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Por que optar pelo clampeamento tardio do cordão umbilical?

by Redação taofeminino Published on 5 de abril de 2017

Essencial para o desenvolvimento do bebê e principal ligação entre mãe e filho, o cordão umbilical carrega um aporte nutricional importante para o bebê nos primeiros meses de vida – e por isso as mais recentes recomendações abordam que o clampeamento do cordão umbilical deve ser retardado. Por Juliana Couto

O cordão umbilical é essencial para o desenvolvimento do bebê. Ao longo da gestação, é o responsável por transmitir para o bebê tanto oxigênio quanto nutrientes, como proteínas essenciais para seu crescimento. Parte da placenta e composto principalmente de colágeno, é também o responsável por criar a conexão entre mãe e bebê. De acordo com Rubens Paulo Gonçalves (SP), ginecologista e obstetra, a função do cordão umbilical é sempre a mesma e não muda nem durante o parto nem no pós-parto imediato, ou seja, mesmo intraparto e assim que o bebê nasce, o cordão segue sua função primordial. Por que, então, há o protocolo corriqueiro em maternidades brasileiras de se realizar o clampeamento precoce do cordão, ou seja, cortá-lo assim que o bebê nasce? No atendimento ao recém-nascido com protocolo instrumental, a ligadura é realizada imediatamente após o nascimento independentemente da via. O primeiro ponto é objetivo: aquele sangue pertence ao bebê. É recomendado que se espere de um a três minutos para se clampear, período em que o sangue ainda está sendo bombeado. Como saber? O cordão fica esbranquiçado e murcha. Esses são os sinais para que possa ser realizada a ligadura. Do contrário, pode ser considerada uma intervenção de rotina que retira do bebê um aporte nutricional fundamental: ferro.

“Nas recentemente publicadas Recomendações da OMS para a prevenção e tratamento da hemorragia pós-parto de 2012, a OMS reitera sua recomendação anterior de aguardar para clampear e cortar o cordão umbilical logo em seguida ao nascimento do bebê. A recomendação é baseada na compreensão de que o atraso do clampeamento do cordão umbilical permite a passagem continuada do sangue da placenta para o bebê durante 1 a 3 minutos após o nascimento. Esse breve atraso é conhecido por aumentar as reservas de ferro do bebê em até 50% aos 6 meses de idade nos bebês nascidos a termo. No entanto, atualmente a cobertura dessa intervenção tem sido limitada devido à falta de informações sobre seus benefícios bem como em função de preocupações suscitadas a respeito da prática”, segundo registrado no documento O Clampeamento Tardio do Cordão Umbilical Reduz a Anemia Infantil, da Maternal and Child Health Integrated Program.

Segundo Rubens, “se o médico esperar de um a três minutos para cortar o cordão, ele permitirá a passagem de até 100 ml de sangue a mais para o bebê. Esse sangue está cheio de anticorpos que previnem a anemia e que fornecem hemoglobina e oxigênio, que fortalecem o bebê e sua saúde, evitando, por exemplo, infecções”. É o que também demonstra o estudo Early Versus Delayed Umbilical Cord Clamping in Preterm Infants, revisão sistemática da Cochrane, de 2012, ao registrar que “o clampeamento imediato do cordão pode privar o recém-nascido de até 25% do volume circulante de oxigênio, especialmente se a respiração espontânea ainda não tiver se iniciado”.

Até meados de 1950, o termo clampeamento precoce estava relacionado ao corte dentro de um minuto após o nascimento e o clampeamento tardio após cinco minutos. Em uma série de estudos, no entanto, foi relatado que entre 80 ml e 100 ml de sangue são transferidos da placenta para o recém-nascido nos primeiros três minutos após o nascimento e que 90% desse volume é transmitido nas primeiras respirações de recém-nascidos saudáveis e a termo. Pela falta de recomendação específica de tempo, aliada à informação das primeiras respirações, passou-se a realizar a ligadura nos instantes seguintes ao nascimento, se tornando prática comum realizar o corte entre 15 e 20 segundos após o parto. Somente com ensaios mais recentes, randomizados e controlados com bebês a termo e prematuros, avaliando-se também volume sanguíneo, oxigenação e pressão arterial, foi possível demonstrar os efeitos entre clampeamento tardio e precoce do cordão umbilical.

Em publicação de janeiro de 2017, o Acog (American College of Obstetricians and Gynecologists), registra que o clampeamento tardio do cordão umbilical se mostra benéfico para os recém-nascidos a termo e prematuros. Em recém-nascidos a termo, a ligadura tardia do cordão umbilical aumenta os níveis de hemoglobina ao nascer e melhora as reservas de ferro nos primeiros meses de vida. Ressalta que há um pequeno aumento na icterícia que requer fototerapia nesse grupo de crianças, de modo que os profissionais de saúde que adotem o bloqueio do cordão umbilical tardio em recém-nascidos a termo devem assegurar que existem mecanismos para monitorizar e tratar a icterícia neonatal. Em prematuros, a ligadura tardia do cordão umbilical está associada a benefícios neonatais como melhora da circulação transicional, melhor estabelecimento do volume de glóbulos vermelhos, menor necessidade de transfusão de sangue e menor incidência de enterocolite necrosante e hemorragia intraventricular.

Ainda de acordo com a Acog, o clampeamento tardio do cordão umbilical não foi associado a um risco aumentado de hemorragia pós-parto ou aumento da perda sanguínea ao parto, nem foi associado a uma diferença nos níveis de hemoglobina pós-parto ou a necessidade de transfusão de sangue. Por isso, a instituição recomenda atraso no corte do cordão umbilical a termo e prematuros durante no mínimo 30 a 60 segundos após o nascimento.

A capacidade de proporcionar o clampeamento tardio do cordão umbilical pode variar entre instituições e configurações de nascimento, de modo que as decisões devem ser realizadas em conjunto com a equipe que assiste a díade mãe-bebê. É importante frisar que o clampeamento tardio deve constar no plano de parto, preparado pela parturiente; o tema deve ser conversado com a equipe médica e protocolado na maternidade - se a parturiente optar por atendimento hospitalar em vez de casa de parto ou domiciliar, por exemplo (e também deve ser colocado no plano parto tanto para casa de parto quanto para parto domiciliar).

A icterícia neonatal pode ser mais incidente com o clampeamento tardio, segundo apontamento da Acog e de vários estudos sobre a ligadura tardia do cordão umbilical. Ela oferece riscos ao bebê? Rubens esclarece que não. “O corte tardio aumenta as chances de o bebê ter icterícia, pois está passando mais hemoglobina para o bebê (quanto mais hemoglobina o bebê tem, maior a chance de ter icterícia). Por outro lado, os benefícios são enormes. Vale ressaltar que a icterícia não causa nenhum prejuízo a saúde do bebê e é totalmente tratável. Por isso, é importante destacar que se houver o corte tardio o cordão, os especialistas devem ficar mais atentos a icterícia”.

Entre a recomendação oficial tanto da Acog quanto da Febrasgo (Federaçao Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), de esperar de 30 a 60 segundos e retardar por pelo menos dois minutos a ligadura do cordão umbilical, a indicação real é que o clampeamento não seja realizado imediatamente após o nascimento para bebês prematuros e a termo em um quadro assistencial sem riscos para mãe e bebê. O ponto de vista primordial, ao se repensar o modo como os bebês são recebidos principalmente em seus primeiros instantes de vida, é lógico e, nesse caso, reiterado cientificamente: se o sangue do cordão umbilical é do bebê e garante comprovadamente mais saúde por no mínimo seis meses, por que prosseguir com métodos instrumentais e de protocolo? Somente para priorizar o tempo da equipe médica?

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