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Prepare-se para as fases do trabalho de parto

by Redação taofeminino Published on 22 de junho de 2016
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Sem hora marcada, com a percepção no seu nível mais alto e muita disposição, toda mulher precisa se informar sobre o que pode vir a sentir – sem medo. Por Juliana Couto

Cada mulher vai sentir o parto de um jeito. Pode levar dias, horas, minutos: o trabalho de parto vai acontecer e toda mulher vai ter dilatação (até porque não existe falta de dilatação, existe parto induzido fora do trabalho de parto), pode sentir a contração do trabalho de parto, pode passar pela fase latente, pela fase ativa, pelo expulsivo e pelo círculo de fogo. Toda essa trajetória para conhecer pessoalmente aquele que essa mulher carregou no ventre por tantas semanas, seu filho. A proximidade pode trazer medo: da dor, da contração, do tempo, da intervenção, da bolsa não estourar, de acontecer algo com o bebê, do modo como você vai ser tratada. A dor do parto é da natureza do corpo humano e não há comprovações científicas que deem conta de explicar qual é o gatilho que faz o parto começar. Pode acontecer também simplesmente da mulher não sentir dor alguma durante o trabalho de parto.

Vamos combinar algumas coisas? Confie no seu corpo, acredite que você consegue. O corpo da mulher é capaz de parir há milhares de anos. A tecnologia da medicina existe para salvar vidas, a exemplo da cesárea e do acompanhamento do pré-natal, e as intervenções podem ser feitas em casos extremamente necessários ou para trazer conforto para a mãe, no caso específico da analgesia que alivia a dor de parir sem tirar o protagonismo do parto da mulher. A informação sobre cada fase do trabalho de parto ajuda a gestante a se preparar com calma e a saber que todo o processo é normal, pode acontecer com todas as mulheres e termina com o nascimento de um filho, uma mãe e um pai.

Como pontua o obstetra Ricardo Jones no documentário O Renascimento do Parto, o nascimento é um evento único que reúne a vida, a morte e a sexualidade de cada um de nós. Único e ainda indecifrável. As evidências científicas em torno do parto não conseguem explicar o que acontece no corpo da mulher que dá início ao processo (mas há o que ajude a iniciar o trabalho de parto: caminhadas, exercícios na bola e acupuntura, ambos com orientação profissional, e sexo são alguns facilitadores; somente a acupuntura é comprovada cientificamente). Segundo Natalia Rea (SP), 38, obstetriz, mãe da Helena, nove: “A ciência ainda não conseguiu definir o que desencadeia o parto. O que se sabe é que tem um componente que é do bebê, são sinais que ele manda mostrando que o pulmão está pronto, de que já pode respirar fora da barriga da mãe e têm também outros componentes químicos que acontecem na mulher, no colo do útero, que ainda não são totalmente explicados”, comenta. No entanto, as fases pelas quais a mulher passa durante todo o pré-parto, trabalho de parto e pós-parto já estão (ufa!) mais delineadas. Com variações de tempo, de duração e intensidade, já que cada mulher sente de um jeito.

Pródomos

Primeira fase do trabalho de parto, os pródomos podem durar horas, dias ou semanas. A mulher começa a sentir as primeiras contrações, que são espaçadas e irregulares – quanto mais as contrações seguirem um padrão, mais próximo está o parto. Segundo Natalia Rea, “Os pródomos são quando a mulher começa a mostrar qualquer sinal de que o parto está para acontecer a qualquer momento. Para algumas mulheres, os pródomos podem durar semanas. Outras mulheres podem nem apresentar ou nem terem percebido que passaram por eles. Se a mulher perde o tampão mucoso, por exemplo, (secreção bege que ela percebe na calcinha, semelhante a um catarro, às vezes pode vir com sangue) é um sinal que ela está em pródomos. Quando ela começar a sentir contrações de a barriga ficar dura e ao mesmo tempo sentir uma cólica, sendo que essas contrações são bem espaçadas durante o dia, ela também está nessa fase”.

As contrações significam que o colo do útero está começando a se preparar para entrar em trabalho de parto. “É muito difícil de ver através do exame de toque. Realmente, o que está acontecendo é uma preparação do colo, então a cabecinha do bebê de vez em quando é pressionada para baixo se ela já tiver as contrações com dor, e isso vai fazendo o colo do útero ficar cada vez mais molinho e vai também o afinando. Isso também vai depender muito de mulher para mulher”, completa.

Fase latente

Depois dos pródomos, o parto se encaminha para a fase latente, período em que as contrações não estão irregulares e espaçadas, são suportáveis e têm intervalos irregulares, ou seja, uma pode vir com intervalo de cinco minutos, a outra pode vir com intervalo de 15 minutos, a próxima depois de quatro minutos. “A fase latente é comparada com a maré: quando ela sobe, vem uma onda mais forte, mas na sequência vêm ondas mais fracas e aos poucos a maré vai subindo até chegar à fase ativa do trabalho de parto. As contrações ainda são bem tranquilas. A grande maioria das mulheres descrevem a contração da fase latente como uma cólica menstrual. A mulher sente a contração como um desconforto menstrual, que vem com intervalos, então durante um tempo ela sente a contração da barriga ficar dura e a cólica, e após alguns minutos ela sente de novo.” A contração dura de 30 a 50 segundos, em média. Em teoria, o que acontece na fase dos pródomos e na fase latente não é a dilatação do parto, mas uma preparação do colo. Por isso, a dilatação costuma ser lenta e gradual e para muitas mulheres e imperceptível nesse início, principalmente até os três centímetros. Pode-se dizer que até os seis centímetros de dilatação a mulher ainda está na fase latente.

Uma contração em que a mulher consegue continuar conversando, considera-se como uma contração de fase latente, porque a grande maioria das mulheres, quando entra na fase ativa, não conseguem. “Outro sinal de fase latente é que as mulheres, após passarem pela contração, conseguem fazer outras coisas, conseguem conversar, dormir, ver filme, fazer um bolo, conseguem fazer várias coisas nos intervalos, porque eles são longos, as contrações não são tão fortes. O ideal é que ela continue se distraindo e fazendo coisas normalmente nessa fase e não vá para o hospital, pois é mais confortável ficar em casa. Há mulheres que saem para passear no parque, saem para comer e a gente acaba vendo que isso é muito positivo, porque fica a sensação de que o trabalho de parto não foi tão longo assim; do que se em função do parto ela parasse tudo, não dormisse se fosse de madrugada”, explica Natalia.

Como saber se você está na fase latente? Primeiro, a dor é suportável. As contrações vêm em ondas, são doloridas, mas ainda possuem intervalos. “Muitas mulheres me pergutam, enquanto ainda estão na fase latente, que horas vão entrar na fase ativa. Mas essa é uma resposta que infelizmente não pode ser dada. Alguma hora vai acontecer. Há mulheres que ficam dias na fase latente ou nos pródomos e ficam aflitas querendo saber quando vão entrar na fase ativa e se perguntando se vão entrar na fase ativa.” Elas vão, claro, porque toda mulher pode parir seu filho, em condições saudáveis de gestação e com respeito e apoio dos acompanhantes e profissionais ao seu redor.

Fase ativa

A máxima é: se você está em dúvida se está em trabalho de parto ou não, é porque você não está. “A hora em que a mulher entra em trabalho de parto, não há mais dúvida. Várias mulheres me falam durante seus trabalhos de parto: ‘agora eu entendi porque aquela hora você me disse que eu não estava em trabalho de parto. Aquelas contrações realmente não eram nada.’ Todas as mulheres vão perceber: existe uma diferença muito grande entre a fase latente e a fase ativa”, explica Natalia. Na fase ativa, a mulher se concentra só no trabalho de parto. A fase ativa começa quando a mulher está com seis centímetros de dilatação, o colo fino e contrações regulares a cada três minutos. É muito normal a mulher vocalizar mais nesse período e a emitir sons que a ajudam a lidar com a dor. “Tem realmente uma fase final que é a mais forte, dos oito centímetros até a dilatação total, que é a fase em que é normal ouvir as mulheres dizendo que não aguentam mais, essa é a fase de transição da fase ativa para o expulsivo. O que vai diferenciar bem claramente para qualquer pessoa que estiver acompanhando, é que a mulher vai começar a sentir vontade de fazer força”, completa Natalia. Contrações quase ininterruptas, fortes e sem vontade de fazer força são as características da fase ativa.

Expulsivo

Vontade de fazer força? Você está na fase do expulsivo, cuja principal característica é a vontade do “puxo”. De acordo com Natalia, “Como já dilatou o colo do útero inteiro, o bebê começa a descer pelo canal vaginal da mulher e ela vai sentindo uma pressão que faz com que ela tenha vontade de fazer força. Muitas mulheres descrevem essa vontade de fazer força com a mesma vontade de quando querem defecar. Por isso, a mulher vai mudar esse som e vai suprimindo a respiração para fazer a força. E isso acontece espontaneamente, sem ninguém ter falado para ela fazer força. Ela começa a ter essa vontade naturalmente”.

Segundo Natalia, muitas mulheres descrevem que sentem menos dor no expulsivo do que durante a fase da dilatação. Se a dor diminui, a pressão aumenta no canal vaginal. Nessa fase, é normal a mulher começar a sentir certa ardência na região, porque a cabeça do bebê está passando e vai abrindo espaço até chegar à região mais externa da vagina. Quando chegar esse momento, a mulher começa a sentir o círculo de fogo.

Círculo de fogo

A sensação do círculo de fogo é de queimação. É importante que a mulher esteja preparada para isso e que saiba que isso vai acontecer. É normal. Nesse período, a cabeça do bebê está quase coroando e a mulher começa a sentir um forte estiramento na vagina, de modo que a cabeça do bebê se acomode. “É muito importante que esse momento aconteça de modo suave, porque a cabecinha vai fazendo com que toda a musculatura do períneo, a pele e a mucosa dessa região se acostumem com a presença dela. A natureza age dessa forma para que a musculatura e toda essa região tenham tempo de se acostumar com esse volume que vai aumentando. Quando isso acontece aos poucos, há uma chance maior de não ter nenhum problema e nenhuma laceração. Se a mulher fizer força aos poucos, ela vai percebendo o bebê descendo, vai vendo até onde dá para ir e vai tentando relaxar essa musculatura com a presença da cabecinha do bebê ali, que vai pressionando cada vez mais. Algumas mulheres conseguem com a própria mão ajudar o bebê a sair, vão sentindo o bebê indo para fora conforme ela vai fazendo força, e isso é muito positivo para a experiência de parto. A maioria das mulheres ficam muito feliz quando conseguem sentir o bebê nascendo e percebem que elas estão fazendo isso sozinhas”, conta Natalia.

Quando acaba o parto?

Com o nascimento da placenta. Após a saída do bebê, a placenta precisa sair. A mãe recém-parida vai sentir contrações durante esse período, não tão fortes como as da fase ativa. É importante que esse processo seja feito naturalmente. Ela se forma dentro do útero pelos tecidos do óvulo e é por meio dela (e pelo cordão umbilical) que o seu filho respirou e se encheu de nutrientes ao longo das semanas da gestação. Quando o parto acontece em um hospital, o procedimento padrão é descartá-la como lixo - sim, a placenta nutriu e protegeu um vida e é descartada como lixo hospitalar. Alternativas? Assinar um documento negando que seja descartada, caso você tenha seu parto em um hospital, seja ele normal, normal humanizado, seja cesárea, e levar com você. Ela pode ficar congelada até que você decida seu destino. Plantar, talvez? Caso seu parto seja domiciliar, também é possível optar pelo Parto de Lótus, no qual o cordão não é cortado do bebê, a placenta sai, portanto, ligada ao feto e ambos se desgrudam naturalmente depois de dias - há culturas indígenas que conduzem o nascimento dessa maneira. Também é possível fazer um quadro com sua placenta, a colocando sobre uma folha branca e deixando que todas as suas (incríveis) marcas se prendam na folha (muitas, muitas, formam um desenho de coração).

À flor da pele

“O primeiro parto eu tive algumas contrações com um pouco de dor uma semana antes. Mas foi pouca coisa, meia dúzia de contrações acho que geradas por uma tensão. O parto começou com a ruptura da bolsa, na madrugada quando levantei para fazer xixi. Como tinha mecônio (bem pouco) fomos ao hospital. No caminho pro hospital percebi que estava com contrações ainda bem pouco doloridas, de cinco em cinco minutos. Chegando ao hospital, toque, cardiotoco, já tinha quatro dedos de dilatação. Um tempo depois de chegar ao hospital começou a fase ativa mesmo, esse momento não é fácil... Acho que teria sido mais fácil se não estivesse sozinha com meu marido, se tivesse uma doula, por exemplo, ou qualquer um que me dissesse que estava tudo bem. Enfim, essa fase foi a de maior dor, passei por várias contrações, conseguindo aceitá-las e relaxar, mas algumas contrações eu não conseguia relaxar e me desesperava. Ainda bem que contrações vão e vêm! Em algum momento desse processo, senti um incômodo muito grande, demorei a entender o que era, quando entendi que era uma vontade de fazer força foi revelador: comecei a fazer força e a dor passou. Completamente. O expulsivo para mim não foi dolorido. Também não senti o círculo de fogo ou aquele medo de partir ao meio que algumas mulheres relatam. Pari meu filho mais velho deitada de lado, que foi como me sen​ti mais confortável.

Não estava anestesiada, então essas sensações foram todas naturais mesmo. O segundo parto foi tão rápido que nem teve fases. Foi assim: na noite anterior eu vi que saiu o tampão (nunca vi tampão nenhum no primeiro). Na madrugada eu acordei com umas contrações. Até levantei para anotar a frequência (tenho essas anotações), mas eram tão inconstantes e rápidas e pouco doloridas que achei que não era nada e fui dormir (passei uns 40 minutos acordada). Às 7h30, meu mais velho despertou, embora ele nunca tenha sido de acordar cedo. Levantei para fazer café dele e assim que cheguei na cozinha senti uma contração. Dei um pão para meu mais velho e fui para o chuveiro. 30 minutos depois, nasceu. Acho que a bolsa estourou cinco minutos antes dele nascer. As contrações eram bem espaçadas (eu ligava para a parteira no intervalo das contrações) e pouco doloridas. Embora tenha sido rápido, eu entrei um pouco na partolândia e perdi um pouco a noção de tempo. Só percebi que ia nascer mesmo quando pus a mão e senti a cabeça dele bem baixinha. Também não senti círculo de fogo. Acho que nesse parto eu praticamente não fiz força. Ele nasceu com as contrações mesmo (foi em posição vertical). O que mais me marcou no segundo parto foi a velocidade. E o que ficou muito para mim nos dois partos: o corpo funciona”. – Chica San Martin (RJ), 36, mãe de Pedro, 9, e João, 6.

Eu fiquei uma semana com um centímetro de dilatação sem sentir nada. Não sentia nada mesmo completando 40 semanas. Com 40+2, deitada, senti uma contração e a bolsa estourou, mais ou menos às 4:00. Até 5:30, quando meu TP engrenou de uma vez e eu não tinha posição para ficar, era uma atrás da outra e eu já queria ir para o hospital quando meu marido falou com a obstetriz, passando o tempo e a intensidade das contrações. Como ela viu que realmente tinha engrenado, mandou irmos para o hospital e encontrar com a doula lá. Nos exames iniciais disseram que eu estava com 4,5 de dilatação. Na sala de pré-parto, disse pra doula que eu sentia vontade de fazer força, porém tinha muito medo de me cansar e não ter força na hora certa, ela pediu pra eu relaxar e deixar meu corpo agir mas que ainda ia demorar. Tentamos chuveiro e esperamos passar uma contração para eu caminhar até o quarto do parto. Lá, tentamos a bola de pilates até que enchessem a banheira, porém eu não consegui fixar na bola e disse: “eu tô sentindo a cabeça dela, eu vou fazer força”. Foi quando meu marido e a doula viram que estava coroando. A doula pediu que meu marido pegasse a banquetinha e chamasse a enfermeira do hospital. Quando meu marido voltou com a enfermeira, a doula perguntou se ela era obstetriz e ela disse que não, que era auxiliar. Então ela mandou chamar a obstetriz e quando meu marido voltou eu já estava na segunda contração mais forte e a bebê estava saindo nas mãos da doula. Foi o tempo de passar para as mãos do meu marido, que tirou o cordão do pescoço e me entregou. Uma coisa que marcou foi que a hora que doía mais (a hora que queremos desistir). Era a hora que meu corpo pedia para eu fazer força. Isso pra mim marcou, porque eu não sabia que era tão instintivo sentir o corpo querendo fazer força”. – Joyce Laranjeiro (SP), 29, mãe de Maria Beatriz, um ano e cinco meses.

“Minha gestação foi bem longa, Francisco nasceu com 41+5. No último mês eu já estava exausta e ansiosa, engordei 6 kg apenas nesse mês. Nas últimas consultas, cheguei a pedir a indução por descolamento de membrana para a GO (ginecologista-obstetra), mas ela negou. Nosso combinado era esperar até 42 semanas. Como nada aconteceu, marcamos o descolamento para uma segunda, quando eu estaria com 41+4. Passei o fim de semana muito triste e frustrada, porque não desejava que isso acontecesse, queria entrar em TP [trabalho de parto] naturalmente. No domingo à tarde, comecei a ter contrações com frequência bastante irregular. A frequência foi aumentando. Até que a partir de 3h da manhã de segunda, comecei a ter contrações de 10 em 10 minutos. Não dormi. Às 11h da manhã de segunda (41+4, dia que estava marcado o descolamento), fui ao consultório e já estava com cinco cm de dilatação. Porém, eu já estava com tanta dor que não conseguia nem falar direito, meu corpo estava dormente. Saímos do consultório direto para a maternidade. Menos de uma hora depois de mim a GO chegou e fomos para a sala de parto. O TP se desenvolvia, mas eu não aguentava de dor e comecei a pedir analgesia. Minha dilatação aumentava, mas o bebê não descia. Minha bolsa não tinha rompido. Comecei a pedir pra ela romper, para tentar acelerar as coisas. Ela negou, para que esperássemos tudo acontecer naturalmente. Pedia analgesia e ela negava.

​Até que ela decidiu romper a bolsa. Rompemos. O bebê não descia. Eu pedia analgesia, ela negava. Até que já era noite quando ela ofereceu a analgesia. A médica explicou que minhas contrações eram curtas, por isso o parto não avançava. Mesmo com analgesia e ocitocina ele não desceu. Ela ofereceu que tentássemos usar o kiwi (aparelhinho) que puxa a cabeça do bebê com sucção. Aceitei. Por protocolo se puxa três vezes, na segunda o aparelho escapou da mão dela e não conseguimos finalizar. Ou seja, já não havia mais efeito da anestesia, vi estrelas quando aconteceu, me desesperei e pedi a cesárea. Já era perto de 1h da manhã. O bebê não desceu como o esperado com o kiwi. Quando pedi a cesárea, ela mandou prepararem a sala. Porém, a outra médica da equipe questionou. Disse que faltava muito pouco, que eu poderia tentar mais um pouco. Fiquei balançada, pois por mais dor que eu tivesse, uma cesariana me deixaria frustrada. A equipe saiu da sala para que eu e meu marido conversássemos e decidíssemos. Decidimos tentar mais um pouco. Sem a anestesia e com a ocitocina, minhas contrações estavam monstruosas. E eu virei um bicho, pois queria muito conseguir. Fiz muita força e finalmente consegui fazê-lo descer. Entrei na partolândia bem rápido: meu expulsivo durou três contrações. Ele nasceu e veio para os meus braços, nasceu lindo. Na hora que o abracei, parecia que nada daquilo tinha acontecido. Ele nasceu na banqueta, estava de cócoras. Tive uma pequena laceração, não levei pontos. A sala da cesárea foi arrumada à toa”.Emanoelle Faria (RJ) 30, mãe de Francisco, um mês.

Dicionário do parto

  • Tampão mucoso: Secreção bege que a mulher percebe na calcinha, semelhante a um catarro, às vezes pode vir com sangue. O tampão pode sair aos poucos, semelhante a um corrimento, assim como pode sair de uma vez. A saída do tampão é um indício do corpo de que o parto está próximo e de que a gestante está em pródomos.
  • Contrações: Dor no baixo ventre, semelhante a uma cólica menstrual, pontada de dor na vagina e dor que se irradia do abdômen para as costas (e vice-versa). Durante a contração do parto, a barriga da mulher fica dura. Durante a gestação, acontecem as contrações de Contrações de Braxton Hicks, as contrações de treino, que mostram que o corpo está se preparando lentamente para o trabalho de parto; a barriga da gestante pode ficar dura ou não. A dor é semelhante a da cólica menstrual. A contração do trabalho de parto costuma se irradiar do abdômen para as costas, é frequente e ritmada. O trabalho de parto só vai engrenar quando as contrações estiverem com intervalos e duração mais padronizadas. Tanto na Apple Store quando na Play Store há aplicativos gratuitos em que a gestante pode marcar o tempo das contrações, o que vai ajudar a saber a frequência e o tempo de cada uma.
  • Dilatação: É a abertura do colo do útero para a saída do bebê. Costuma ser lenta e gradual. A maioria das mulheres sentem dor, mas há mulheres que nem percebem que dilataram. Em termos práticos, até cinco centímetros de dilatação, a mulher está em pródomos ou fase latente. Do sexto centímetro ao nono, está na fase ativa. Do nono até o décimo, o máximo da medida, está no expulsivo. Toda mulher dilata para parir, é um processo natural. Não existe falta de dilatação. Existe falta de tempo, de paciência, de acompanhamento adequado, de espera.
  • Bolsa das águas: O parto pode começar com a bolsa rompendo, pode romper durante o trabalho de parto e pode não romper - há bebês que nascem dentro da bolsa das águas, isto é, empelicados. O típico é que ela rompa quando a mulher estiver na fase mais forte do trabalho de parto, quando a mulher está com sete ou oito centímetros de dilatação. Quando a bolsa rompe durante o trabalho de parto, há uma consequência: a parturiente vai sentir mais dor. “Qualquer local que trabalhe com medicina baseada em evidências não vai recomendar uma cesárea porque a bolsa rompeu antes do trabalho de parto. O que muitos médicos preferem fazer é induzir o trabalho de parto normal. Mas a indução também varia e não existe um horário específico baseado em estudos, há hospitais que já possuem protocolos de atendimento. Dentro de um parto humanizado, essa é uma questão que deve ser conversada entre equipe incluindo o casal. É preciso explicar os benefícios e os riscos de induzir o parto e de esperar que ele aconteça naturalmente”, explica Natalia.
  • Bolsa rota: Acontece quando a bolsa das águas rompe antes do trabalho de parto. Quando isso acontece, a segurança do bebê em relação a infecções diminui, já que ele perde essa barreira de proteção. O ideal é que exames de toque sejam evitados no caso de bolsa rota, pois o contato com o bebê pode propiciar algum tipo de infecção. Quando se achar que o bebê pode demorar a nascer, a recomendação, inclusive, é que não se faça exame de toque.
  • Exame de toque: Deve ser realizado por obstetriz, enfermeira-obstetra ou ginecologista-obstetra, com a introdução de dois dedos na vagina da mulher até o colo do útero, a fim de perceber a abertura do colo do útero. Em uma gestante que não está trabalho de parto, não há necessidade de fazer exame. Não há necessidade de fazer exame de toque a cada hora. “Em um parto hospitalar, o exame é recomendado para se ter certeza da dilatação e a gestante não ir muito cedo para o hospital. Ou mesmo para chamar o obstetra ou o pediatra. Ou para ver a necessidade, junto à gestante, de alguma intervenção, como analgesia. Há partos que acontecem sem algum exame de toque”, conta Natalia.
  • Linha nigra: Começa na vagina e sobe pelo abdômen, passando pelo umbigo. Ocorre devido ao aumento de estrogênio no corpo da mulher, que eleva a melanina e consequentemente a pigmentação da pele, e varia de organismo para organismo. Algumas mulheres apresentam, outras não. Desaperece após o parto, com tempo indeterminado.
  • Linha púrpura: Aparece em algumas mulheres em trabalho de parto. Começa no ânus e sobe pelas costas. Vai crescendo conforme a dilatação da mulher vai evoluindo. “Há estudos que sugerem a substituição do exame de toque pela análise da linha púrpura, mas não são todas as mulheres que apresentam, então essa analogia é muito eficaz somente para as que apresentam", ressalta Natalia.
  • Sofrimento fetal: Pode ser identificado por meio da ausculta do coração do bebê. Na fase ativa, a recomendação é que os batimentos sejam auscultados a cada trinta minutos. “Principalmente após uma contração, quando dá para saber como o bebê está de fato”, avalia Natalia. Quando alguma desaceleração é percebida, é preciso realizar a asculta mais vezes e até mesmo realizar o cardiotoco, exame que mostra desenhado como estão os batimentos. É uma justifica para a cesárea, de acordo com o andamento do trabalho de parto, no momento em que a desaceleração aconteceu. “O profissional precisa ter muita experiência para atuar tranquilamente quanto a isso”, finaliza.
  • Prolapso de cordão: Acontece quando o cordão umbilical passa na frente da cabeça do bebê e sai antes dele. É imprevisível. Se ele for pressionado contra a bacia óssea da mulher, o bebê pode ficar sem oxigênio. Emergência para cesárea.
  • Descolamento de placenta: Quando acontece, o bebê deixa de receber oxigênio e deixa de receber qualquer fluido. Também é caso de cesárea.
  • Mecônio: Presença de mecônio não necessariamente significa sofrimento fetal. É preciso ficar atento com ausculta. De acordo com o obstetra Jorge Kuhn, em palestra do Siaparto (Simpósio Internacional de Assistência do Parto), de 2016: não é possível prever qual feto vai aspirar mecônio e qual não. Se ocorrido antes do trabalho de parto, não tem significado clínico importante. Se ocorrido durante o trabalho de parto, é necessário mais atenção. Como é um evento intrauterino, a cesárea não previne, o feto pode ter aspirado ou não.
  • Circular de cordão: Quando o bebê nasce com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Segundo o obstetra Jorge Kuhn, cerca de um terço dos bebês apresenta circular de cordão ao fim da gestação. Não, não enforca a criança, já que ela não respira com os pulmões enquanto estiver na barriga da mãe. Não é indicação de cesárea, ao contrário.

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