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Parto domiciliar: indicado para gestações de baixo risco, confere mais privacidade e conforto à mulher

by Redação taofeminino Published on 16 de novembro de 2016

Referência de conforto e privacidade, o parto domiciliar, apesar de ainda ser visto com preconceito e sofrer represálias de quem defende o parto instrumental, é alternativa segura e deve ser assistido por equipe médica treinada com no mínimo dois profissionais. Por Juliana Couto

O parto domiciliar planejado se apresenta como alternativa para as mulheres que desejam realizar um parto natural e independente, em detrimento da rígida burocratização da norma hospitalar de parir. Além de resgatar valores sociais sobre o protagonismo da mulher e sentimentos sobre o processo do nascimento, questiona o uso de técnicas e procedimentos, as chamadas intervenções de rotina, práticas de dominação que restringem o parto a um evento médico, tecnocrático e desumanizado.

Mas é permitido parir em casa no Brasil? Sim. Não há uma lei que proíba uma mulher de parir em casa. Segundo a obstetra Melânia Amorim, no texto Parto Domiciliar: direito reprodutivo e evidências, publicado em seu blog Estuda Melânia, Estuda, “apesar da posição contrária de alguns conselhos regionais de Medicina e da Federação Brasileira de Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), que vêm sistematicamente desaconselhando o parto domiciliar, devemos destacar que tanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) como a Federação Internacional de Ginecologistas e Obstetras (FIGO) respeitam o direito de escolha do local de parto pelas mulheres e reconhecem que, quando assistido por profissionais habilitados, há benefícios consideráveis para as mulheres que querem e podem ter partos domiciliares. A OMS reconhece como profissionais habilitados para prestar assistência ao parto tanto médicos como enfermeiras-obstetras e parteiras e recomenda que as mulheres podem escolher ter seus partos em casa se elas têm gestações de baixo risco, recebem o nível apropriado de cuidado e formulam planos de contingência para transferência para uma unidade de saúde devidamente equipada se surgem problemas durante o parto. Por sua vez, a FIGO recomenda que ‘uma mulher deve dar à luz num local onde se sinta segura, e no nível mais periférico onde a assistência adequada for viável e segura’. Outras sociedades no mundo, como o American College of Nurse Midwives, a American Public Health Association, o Royal College of Midwives (RCM) e o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) apoiam o parto domiciliar para mulheres com gestações não complicadas. De acordo com a diretriz do RCM e do RCOG, ‘não há motivos para que o parto domiciliar não seja oferecido a mulheres de baixo risco, uma vez que pode conferir consideráveis benefícios para elas e suas famílias’”.

No Brasil, a história recente do parto domiciliar caminha com o desenvolvimento da assistência humanizada ao parto. Segundo o Grupo de Estudos sobre Nascimento e Parto (GENP), a mudança do parto domiciliar para o hospital a partir da segunda metade do século 20 foi decisiva para torná-lo um evento alienado. Se durante séculos o parto foi um evento feminino, realizado em casa e assistido por parteiras (ou comadres ou aparadeiras ou curiosas), o desenvolvimento do capitalismo deu à medicina moderna condições para que ela se tornasse responsável pelo controle de populações, incorporando, com o tempo, a prática obstétrica à medicina.

A profissionalização do parto no Brasil coincide com a chegada da Família Real e a fundação das Faculdade de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro. Essa profissionalização permitiu que não somente parteiras se tornassem (mais) qualificadas para a prática, mas que médicos se tornassem alternativas para partos complicados. A princípio, mulheres confiavam em mulheres para parir, por compartilharem das sensações e sensibilidades e conhecimentos passados por gerações. Esse cenário se transformou somente quando médicos passaram a atrair clientela para partos sem risco. A mudança para o hospital transfere a simbologia de confiabilidade da parteira para a dominação masculina, o que fica mais claro ainda se se observar que a partir do momento em que o parto hospitalar se populariza, as mulheres deixam de parir em posição vertical, que favorece mulher e bebê, e passam a parir em posição horizontal, o que garante o conforto do obstetra.

De acordo com Bráulio Zorzella (SP), 39, obstetra e ginecologista, referência no mundo da humanização do parto, “estima-se que o homo sapiens esteja na Terra há 150 mil anos, então o homo sapiens sempre nasceu fora do hospital. O movimento do parto hospitalar é que é novo na história. O primeiro ano em que se teve mais parto hospitalar no Brasil do que domiciliar foi 1976. O que aconteceu foi um movimento para se levar o parto para o hospital. Um movimento rápido, se pararmos para pensar na história da humanidade, em poucas décadas o parto entrou completamente para o hospital. Esse avanço tecnológico se entende se comparado ao celular, por exemplo. Cinco anos após a invenção do celular, ele já era uma tecnologia popular. O ser humano adere à tecnologia. Comparando ao celular, o parto domiciliar funciona como se, no meio de todos que usam celular, alguém diz que não vai mais se comunicar por celular porque não quer. O preconceito surge quando há um movimento que pode parecer um retrocesso dentro do avanço tecnológico. E ele surge porque se julga a qualidade e a segurança desse atendimento. O ponto chave é a segurança. Esse preconceito surge porque se diz que o parto domiciliar não é seguro. Realmente, um parto domiciliar que não é planejado ou que não tem planejamento adequado não é seguro, vários estudos apontam isso - e muitos outros apontam ele é seguro quando planejado. Existe um estudo holandês, por exemplo, com 515 mil casos, que aponta que um parto domiciliar planejado, ou seja, considerando a elegibilidade da mulher, equipe completa, treinada, material completo e plano B próximo à casa da mulher tem os mesmos riscos do parto hospitalar. Quem fala hoje sobre segurança de parto e diz que o parto domiciliar é inseguro não conhece esses trabalhos e não conhece na prática como é o parto domiciliar. É um pré-conceito, é um desconhecimento de quem está falando sobre o assunto”, explica.

Assistência ao parto domiciliar e a importância dos planos A, B e C

O movimento pela humanização do parto reconduz as práticas e condições desumanas de tratamento hostil, excesso de intervenções (nota: uma intervenção leva a outra), uso desmedido de medicamentos indutores do trabalho de parto, desrespeito à autonomia da parturiente, falta de suporte emocional e estrutura física inadequada para garantir privacidade, conforto e apoio. Todas essas condições são descritas e sentenciadas por parturientes que passaram por partos abusivos e por profissionais de saúde que, se não eles mesmos, viram o par profissional praticar tais atitudes. O parto não é um evento médico, é um evento humano (e como muito bem qualificado no documentário O Renascimento do Parto, é um evento sexual que une a morte e a vida), protagonizado por mulheres. A máxima “meu corpo, minhas regras”, tão popular em grupos de redes sociais que defendem a revisão dos direitos das mulheres, é perfeita para se repensar o protagonismo do parto. Cabe, assim, aos profissionais de saúde, obstetras e enfermeiras(os) obstetras a assistência ao parto.

Como se dá a assistência ao parto domiciliar? Pelas premissas já explicadas, ela é uma prática humanizada. Em um parto domiciliar, a parturiente não deverá ser silenciada, conduzida, questionada ou violentada. Ela será assistida por uma equipe que pode ser formada por um obstetra, uma enfermeira obstetra ou uma obstetriz e uma doula. Segundo Bráulio, há uma equipe mínima para um parto domiciliar. “A equipe mínima é formada por duas enfermeiras obstetras ou duas obstetrizes ou uma obstetriz e uma enfermeira obstetra, sendo que uma delas precisa ter capacitação para emergências obstétricas e outra capacitação para emergências neonatais, ou seja, uma cuida da mãe e outra cuida do bebê em caso de emergência, modelo vigente em países como Inglaterra e Holanda. Essa equipe ainda pode ser melhorada com a presença de uma doula, que além da confiança e do empoderamento para a parturiente, ajuda a lidar com a dor com métodos não farmacológicos. Pode ainda haver uma equipe que tenha ou um médico obstetra ou um neonatologista, ou ainda os dois”, explica. A equipe de Bráulio é formada por ele, como obstetra, um neonatologista, uma enfermeira obstetriz e uma doula, que deve ser convidada pela parturiente.

Segundo informações do texto Parto Domiciliar Planejado: algumas coisas que talvez você não saiba, da obstetriz Ana Cristina Duarte (SP), 51, referência no ativismo pelo parto humanizado como direito da mulher (ela passou por uma cesárea desnecessária; o parto normal de seu filho foi como um resgate que a fez querer entender melhor esse universo; após muita pesquisa, passou a conhecer vários profissionais da área que apresentaram-lhe um novo modelo de atendimento obstétrico no qual a mulher era a protagonista), mãe de Julia, 19, e Henrique, 17, publicado no site do GAMA (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa) as equipes devem ser compostas pelo menos por um profissional dos acima citados (obstetriz, obstetra ou enfermeira obstetra), todos capacitados para emergências obstétricas e reanimação neonatal não podem atender partos. Elas conferem à mulher parturiente apoio psicológico e emocional. Todo o material do parto domiciliar é levado pela equipe, incluindo material estéril, de reanimação neonatal e de emergência pós-parto materna.

Como proposta de garantir uma experiência de parto satisfatória, o parto domiciliar está, segundo metanálise publicada no AJOG (American Journal of Obstetrics and Gynecology), associado a um menor risco de intervenção materna, incluindo anestesia peridural, monitoração eletrônica fetal, episiotomia, parto operatório, menor frequência de lacerações, hemorragia e infecções, menor taxa de prematuridade, menor frequência de baixo peso ao nascer e menor necessidade de ventilação assistida. Além disso, se verificou que as taxas de mortalidade perinatal são semelhantes entre partos domiciliares e hospitalares, mas os partos domiciliares se associaram a aumento de cerca de três vezes em taxas de mortalidade neonatal.

Por isso, a importância de um plano B. Toda família que opta por fazer um parto domiciliar planejado precisa pensar no plano A, o domiciliar, pensar na equipe, preparar o plano de parto, apresentá-lo a equipe médica, realizar o pré-natal com o médico obstetra da equipe ou que será suporte durante o parto (nesse caso, também deve passar por pré-natais com a obstetriz ou enfermeira obstetriz); e precisa pensar no plano B, se for necessária alguma intervenção de emergência e transferência para o hospital. Para o plano B, é importante ponderar: para qual hospital você será transferida? Que vai com você? Em caso da sua equipe ser formada apenas por obstetrizes, qual obstetra assistirá seu parto no hospital, o plantonista ou o que você realizou o pré-natal? Segundo Ana Cristina, “Em alguns casos, existe a necessidade de transferir para um hospital, certas condutas não podem ser realizadas em casa. E para dar continuidade do atendimento humanizado no hospital, é importante definir um médico obstetra que trabalhe nessa linha”.

Para Bráulio, mais importante do que ter o plano B é ter o plano C, dividido em três níveis: "um nível é o local, um nível é a equipe e o outro nível é o tipo de parto. Para o local, a parturiente precisa pensar no plano A. Se for um parto em casa, ela precisa pensar no plano B, um hospital de referência de escolha dela, de preferência um que a equipe possa entrar; e o plano C, um outro hospital em que essa equipe também possa entrar. Porém, algumas mulheres optam por ter uma equipe para o parto em casa e escolhem um hospital no qual ela será conduzida por uma equipe de plantão. Isso não é um problema, mas se perde um pouco do vínculo e um pouco da continuidade do trabalho de parto. No caso da equipe, formada por uma dupla, qualquer que sejam os cargos, é importante que esses profissionais tenham um substituto, alguém de backup. Se possível, até um terceiro substituto, mas normalmente se faz com somente o segundo substituto. O plano A, B e C para o parto seria o plano A como tentativa de parto natural, o plano B, um parto ou induzido ou um parto com alguma intervenção, como uma analgesia, e o plano C, de cesárea. É importante que isso tudo seja aberto entre parturiente e equipe e todas essas possibilidades combinadas e conversadas antes”.

Afinal, quem pode parir em casa? Como saber se está tudo bem?

Segundo Ana Cristina, para planejar um parto domiciliar, existe uma condição para a gestante: gestação de baixo risco (pré-natal sem intercorrências, com bebê único, posicionado, com mais de 37 semanas e em trabalho de parto espontâneo, não induzido. Bráulio explica que se a mulher planejou o parto domiciliar, ou seja, ela fez o pré-natal e foi triada para isso, o caso dela é elegível para se fazer em casa, com uma gestação de risco habitual, uma gravidez na qual o bebê está bem, sem intervenção, com 37 semanas, os riscos são inerentes a um parto natural e independem de se estar em casa ou no hospital. “Os riscos maiores são hemorragia pós-parto e necessidade de reanimação pós-parto, ambos riscos que ocorrem pós-parto e para ambos a equipe leva para a casa da parturiente os mesmos materiais que seriam usados no hospital. Até porque se acontecer algum risco durante o trabalho de parto, essa mulher será transferida e o parto vai terminar no hospital, por exemplo, se houver necessidade de anestesia ou algum sinal não tranquilizador do bebê, por exemplo, bolsa rota com mecônio ou batimento cardíaco do bebê alterado ou até mesmo um partograma que se estenda muito - é preferível que esse parto termine no hospital”, explica.

Mas, como saber se está tudo bem durante um trabalho de parto domiciliar? Controles períodos dos batimentos cardíacos do bebê e dos sinais vitais maternos são os indicadores para saber se está tudo bem durante um parto domiciliar. Por meio desses critérios, segundo Bráulio, se sabe se está tudo bem ou se pode vir a ter alguma alteração ou se já tem alguma alteração. "Baseado nisso se decide fazer alguma intervenção para acelerar o parto ou até mesmo terminar o parto naquele momento se já estiver terminando, ajudando a finalizar com fórceps ou com vácuo extrator. Ou se não tiver outra maneira, através da cesárea. Outro ponto que se avalia é a evolução do parto, tanto da dilatação quanto da descida do bebê, para saber se está tendo uma boa passagem, se ele é proporcional para a saída, se ele não está mostrando algum posicionamento anômalo ou até mesmo um tamanho maior que o esperado, porque pode ser necessário fazer alguma intervenção para ajudar o parto acontecer ou mesmo terminar em cesárea. Em termos técnicos, é ausculta ou cardiografia; e na evolução do parto, o partograma, gráfico que avalia a evolução de hora em hora", explica.

Bráulio acredita na escolha da mulher. "O parto que flui melhor é aquele em que a mulher escolhe o local onde ela se sente mais segura. Como existem várias mulheres, várias opiniões e várias sensações de segurança, aquelas que escolhem o parto domiciliar por se sentirem mais seguras em casa, eu apoio o parto domiciliar, assim como aquelas que escolhem o hospital como sendo mais seguro, exceto para os 10% de gestação de risco ou risco intermediário em que o parto deve acontecer no hospital mesmo que a escolha dela seja em casa. Há casos que não são elegíveis para serem feitos em casa. Além da necessidade de menos intervenções, o parto em casa traz mais conforto e privacidade para a mulher", finaliza.

Dentre as que querem um parto domiciliar, não o podem realizar as parturientes que possuem gestações de risco, com ocorrências como hipertensão, diabetes, seja pré ou adquirida na gestação, bebês macrossômicos (com mais de 4,5 kg, mesmo que não haja diabetes); há riscos intermediários, ou seja, não são situações absolutas mas devem ser levadas em consideração: uma cesárea anterior, apresentação pélvica e gestações com mais de 42 semanas. Em média, de 10% a 15% das mulheres que querem parir em casa não são elegíveis. Segundo Bráulio, a cesárea anterior é ponto polêmico, pois há equipes que atendem partos em casa com cesárea anterior, mas ainda não há relatórios científicos mostrando a segurança ou não. Para ele, um parto com cesárea anterior deve ser realizado idealmente em hospital; não é regra, mas é o ideal.

De acordo com Ana Cristina Duarte, em caso de transferência, “se for transferência por emergência, o que é muito raro em obstetrícia de risco baixo (parto natural em casa de mulheres saudáveis e gestações sem intercorrências) talvez seja melhor ir ao hospital mais perto da casa. Se for uma transferência por cansaço, analgesia, indução, etc., que é o cenário da maioria das transferências, dá para ir a qualquer hospital, mesmo que ele seja um pouco mais longe. Depende da estrutura dos dois hospitais, porque às vezes o hospital mais longe pode estar muito mais bem equipado para emergências, então nem sempre a distância é o fator mais decisivo”.

Relatos de quem pariu em casa

“Eu cheguei ao parto domiciliar através do curso Revelando Doulas. Em 2015, decidi mudar de profissão e nas férias do meu trabalho na área administrativa de uma empresa comercial eu me inscrevi no curso de imersão e em 5 dias me tornei doula. Antes do curso não queria ser mãe tão cedo, mas depois do curso parece que saímos de lá cheias de ocitocina e em dois meses engravidei do Felipe. Escolhi o parto domiciliar por medo de sofrer violência obstétrica ou de cair em uma cesárea desnecessária, por que o atendimento aqui da minha cidade está péssimo, mais de 70% a taxa de cesárea na maternidade de referência da cidade. Eu não tinha recurso financeiro, estava desempregada, pois saí do emprego para doular. Porém, no começo sabemos que não dá para se sustentar com a doulagem, mas eu não podia desistir! Vendemos o carro que tínhamos e comecei a vender maçã do amor. Vendi mais de 2 mil maçãs do amor na minha cidade e conseguimos pagar a equipe com duas parteiras e uma doula. Eu nunca tive medo do parto domiciliar e confiava totalmente na minha equipe, pois só tinha relatos bons de cada uma delas. Não me arrependo de não ter feito enxoval, ensaios fotográficos e mais um monte de coisa que renunciamos para conquistar o parto. Eu só queria ser respeitada e trazer o meu filho sem nenhuma intervenção desnecessária, da forma mais natural possível. E foi o que aconteceu, eu e meu filho fizemos todo o trabalho de parto, ele nasceu e eu renasci. O maior ganho para mim foi ser respeitada em todos os momentos, ser tratada com carinho e não ser apenas mais um de um centro obstétrico. Fora que estar no nosso lar no nosso conforto após um trabalho de parto é muito bom.”
Evelyn Pinto de Souza (SP), 20, mãe de Felipe, de três dois meses

“Depois que a Eva nasceu, tive muitas restrições em relação ao atendimento hospitalar. O parto dela foi normal, humanizado, mas o hospital, de ponta, deixou muito a desejar no atendimento. Desde a equipe de enfermeiros da admissão, que me desencorajou a fazer o parto na primeira vez que estive lá e sem dilatação, até depois do nascimento, quando buscavam fazer exames e mais exames na minha filha, com motivos descabidos. Então, coloquei na cabeça que se tivesse outra filha seria em casa. Até o dia que uma amiga, Mariana, teve sua filha Joana, em casa, e como éramos muito próximas, estive em sua casa horas depois do nascimento. Eu nunca tinha visto nada igual. Tanta beleza, tanta gratidão, uma sensação de plenitude, ela ali, sentada com a filha no colo. E em todas as vezes que eu visitava mães em pós-parto sentia uma coisa que só soube explicar naquele momento - era uma sensação de que aquele cenário era bonito, mas estava longe de ser fantástico. A expressão da Mariana não me deixou dúvidas. Meu pré-natal foi 'desatando todos os nós' da minha vida. Todos os meus medos - e nada relacionado ao parto em si. A ordem era curtir a gestação. Desde que combinamos o parto domiciliar eu sabia que não queria mais ninguém em casa. Então seríamos eu, o Daniel, pai das meninas, e a parteira. A filha mais velha ficaria com a minha mãe, que a levaria. E eu nem cogitava a presença da minha mãe por perto. Achava que ela ia me desencorajar na hora H. Então, por aquelas obras do destino, as cartas se embaralharam. Eu estava sentindo algumas cólicas e minha mãe dormiu em casa, para ficar com a Eva caso entrasse em trabalho de parto. Mas na manhã de 6 de junho acordamos com uma notícia devastadora - minha avó, mãe da minha mãe, tinha falecido. Minha mãe saiu para o enterro e disse para minha barriga 'me espera Aurora'. E se foi. Eu fiquei sem opções. Quem ia ficar com Eva? Por sorte, uma prima não ia no enterro, já que sua filha também era bebê. Descemos, ficamos caminhando, e eu percebi que elas estavam bem ritmadas. Vinham de 6 em seis minutos. Ligamos para a Vilma e, para nossa surpresa, ela estava em outro parto. Disse se queríamos que mandasse alguém. Eu não queria. Disse que ia esperar. Como estávamos sozinhos, liguei para uma amiga, a Carol, que tinha tido sua primeira filha em casa. Grávida de gêmeos, a Carol apareceu em casa e ficou me vendo dançar na sala. Ela dizia que tudo estava lindo e eu não entendia. De repente sai da sala e fui no banheiro. Coloquei um pé sobre a privada, olhei para trás e disse para o Daniel "Você me segura e a Carol segura o bebê". Eles ficaram mudos. Foram buscar toalhas e estávamos prontos para o nascimento da Aurora. Eram sete da tarde. Foi quando minha mãe ligou que estava voltando do enterro da minha avó. E eu disse 'fala para ela vir. Ela enterrou a mãe. Tem que ver a neta nascer'. Ela entrou em casa quase ao mesmo tempo que a parteira. E quando todos chegaram, olhei para trás, e falei 'Acho que vai nascer'. A parteira, 'acho que tá nascendo'. Em uma contração a Aurora veio inteira na bolsa. Foi o momento mais magnífico de toda a minha vida. Nada vai ser comparado a aquilo. Eu, minha mãe, todos ali, em êxtase. Dei a Aurora para a minha mãe e isso coroou o nosso dia. Em pouco tempo todas as pessoas que estavam no enterro estavam lá para ver aquele bebê que tinha nascido. A diferença entre o primeiro e o segundo parto, não tem como comparar - foram duas experiências absolutamente distintas. Na minha casa eu me sentia segura, sabia quem podia e quem eu queria que entrasse na minha casa. E estava em êxtase quando ela nasceu e fui para cama comer uma pizza. No hospital tem uma burocracia danada. O pai tem que ir paramentar e demora, os enfermeiros te tratam como uma idiota e a experiência, por melhor que seja, não se compara. O maior ganho de ter um filho em casa foi ter tido uma experiência que eu vou guardar para sempre. Vou lembrar, contar e recontar. Virou uma história de família por ter sido no dia do falecimento da minha avó, e por ter trazido tantas coincidências que coroaram a magia do momento”.
Cinthia Dalpino (SP), 34, mãe da Eva, 6, e da Aurora, 3

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Editado em 21 de novembro de 2016.

by Redação taofeminino

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