu trabalhei nessa maternidade depois, e vi que era rotina. Sou formada hoje, além de doula, como técnica em enfermagem. Ficamos cerca de 1 hora a 1h30 ali, com ela [a bebê] no meio das minhas pernas. [E se o bebê chora, e as circulantes estão ocupadas, ele fica chorando? Tem como chamar uma das circulantes? ] Fica chorando, porque não tem campainha, não tem acompanhante para ajudar ou chamar alguém, então a mãe TEM que esperar alguém resolver vir”.

Breve história do pré-natal e da assistência ao parto no Brasil

A assistência ao pré-natal é decisiva para o desfecho do parto e visa basicamente promover saúde de mãe e bebê, identificando situações reais de risco e permitindo intervenções oportunas para a saúde de ambos. A revisão literária sobre o assunto intitulada Aspectos Históricos, Conceituais e Organizativos do Pré-natal registra que “numa análise sucinta da evolução da assistência pré-natal ao longo da História, pode-se distinguir três principais fases. O estudo da primeira fase remonta aos aconselhamentos às gestantes, também mencionados em outros livros antigos, como os escritos pelo médico hindu Susruta (século VI a.C.), para que se mantivessem alegres, evitassem a cólera e o medo e que obedecessem a recomendações dietéticas especiais. Esses conselhos, ainda que rudimentares, já antecipavam alguns preceitos de cunho psicossomático da moderna assistência pré-natal. Inicialmente, os cuidados específicos com a gravidez se baseavam apenas em medidas e aconselhamentos dietéticos e visavam, prioritariamente, ao organismo materno. Apenas em etapas posteriores, e de modo progressivo, ampliou-se a valorização do concepto, motivada pela diminuição das taxas de fecundidade e pelo crescente acesso tecnológico ao ambiente intrauterino”.

No Brasil, o cenário se configura a partir de uma série de mudanças no sistema de saúde ao longo do século 20. A Atenção Básica à Saúde passou por diversos ciclos e apenas em 1960 houve a "implantação de ações prioritárias para assistência à mulher, com ênfase às demandas relativas à gravidez, ao parto, e à criança". A publicação do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM) de 1983 é um marco no sentido de transformar os valores até então seguidos pelas políticas de saúde e propor ações no pré-natal voltadas a sua integridade e abordagem global em todas as fases da gestação, destacando o impacto e a transcendência no resultado perinatal. Até 2000 não havia um modelo que normatizasse a assistência à gestante brasileira. É desse ano o Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento (PHPN), lançado pelo Ministério da Saúde, que estabeleceu número de consultas, idade gestacional de ingresso, exames laboratoriais e ações de educação em saúde que criou a discussão sobre as práticas de saúde e as bases conceituais de assistência à gestação. Somente com o lançamento do programa Rede Cegonha em 2011 com o objetivo de “assegurar às mulheres o direito ao planejamento reprodutivo e a atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério e às crianças o direito ao nascimento seguro e ao crescimento e desenvolvimento saudáveis” é que algumas revisões sobre as práticas médicas durante o pré-natal passaram a ser reavaliadas institucionalmente.

Segundo o Grupo de Estudos sobre Nascimento e Parto (GENP), a mudança do parto domiciliar para o hospital a partir da segunda metade do século 20 foi decisiva para torná-lo um evento alienado. Se durante séculos o parto foi um evento feminino, realizado em casa e assistido por parteiras (ou comadres ou aparadeiras ou curiosas), o desenvolvimento do capitalismo deu à medicina moderna condições para que ela se tornasse responsável pelo controle de populações, incorporando, com o tempo, a prática obstétrica à medicina. A profissionalização do parto no Brasil coincide com a chegada da Família Real e a fundação das Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro. Essa profissionalização permitiu que não somente parteiras se tornassem (mais) qualificadas para a prática, mas que médicos se tornassem alternativas para partos complicados. A princípio, mulheres confiavam em mulheres para parir, por compartilharem das sensações e sensibilidades e conhecimentos passados por gerações. Esse cenário se transformou somente quando médicos passaram a atrair clientela para partos sem risco. A mudança para o hospital transfere a simbologia de confiabilidade da parteira para a dominação masculina, o que fica mais claro ainda se se observar que a partir do momento em que o parto hospitalar se populariza, as mulheres deixam de parir em posição vertical, que favorece mulher e bebê, e passam a parir em posição horizontal, o que garante o conforto do obstetra.

Violência obstétrica no pré-natal, parto e pós-parto

Dentro da estrutura de nascer no Brasil, desde o pré-natal até o nascimento, o Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública de São Paulo e Associação Artemis criou uma lista de exemplos do que é considerado violência obstétrica durante a gestação:

  • Negar atendimento ou criar dificuldade ao atendimento em postos de saúde onde são realizados pré-natais;
  • Dirigir comentários constrangedores à mulher por sua etnia, idade, escolaridade, religião ou crença, condição socioeconômica, orientação sexual, situação conjugal, número de filhos;
  • Ofender, humilhar ou xingar a mulher ou sua família;
  • Negligenciar atendimento de qualidade;
  • Agendar cesárea sem recomendação baseada em evidências científicas, atendendo interesses e conveniência do médico, baseada em mitos como: bebê muito grande, muito pequeno ou passando da hora; falta de espaço para passagem do bebê (porque a mãe tem baixa estatura ou quadril estreito); cordão enrolado no pescoço; pé do bebê "preso na costela" da mãe; pouco líquido amniótico; cesariana anterior; deficiência ou mobilidade reduzida; falta de contrações ou de dilatação fora do trabalho de parto; doenças como hemorroidas, hepatite, cardiopatia etc.

A lista também exemplifica o que é considerado violência obstétrica durante o parto e pós-parto (puerpério):

  • Recusar a admissão em hospital ou maternidade (peregrinação por leito);
  • Impedir a entrada na sala de parto do acompanhante escolhido pela mulher;
  • Realizar procedimentos que incidam sobre o corpo da mulher, que interfiram e causem dor ou dano físico sem a autorização dela. Exemplos: soro com ocitocina para acelerar o trabalho de parto; exames de toque sucessivos e por diferentes pessoas; privação de alimentos e líquidos (alegando uma possível necessidade de cesariana); episiotomia (corte na vagina para ampliar a área de atuação profissional); imobilização; uso de fórceps; manobra de Kristeller (empurrar a barriga da mãe durante o parto para expulsar o bebê, procedimento proibido pela Organização Mundial da Saúde); analgesia peridural (nem sempre necessária e feita sem permitir que antes a mulher tente métodos não farmacológicos de alívio da dor); romper artificialmente a bolsa amniótica;
  • Obrigar a parturiente a ficar deitada e não permitir que ela caminhe durante o trabalho de parto para que a gravidade possa ajudar a descida do bebê;
  • Dizer ou fazer algo que cause na mulher sentimentos de inferioridade, vulnerabilidade, abandono, instabilidade emocional, medo, acuação, insegurança;
  • Ameaçar a mulher de não atendê-la se ela gritar;
  • Fazer cesariana (que aumenta em três vezes o risco de morte para a mulher) sem indicação clínica e sem consentimento da mulher;
  • Impedir ou retardar o contato do bebê com a mulher logo após o parto;
  • Impedir o alojamento conjunto da mãe com o bebê, levando o recém-nascido para berçário por conveniência da instituição;
  • Impedir ou dificultar o aleitamento materno.

Por fim, a lista também contempla a violência obstétrica em caso de aborto:

  • Negar ou demorar o atendimento à mulher em situação de abortamento;
  • Questionar se a perda do bebê foi intencional ou não;
  • Realizar procedimentos predominantemente invasivos, sem explicação, consentimentos ou sem anestesia;
  • Ameaçar, acusar e culpar a mulher, ou coagi-la a confessar que provocou o aborto para denunciá-la à polícia.

Exame de toque, episiotomia e manobra de Kristeller, casos à parte da violência obstétrica

Algumas das violências obstétricas supracitadas são, infelizmente, práticas corriqueiras em hospitais e maternidade do Brasil, a exemplo do exame de toque, da manobra de Kristeller e da episiotomia. O exame de toque serve basicamente para avaliar a evolução da dilatação do colo do útero no trabalho de parto e posicionamento do bebê. Realizado fora do trabalho de parto, não tem validade. Aconteceu um sangramento? Um exame de toque pode provocar infecções. Toque em uma gestante com 25 semanas para ver se o colo está alto? Exceto se a parturiente estiver apresentando alguma queixa, não é necessário. Infecção urinária e confirmação de parto precoce ou de contrações de treino (Braxton) podem ser identificados por outros fatores antes que se decida pelo exame de toque. Ainda é preciso considerar que a parturiente pode não autorizar um obstetra a fazer o exame de toque e que há obstetras que realizam descolamento de membrana, para dar o gatilho do parto, sob a prerrogativa de estarem fazendo um exame de toque. A manobra de Kristeller é prejudicial para mãe e bebê. Segundo informações do site da Febrasgo e definição da ginecologista-obstetra Melânia Amorim, “é desnecessária e prejudicial, pois pode levar a ruptura do períneo por uma pressão muito grande e pode causar a redução da oxigenação do bebê”. Para o Conselho Regional de Medicina de São Paulo, a manobra é procedimento proscrito, atrelada a traumas materno-fetais. O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde condenam a prática, que traz riscos à saúde da mãe e do bebê. Ainda assim, pesquisa de 2014 da Fundação Oswaldo Cruz revelou que 37% das gestantes pertencentes ao grupo de risco obstétrico habitual foram submetidas à manobra no Brasil. Para impedir a realização do procedimento, a parturiente precisa apresentar um plano de parto à maternidade, que deve ser protocolado pela instituição com assinatura da equipe médica. A episiotomia é uma das intervenções mais ultrapassadas do parto normal instrumental e passou a ser feita para abreviar o expulsivo e contribuir para o nascimento conduzido pelo médico. Uma metanálise da Cochrane de 2005 indicou que a episiotomia não abrevia o expulsivo, não diminui a morbidade neonatal, aumenta a dor na mulher, pode provocar dor no sexo pós-parto e facilita o surgimento de infecções no pós-parto. Uma revisão de 2011 avalia ainda que a episiotomia aumenta a chance de lacerações graves, ou seja, de terceiro e quarto graus (laceração do períneo em graus: 1º, atinge mucosa; 2º, atinge pele e músculos; 3º atinge pele, músculos e esfíncter; 4º, acesso à luz intestinal). “Além disso, muitas vezes é realizado o “ponto do marido”, para deixar a vagina mais apertada e preservar o prazer masculino, o que, por sua vez, pode acarretar mais dor durante a relação sexual (para a mulher) e infecção. Estudos mostram que mulheres que não sofreram episiotomia tiveram menos trauma no períneo, precisaram levar menos pontos, com uma melhora mais rápida do tecido”, registra o Parirás com Dor. O ponto do marido é prática abusiva e reflete o comportamento social de domínio sobre o corpo da mulher, ou seja, é baseado em uma lógica machista na qual a mulher serve ao homem durante o sexo (por favor, liberte-se dessa lógica). Toda e qualquer vagina vai mudar ao longo do tempo, é inevitável, tenha a mulher passado por partos normais ou não. O canal vaginal, no entanto, volta ao estado anterior após um período do parto. A região externa, vulva e lábios, pode sofrer mudanças; varia de mulher para mulher.

As leis que regem o parto

A relação de desigualdade entre a mulher e o profissional de saúde é evidente quando se leva em consideração os desdobramentos do que a mulher sofre no parto. À mulher nenhuma proteção legal imediata é reservada e há dificuldade de se levar adiante denúncias de caráter violento de profissionais da saúde por ser difícil provar as agressões, além do fato de muitas mulheres desconhecerem seus direitos. Quais são, enfim, os direitos da mulher?

  • A Lei do Acompanhante está em vigor desde 2005 e garante à mulher um acompanhante durante o trabalho de parto, durante o parto e pós-parto (período por até 10 dias) em todos hospitais e maternidades brasileiras, públicas ou privadas, seja parto normal ou cesárea. Fica a critério exclusivo da parturiente a escolha do acompanhante para o momento do parto e pós-parto. Pode ser o companheiro(a), a mãe, uma amiga, uma doula. Não importa se há parentesco ou não e tampouco o sexo. As parturientes, porém, podem precisar lidar com a relutância da instituição em permitir um acompanhante por fatores tais como sala pequena, sala de pré-parto compartilhada e por isso reservada às mulheres, justificativa de que o acompanhante atrapalha o procedimento ou que há risco de infecção hospitalar. Em todos os casos, a instituição estará descumprindo a lei e a parturiente ou o acompanhante podem acionar a polícia e registrar um boletim de ocorrência.
  • A Resolução Normativa nº 368 define que as operadoras de planos de saúde, sempre que solicitadas, deverão divulgar os percentuais de cirurgias cesáreas e de partos normais por estabelecimento de saúde e por médico. Também serão obrigadas a fornecer o Cartão da Gestante e a Carta de Informação à Gestante, no qual deverá constar o registro de todo o pré-natal, e exigir que os obstetras utilizem o Partograma, documento gráfico onde é registrado tudo o que acontece durante o trabalho de parto. O Partograma passa a ser considerado parte integrante do processo para pagamento do procedimento. Nos casos em que houver justificativa clínica para a não utilização do documento, deverá ser apresentado um relatório médico detalhado. Se a cirurgia for eletiva, o relatório médico deverá vir acompanhado do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado pela beneficiária, que substituirá o Partograma no processo de pagamento do procedimento.
  • A cesárea após 39ª semana de gestação é uma nova regra para as gestantes. As parturientes que preferirem a cesariana em vez do parto normal têm o direito de fazer prevalecer sua escolha desde que o procedimento seja realizado após a 39ª semana de gravidez, de acordo com a Resolução Nº 2.144/2016 do Conselho Federal de Medicina. Apesar da resolução ir de encontro às regras estabelecidas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), desde 2015, a fim de estimular o parto normal na rede privada, o objetivo da determinação é garantir a segurança do feto já que a cesárea eletiva realizada antes desse período pode acarretar problemas no desenvolvimento da criança.

A importância do plano de parto

Categoria prioritária nas recomendações da Organização Mundial de Saúde para melhorar o nível do atendimento a mães e recém-nascidos em todo o mundo, o plano de parto é um documento elaborado pela gestante e protocolado na instituição na qual ela vai parir. No documento da OMS ‘Care in Normal Birth: a practical guide’ (Atenção no parto normal: um guia prático, em tradução livre), ele é o primeiro item dos processos que a instituição considera como “claramente úteis e que devem ser encorajados”. É essencial na medida que preserva a mulher de algumas situações corriqueiras e que são práticas abusivas intraparto.

O plano de parto é uma lista que inclui as escolhas e preferências da parturiente. Por exemplo, o lugar onde a mulher quer ter o bebê, quem estará presente na hora do parto, quais os procedimentos médicos que a mulher aceita e quais ela quer evitar para ela e para o bebê, quais procedimentos ela proíbe (levando-se em consideração que a episitomia é desnecessária), a posição em que deseja parir, se ela quer se alimentar durante o trabalho de parto e até que música gostaria de ouvir. Para isso, é importante que a mulher se disponha a compreender a fisiologia do parto, o que é parto natural, instrumental e cesárea no Brasil, compreender a rotina obstétrica brasileira e saber como viabilizar o melhor parto para ela própria. A parturiente pode intervir no plano de parto enquanto isso não oferecer risco para ela ou para o bebê. É função do obstetra classificar o risco e orientar a mulher em trabalho de parto, que, aliás, pode solicitar uma explicação de base científica.

Como denunciar a violência obstétrica

  • Separe toda a documentação: cartão de gestante, exames, guia de internação, contrato com hospital e recibos de pagamento, plano de parto, termos de consentimento “esclarecido”, recibo de taxa de acompanhante e, principalmente, cópia integral do prontuário da mãe e do bebê (esses documentos pertencem a mãe e o hospital é obrigado a fornecer sem nenhum custo). Além disso, escreva um relato do que aconteceu, detalhando a violência e como você se sentiu.
  • Munida desse material, se o parto foi pelo SUS: protocole uma cópia de seu relato junto à ouvidoria do Hospital, com cópia para a Diretoria Clínica. Envie também a denúncia para as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde e para o Ministério da Saúde (136). Se o parto aconteceu pela rede privada: protocole uma cópia de seu relato no hospital endereçado à Diretoria Clínica e envie a denúncia para a Diretoria do Plano de Saúde e para a ouvidoria da Agência Nacional de Saúde (0800 701 9656) e também para as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde e para o Ministério da Saúde (136).
  • Também é possível mover uma representação administrativa junto ao CRM contra o médico e a equipe e mover uma ação judicial contra os profissionais e contra o hospital, o que requer apoio jurídico de um advogado, que pode ser acionado na defensoria pública da sua cidade.

Relatos de quem sofreu violência obstétrica

“Meu primeiro parto foi há nove anos. Eu tinha 19, era uma pessoa que, como várias, não tinha informações e nem me preocupava em ir atrás. Fui para o hospital quando ainda estava na fase dos pródomos, já fiquei internada. Quando fui para sala do pré-parto já me trouxeram um sorinho, se eu não tivesse perguntado a enfermeira nem ia me dizer do que se tratava. Não pude entrar com acompanhante e nem andar ali mesmo pela sala do pré-parto, a enfermeira dizia que não era para eu me levantar nem pra ir ao banheiro. O médico rompeu minha bolsa sem meu consentimento; foi aí que o a dor apertou, achei que ia morrer, chorava muito e chamava pelo médico. Ele muito bravo dizia que se eu continuasse a chamar ele, ele não iria mais me ajudar. A enfermeira olhava na minha cara e dizia: “você acha que eu nunca passei por isso?” Fica quietinha se não o médico não vem mais aqui te ver. Depois de oito longas horas deitada na cama chorando de dor e recebendo vários toques superdolorosos, finalmente meu filho estava coroando, tive que ir para sala de parto andando, a enfermeira muito brava me puxou para eu sair da cama. Tive que parir meu filho deitada, meu expulsivo durou uma hora. Fizeram manobra de Kristeller em mim, doía muito, minha cabeça parecia que ia explodir cada vez que que a enfermeira subia em cima de mim, o médico fez episiotomia em mim sem meu consentimento, meu filho foi tirado a fórceps. Não me deixaram ver meu filho. Depois de todos os procedimentos que provavelmente fizeram com ele pude ver ele um pouquinho. Minha placenta demorou para sair, nisso a anestesia já havia acabado. O médico me deu ponto sem anestesia. Que dor. Pude pegar meu filho no colo depois de 2 horas. Sem contar que fui privada de tomar água e comer, me sentia muito fraca. Relembrar de tudo ainda dói muito, penso que poderia ter sido diferente se eu fosse empoderada naquela época. Tive meu parto roubado e disso não vou me esquecer nunca”.

Nara Rodrigues Almeida (GO), 28, mãe de Matheus Adriano, de nove anos, e Julia de quatro anos – que nasceu de um parto humanizado.

“Fui até a maternidade fazer o monitoramento. Chegando lá o médico fez um exame de toque e sem o meu consentimento fez o descolamento de membrana. Eu não sabia o que era isso nem sabia porque ele fez isso. Fiquei muito chateada, vim pra casa e quando deu três horas da manhã começaram as contrações fortes e ritmadas. Esperei amanhecer, quando cheguei à maternidade na triagem me trataram bem. Até que fui para o pré-parto, as enfermeiras começaram a me hostilizar porque eu estava gritando muito e isso iria assustar as outras gestantes. Reclamaram com a minha mãe porque ela estava falando no celular com o meu marido, que impediram de entrar. Pedi para comer alguma coisa, pois estava sem comer desde a tarde do dia anterior e me foi negado; pedi água e também me foi negado. O médico veio fazer exame de toque e eu pedi que esperasse a contração passar; e ele falou que não podia esperar. Minha mãe estava desesperada porque ela via que eu estava com medo e com fome e mostrou ao médico a minha última ultrassom que mostrava que a minha filha tinha bolinha de cálcio no coração e na hora que ele viu reclamou comigo, porque eu não havia falado isso antes, que ele iria me transferir para outra cidade (leva duas horas de carro para chega até a outra cidade, Recife) e aí lá vem ele fazer outro exame de toque e falou que não daria mais tempo de chegar lá. Chamou outro médico que veio fazer outro toque e falou que iria fazer o meu parto e que ia dá tudo certo. Fui para a sala de parto e quando cheguei lá não deixaram a minha mãe entrar; fiquei sozinha, lembrando que eu estava com 9 cm de dilatação. Mesmo assim ele mandou aplicar ocitocina, me fez uma episiotomia sem me perguntar e a enfermeira subiu em cima de mim, eu gritei, pedi para ela sair, e o médico falou que ela estava tentando me ajudar. Continuei fazendo força e minha filha saiu, ele não me deu ela, não deixo eu ver, entregou para a enfermeira. Começou a dar os pontos, eu estava sentindo tudo. Falei para ele que eu estava sentindo tudo e ele me falou “calma, já estou terminando”. Foram oito pontos. Depois a enfermeira chegou com uma maca, colocou do lado e falou “passe para a maca, agora” e eu perguntei “como vou passa sozinha, você precisa segurar e ela falou que não, que eu podia passar sozinha, quando tentei passar a maca saiu do lugar. Ela voltou com a cara feia e colocou no lugar e falou “vamos, passe logo”. Passei para a maca, eles me levaram para fora da sala e logo depois trouxeram minha filha e colocaram ela no meio das minhas pernas. Logo que saí meu marido já estava me esperando, subiu comigo para o quarto e lá ficou por mais ou menos uma hora, depois a enfermeira veio e falou que ele não poderia ficar, que só mulher pode ficar lá. Ele foi embora triste, porque além de não ter visto o nascimento também não podia ficar. Eu já estava muito triste e isso me deixou mais triste ainda. Depois que ele saiu eu comecei a ficar sonolenta, eu estava com fome ainda. Falei para minha irmã que estava comigo, a enfermeira veio me colocou no soro e eu pedi para que ela trouxesse alguma coisa para comer, que eu estava com muita fome, ela não me ouviu e falo que eu já poderia me levantar, tomar um banho, trocar a roupa e colocar um absorvente porque eu estava com uma fralda de recém-nascido. Levantei. Quando cheguei no banheiro, desmaiei. Minha irmã chamou as enfermeiras para ajudar a me tirar de lá. Veio uma médica e me colocaram na cama e ela me perguntou o que eu estava sentido, falei que estava com muita fome, muito sono. Ela aferiu minha pressão, estava muito baixa. Me deram comida e melhorei. Fiquei lá por três dias depois do parto e aí fui pesquisar porque a episiotomia me incomodava muito, queimava, e tinha que ficar o tempo todo de absorvente, piorava, e foi aí nessas pesquisas que fui descobrindo que não era necessário e aquilo foi me dando revolta, fui ficando muito chateada e pensei “vou me informar, vou descobrir o porquê de tudo isso”. Eu curti a página do Renascimento do Parto por orientação da patroa da minha mãe, que era doula. Depois de oito meses sofrendo com a episiotomia, com o puerpério e tentando digerir tudo aquilo, me ligaram no Ministério Público para saber como tinha sido meu parto lá. Aí era o que eu precisava, fiquei quase uma hora falando como foi tudo que aconteceu, o desrespeito, o despreparo das pessoas, e ela me falou que tudo aquilo iria acabar, que eles estavam lutando para isso, e naquele momento senti que alguém me ouviu, além disso, me entendeu e de uma forma indireta me ajudou. Quando a minha filha fez um ano e quatro meses, descobri que eu estava grávida, eu entrei em pânico, porque fui lá com um simples problema de coluna e sai de lá grávida. Aquilo me deixou transtornada, passar por tudo aquilo de novo eu não aguentava mais também passar por uma cesárea, não entrava de jeito nenhum aí eu pensei vou parir lá na mesma maternidade, porque eu já vinha ouvindo histórias positivas de lá, que tinha mudado muito. Consegui uma doula voluntária, consegui convencer meu marido que lá era melhor do que ir direto pra uma cesárea. Consegui: fui respeitada, respeitaram meu plano de parto. Eu acho que ainda falta muito para acabar de vez com a violência obstétrica, mas é preciso informação, é preciso amor da parte dos profissionais e as mulheres também precisam desmistificar a ideia de médico como o salvador da pátria e acreditar mais em si. É preciso entender que o parto é a mulher quem faz, não os médicos.”

Thais Ferreira da Silva (PE), 24, mãe de Thainna, de três anos, e Larah, de um ano.

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