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De menino ou de menina? Como a ditadura de gênero vem da infância

by Redação taofeminino Published on 9 de dezembro de 2016
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Rosa ou azul? Carrinho ou boneca? Princesa ou herói? Antes do gênero, meninas e meninos são crianças. A revisão de estereótipos é essencial para formar cidadãos mais humanos. Por Juliana Couto

Rosa ou azul? Princesa ou herói? O que de fato define o gênero masculino e feminino? A mercantilização da infância segmentada em gênero, atrelada à estrutura que separa meninos e meninas em convenientes estereótipos de cores, conceitos, brincadeiras, tarefas, estudo, profissões e escolhas para vida adulta. A resposta poderia ser fisiológica e psicológica, mas é majoritariamente social: quem (de)forma o gênero da criança é a sociedade, compreendida por setores como pais, família, mídia e escola. A diferença entre meninos e meninas começa na gestação. Se uma mulher decide fazer um chá de bebê para revelar o sexo do bebê, é costume fazer um bolo de duas cores, uma cor relativa ao gênero feminino e outra ao masculino. Quais são as cores usadas? Rosa e azul. Se uma mulher decide revelar que está grávida de um menino, vai ouvir “se prepare para a fila de meninas”; se for uma menina, que poderá “brincar de boneca”. Mulheres adultas almejam brincar de boneca ao vestirem suas filhas?

A definição de cores para gênero não está relacionada nem à biologia nem à psicologia, mas ao marketing. Até o fim do século 19, as cores das roupas das crianças eram a última preocupação dos pais, já que o custo da tintura de tecido era elevado. O cenário mudou a partir do século 20, a exemplo de um catálogo de roupas estadunidense para crianças de 1918 que classificava rosa como uma cor forte, mais relacionada a garotos que sempre se sujavam com esportes e brincadeiras mais físicas, enquanto o azul, mais delicado, era indicado para meninas, (ainda) confinadas no ambiente doméstico. A estratégia mudou a partir de 1950 como premissa para alavancar vendas: o cor-de-rosa se tornou a cor das meninas e o azul, dos meninos. A divisão de cores de meninos e de meninas, é, portanto, econômica.

“Ao estabelecer o que é de menino e menina, os adultos, a mídia, a sociedade de modo geral, limitam as vivências das crianças, além de reservar espaços muito definidos para ambos: meninos brincam de bola, carrinho, lego, ferramentas - objetos que os incentivam a se apropriarem do mundo, mas não de sua sensibilidade. Meninas brincam com bonecas, fogões e casinhas - objetos que as limitam apenas ao espaço doméstico e de maternagem. Embora existam diferenças biológicas muito distintas entre meninos e meninas, essas diferenças não justificam nem podem resultar em direitos sociais desiguais. Mas infelizmente é isso o que acontece”, é o que explicam Caroline Arcari (GO), 35, pedagoga e especialista em educação sexual, presidente do Instituto Cores, e Nathalia Borges (GO), 27, psicóloga da instituição, à frente da página “Já falou para seu menino hoje?”, que tem como objetivo promover a educação de meninos e meninas para uma sociedade menos violenta. Com aproximadamente 70 mil seguidores, a página foi criada a partir do projeto Escola de Ser, promovido em Rio Verde, Goiás, que atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. A ideia surgiu por meio das aulas de empoderamento de meninas e nova masculinidade.

© Post da página "Já falou para seu menino hoje?"

Estereótipos de cores e de brinquedos limitam o universo da criança

Se a limitação de universos reforça estereótipos já tão profundos na sociedade, uma possibilidade de ampliar o espaço das crianças é inverter a lógica: dar aos meninos bonecas e às meninas carros. O que pode resultar disso é homens que estão dispostos a praticar uma paternidade com consciência e mulheres que estão dispostas a se aventurar. Uma maneira de desconstruir a ditadura dos brinquedos e do gênero na infância é deixar com que a criança escolha. Para isso, obviamente, pais, família e espaço escolar precisam permitir que essa criança tenha acesso a uma ampla gama de jogos e brincadeiras, por exemplo, a cores dos mais variados tipos, cores, sem necessariamente remeterem a um conceito ou personagem, para que elas apreendam por si só aquilo que mais lhes agrada. Segundo Carolina e Nathalia, diversos estudos de psicologia e pedagogia mostram que as crianças precisam de acesso a uma variedade de brinquedos e experiências de jogo. Brinquedos focados em ação, construção e tecnologia ajudam a aprimorar habilidades espaciais, promover a resolução de problemas e incentivar as crianças a serem ativas. Brinquedos focados no jogo de papéis e teatro em pequena escala permitem-lhes praticar habilidades sociais. Artes promovem a construção de habilidades motoras finas e perseverança, de modo que meninos e meninas precisam ter a oportunidade do desenvolvimento integral em todas as áreas.

Mas, como fazer isso em casa? Para Amanda, mãe de Mateus*, o mais complicado é lidar com a família. Ela costuma deixar Mateus, de 15 meses, livre, como ela mesmo diz, por oferecer todo tipo de brinquedo, toda cor de roupa. Quanto aos comentários sobre “é de menino”, ela costuma pontuar com paciência, apesar de ouvir muitos comentários inconvenientes. “Uma questão muito complicada para mim é a supervalorização da sexualidade masculina. Desde que ele nasceu eu procuro não trocar as fraldas ou a roupa dele na frente de qualquer pessoa da família do meu marido porque tanto a minha sogra como a minha cunhada quando notam que vamos trocar começam a gritar "vamos ver o ‘pintão’ dele". É histérico e agressivo. Eu odeio. Então não troco mais e quando não tem jeito eu passo a chave na porta para evitar que entrem. Tentei muito conversar, mas não resolve. Minha maior preocupação é como explicar que eles estão sendo preconceituosos sem falar que eles não são legais. Porque não é só machismo, é todo o combo de preconceitos de raça, sexo, origem social, orientação sexual. Espero conseguir passar por isso sem que ele tome para si essas coisas”, explica Amanda.

A supervalorização do estereótipo masculino não precisa impedir que os pais ampliem o espaço do filho. No caso de Amanda, ela preza por integrá-lo em todas as atividades da casa. “Se eu arrumo a cama ele ajuda, ajuda a cozinhar, guarda os brinquedos. Assim como ele tem carrinho, caminhão ou bloco de montar gigante, ele tem também boneca, bichinhos de pelúcia, fogãozinho, frutas de plástico. Não faço restrições e não me coloco em posição de servir a ele. Claro que tudo isso na medida da capacidade dele. Porque ele é pequeno. Isso não chega a ser um tema em casa porque é algo natural. Meu marido presta mais atenção, porque ele mudou muito, mas vem de uma casa muito machista. Na minha casa as coisas sempre foram igualitárias, meu pai lava a roupa melhor do que qualquer pessoa e desde sempre ele fez isso. Os dois trabalhavam e dividiam igualmente as tarefas. Nunca deixei de fazer nada por ser 'menina'. Fiz karatê, robótica, maratona. Eu procuro fazer o mesmo com o meu filho. Ele está sempre comigo e vai observando e repetindo essas coisas. Imita o jeito como eu cozinho, como eu passo roupa. Vê o pai esfregando roupa manchada ou cozinhando. Quem tem mais tempo se vira”, comenta.

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Mariana Silva (SP), 29, mãe de Benito, cinco anos, e de Vicente, dois, começou a desconstruir a lógica “de menino e de menina” desde a gestação. “Quando engravidei decidi que sendo menina ou menino, antes de tudo seria criança. Isso sempre foi questão muito importante pra mim. Sempre demos liberdade dele se pintar, pintar as unhas, porque isso sempre foi uma brincadeira para ele. Hoje, com 5 anos, sentimos uma cobrança maior nos espaços de convívio por um comportamento já estabelecido. Já riram dele por usar sling, carrinho de carregar boneca, por causa do cabelo comprido, por ter vassourinha. Já ouvimos piadas por causa das cores de roupa, por ele chorar (o famoso 'menino não chora'). Já percebemos que quanto maior a criança fica, maior a cobrança para que se encaixe, para que se comporte como um 'menino', não como uma criança. Escolhemos não enviar ele para a escola até agora, passa a maior parte do tempo comigo e com o pai, e mesmo assim já vimos ele reproduzindo frases machistas que ouviu em algum lugar. Muito difícil! A luta é constante para proporcionar liberdade e consciência”, relata.

Não se iluda, as crianças não saem do útero com expectativas sobre carreiras, orientação sexual e atividades preferidas. Os estereótipos da infância, fundamentados em cores, comportamentos e brinquedos, são carregados para a vida adulta. Uma pesquisa realizada pela galesa Chwarae Teg demonstra que até o fim da primeira infância as crianças já têm ideias muito objetivas sobre quais empregos são mais adequados para meninas e quais para meninos. Do mesmo modo que temas de beleza e glamour em brinquedos dão ênfase na aparência externa, focando o gênero feminino, o reforço publicitário por meio dos brinquedos, de que meninos são sujos e barulhentos, interessados somente em aventuras de ação e sempre violentas mostra aos meninos mais calmos, sensíveis e criativos que algo está errado com eles; eles não se encaixam, assim como não se encaixam as meninas que não gostam de rosa e não querem brincar de cabelo, boneca, cozinha, entre outros. O resultado? No futuro, como pontuam Carolina e Nathalia, isso se reflete em salários desiguais, relacionamentos abusivos, objetificação do corpo da mulher, sobrecarga do trabalho doméstico para a mulher, ausência do pai na criação dos filhos.

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Mariana encontrou um caminho de entendimento com Benito por meio do diálogo aberto. Apesar de em um primeiro momento educá-lo livremente, sem imposição de gênero e explicando a diferença básica entre meninos e meninas (pênis e vagina), a fim de que ele pudesse agir naturalmente, brincar e ser como quisesse, enfrentou o todo esse reforço de estereótipo na sociedade. “Percebi que assim ele não estaria preparado para se bancar, sabe? Não estaria preparado para se posicionar e reconhecer seus privilégios na sociedade. Ele precisaria saber se posicionar quando não estivesse comigo ou com o pai, ou não, mas pelo menos reconhecer o que é machismo, para não se tornar um. Quando vêem um menino com coisas ditas de "menina", as pessoas riem, olham com reprovação, fazem piadas ou comentários preconceituosos. Ele precisava saber o que é machismo, o que é imposição de gênero. Essa ideia, de que deveria mostrar para ele que existem pessoas que acham que meninos ajam de e meninos de outro, veio muito forte depois de uma semana inteira com ele sendo chamado de menina por causa do cabelo longo, de ver vendedoras de uma loja de calçados rindo na hora que ele quis comprar uma bota cor de rosa e o ultimato foi o avô chamando a atenção dele porque foi na casa dele com batom no rosto. Depois daquela semana pensei que eu precisava situar meu filho, de uma forma que ele entendesse como funciona o nosso mundo. Depois disso, começamos a conversar sobre isso juntos, a questionar situações de machismo que víamos nos desenhos e o levei no ato das mulheres comigo. Hoje o Benito fala contra os machistas e às vezes aparece me contando uma história de machismo que viu em algum lugar. É uma situação muito delicada, porque da mesma forma que eu quero dar liberdade aos meus filhos e quero que sejam homens conscientes, eu também não quero que sofram preconceito por suas escolhas”, conta.

Sujou, limpou: as tarefas domésticas não são definidas pelas genitálias

“Desde que ganhamos a Helena e depois o Antonio, tudo ficou tumultuado, mas tento manter o equilíbrio. O Pedro sabe bem que não existe essa coisa de só pode se for menina ou menino. Tem que lavar a louça, arrumar a mesa e a cama, às vezes varrer a casa ou quintal”, conta Michelle Marins Racoski (SP), 34, mãe de Pedro Henrique, sete, Helena, dois, e Antonio, seis meses. Talita Tecedor (SP), 31, mãe de Pedro, 11 anos, e Alessandra, dez meses, divide em equidade as atividades em casa. “Meu filho sabe que sou mãe dele, mas sabe que canso, que tenho limitações, que a irmã dele é compromisso nosso. Então ele participa efetivamente de tudo aqui de casa! Preza pela minha liberdade e pelos cuidados de todos. Nós fizemos uma lista de tarefas e sentados na mesa juntos discutimos a divisão e qual que cada um consegue cumprir. A do Pedro são limpar a caixa dos gatos, tirar o lixo e lavar o banheiro às segundas-feiras. Ele estuda de manhã. Chega da escola, almoça, descansa, tem duas horas de lição de casa ou leitura, lancha, tempo das tarefas depois pode brincar até a janta, depois banho e TV até a hora de dormir. Mas os horários não são rígidos”, conta.

A lógica é justa: meninos e meninas, homens e mulheres usufruem do ambiente doméstico e, portanto, todos participam da organização e limpeza deles. As tarefas domésticas não são responsabilidade da mãe, que costumeiramente é sobrecarregada com as tarefas domésticas e a jornada dupla (ou tripla). Disciplina e diálogo são importantes para estabelecer uma rotina na qual meninas lavem suas próprias roupas íntimas e meninos também.

Se as genitálias não definem tarefas doméstica, ainda menos qual tipo de roupa homens ou mulheres, meninos ou meninas, devem obrigatoriamente usar. Até o século 19, bebês de ambos os sexos usam vestidinhos, que facilitavam seus movimentos e a higienização. Foto de 1884, aliás, registra o futuro presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, então com 2 anos, de vestidinho. Assim como azul e rosa, as roupas (e as tarefas domésticas, reforçadas pela publicidade adulta e infantil) seguem a mesma lógica: comercial. “Primeiramente, os pais só podem ajudar os filhos se essa for uma filosofia de vida deles. Se os pais não ligam para a divisão engessada do vestuário infantil, será muito natural que a criança siga esse pensamento. Ver o pai usando roupas de todas as cores, incluindo o rosa, florido ou estampado, a mãe com roupas neutras, macacão e calça, outros familiares e cuidadores nessa mesma atitude, levará a criança a ter mais flexibilidade e variedade na hora de se vestir. A mudança começa na atitude dos responsáveis. Não é algo imposto e combinado”, explicam Nathalia e Carolina.

Escola de princesa e a escola de desprincesamento? Não, obrigada

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Não há regras. Há abertura. É importante que os pais desconstruam o pensamento estereotipado para meninos e meninas por meio deles próprios. Rever os critérios da casa, da escola, da roupa e do brinquedo é essencial. Meninos podem querem ser heróis? Sim. É obrigatório? Não. Meninas podem ser princesas? Sim. É obrigatório? Não. Mas, como lidar com uma sociedade em que meninas são constantemente empurradas para as princesas, que ainda estão congeladas em uma lógica de objetificação, domesticidade, submissão e relacionamentos abusivos. É por tais premissas que a ideia de escolas de criar princesas e de “desprincesar” meninas podem ser tão abusivas quanto sentar uma menina de quatro anos diante da TV para assistir os clássicos da Disney. Carolina e Nathalia são objetivas: “Toda atividade que dita um comportamento e reforça algum estereótipo, seja princesando ou desprincesando, não pode ser boa coisa. Espaços educativos devem investir na emancipação de meninas e meninos para que desenvolvam pensamento crítico, que façam escolhas conscientes no futuro, seja em termos de relacionamento, profissão ou ocupação de vida. Desconstruir o estereótipo da princesa submissa e do herói musculoso, agressivo e dominador são ótimas ideias. Afinal, é nessa lógica em que um gênero se sobrepõe ao outro que está a base das violências de gênero, das desigualdades salariais e da falta de representatividade das mulheres em cargos políticos e de decisões de interesse coletivo. Com a desconstrução deve vir a liberdade e a reflexão e não com o reforço de um novo estereótipo, que no caso do desprincesamento seria: meninas não são princesas. Meninas devem ser o que elas quiserem. Melhor empoderar princesas (se essa for uma identidade na fantasia das crianças), do que desprincesar e criar um novo padrão. Quanto mais experiências enriquecedoras em todas as áreas as crianças tiverem, meninos e meninas, mais chances de ter um desenvolvimento pleno e feliz”.

Não é estranho pensar que há escolas de padronização de comportamento para meninas, mas não diretamente para meninos. O controle sobre o comportamento da mulher é histórico. Até poucas décadas atrás, uma mulher que quisesse trabalhar deveria pedir autorização escrita e registrada em cartório do marido. O direito da mulher sobre seu próprio corpo também é vulnerável, se não inexistente. No Brasil, uma mulher que decide fazer laqueadura, ou seja, ligar as trompas de Falópio para não ter filhos, precisa da autorização do cônjuge para fazê-lo. Caso ela faça sem a concordância dele, pode ser processada, pois a Constituição estabelece que na “vigência de sociedade conjugal, a esterilização depende do consentimento expresso de ambos os cônjuges”. Homens que queiram fazer vasectomia, ou seja, impedir a presença de espermatozoides na ejaculação, também precisam da autorização do cônjuge. Com a diferença básica de que eles não engravidam. Se ambos não forem casados, é obrigatório, diante da lei, que tenham no mínimo dois filhos vivos ou mais de 25 anos.

Ao longo da história, meninas e mulheres têm sido mais vitimadas pelas desigualdades, refletidas na violência, na exclusão, na falta de espaço na esfera pública, nos salários mais baixos, o que não quer dizer que homens e meninos não são afetados pelo machismo. Só no Brasil, estima-se que meio milhão de mulheres sejam vítimas de estupro a cada ano e que dois terços dessas são meninas menores de 13 anos - cerca de 330 mil. Ao serem obrigados a cumprir papéis que ligam a masculinidade à agressividade, ao controle e à dominação, os homens, antigos meninos, se afastam da sensibilidade e da paternidade ativa, sendo aproximados da violência urbana, por exemplo. O modo como as crianças são educadas prevalece para compreender a regulamentação sobre o corpo da mulher principalmente, mas também do homem, pelo Estado e pela mídia, questões que influenciam a sexualidade e todas as esferas da vida privada e particular. Refletir sobre identidade de gênero, estereótipos de gênero, estrutura familiar, direito do corpo, violência urbana, violência contra a mulher, racismo, machismo, empoderamento familiar e feminismo contribui para repensar a formação da família e dos espaços educativos de modo que seja possível enfrentar (e minimizar) a desigualdade entre meninos e meninas desde a infância. Quer saber onde isso começa? Em casa.

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*Amanda e Mateus são nomes fictícios e foram trocados a pedido da entrevistada.

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