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Quem pode parir em casa de parto?

by Redação taofeminino Published on 30 de novembro de 2016

Alternativa para gestantes de baixo risco que querem parir naturalmente com assistência de parteiras fora do hospital e fora de casa, o parto em casa de parto é referência em atendimento humanizado e com calmantes não farmacológicos. Por Juliana Couto

O excesso de tecnologia para prover o melhor nascimento do seu filho não é sinônimo de parir por uma cirurgia cesárea em uma maternidade reconhecida. O modelo brasileiro de casa de parto, na contramão das altas taxas de cesáreas registradas no país, apresenta resultado humanizado seguro para a mulher que quer parir naturalmente, que quer ser assistida por parteiras e que não quer parir nem em casa nem em um hospital. Planejar o parto é de extrema importância durante a gestação. Seja para entender a fisiologia do parto, ao se preparar para suas fases, seja para saber quem irá assistir seu parto, ou seja, qual a equipe médica que irá compô-lo. No Brasil, uma mulher pode parir na sua própria casa, no hospital ou em uma casa de parto. Mas, quem pode parir nas casas de parto? Parturientes de baixo risco que possam ter seus partos assistidos por obstetrizes e enfermeiras(os) obstetrizes sem qualquer tipo de intervenção médica.

Casa de parto é a nomenclatura popular no Brasil para centros de parto normal extra-hospitalares, ou seja, fora do hospital. No Brasil, foram criadas pelo Ministério da Saúde do Brasil a partir de 1998, quando foi inaugurada a Casa de Parto de Sapopemba, em São Paulo, a primeira do país. Apesar dos conselhos regionais de medicina e do Conselho Federal de Medicina (CFM) entenderem ser imprescindível a presença de um obstetra no parto, a parturiente pode ser assistida somente por obstetrizes ou enfermeiras(os) obstetrizes, de acordo com a Lei 7.498, de 25 de junho de 1986, que estabelece que esses profissionais podem prestar assistência à parturiente e ao parto normal, assim como identificar distocias e tomar providências até a chegada do médico, caso exista alguma ocorrência intraparto que exija a presença do profissional. Além disso, o Conselho Federal de Enfermagem estabelece, por meio da Resolução 223, de 3 de dezembro de 1999:

Art. 1º - A realização do Parto Normal sem Distocia é da competência de Enfermeiros, e dos portadores de Diploma, Certificado de Obstetriz ou Enfermeiro Obstetra, bem como Especialistas em Enfermagem Obstétrica e na Saúde da Mulher;
Art. 2º - Compete ainda aos profissionais referidos no artigo anterior:
a) assistência de Enfermagem à gestante, parturiente e puérpera;
b) acompanhamento da evolução e do trabalho de parto;
c) execução e assistência obstétrica em situação de emergência.

Casa de Parto Casa Ângela, em São Paulo © Divulgação

Ainda que mais de 90% dos partos sejam realizados em hospitais e destes mais de 85% sejam assistidos por obstetras, a proposta do Sistema Único de Saúde (SUS) de integrar centros de parto e hospitais de referência confere equidade às mulheres que não podem ou não querer arcar com um parto domiciliar e que não querem parir em hospital. Quando uma gestante opta por parir em uma casa de parto, ela sabe que poderá ser transferida para um hospital caso seja verificada a necessidade de remoção, com suporte adequado para mãe e bebê.

Dentro do paradoxo do sistema obstétrico brasileiro, marcado por recursos tecnológicos que não refletem garantia de saúde materna e infantil, por marcado por intervenções desnecessárias já respaldadas cientificamente, comprometendo a integridade do binômio mãe e bebê, e por violência obstétrica, as casas de parto são referência de atendimento humanizado e assistencialmente universal, dando a todas as mulheres o direito de parir em um local no qual elas se sintam seguras, conforme estabelece a Federação Internacional de Ginecologistas e Obstetras (FIGO).

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, “as casas de parto oferecem atendimento a mulheres com gestação de baixo risco, atendidas pela rede básica de saúde e que desejam o parto natural, sem intervenção cirúrgica. Para isto, a saúde da gestante é avaliada, a fim de verificar se ela tem condições seguras para este tipo de parto. Todo o atendimento obstétrico e pré-natal é feito integralmente por enfermeiras obstetras e obstetrizes com longa experiência na área, apoiadas por Auxiliares de Enfermagem. O atendimento nas casas de parto é 100% SUS e atendem gestantes que são acompanhadas no pré-natal da rede pública ou privada”.

Como funcionam (algumas) casas de parto no Brasil*

Casa Ângela
Realiza um grupo de acolhimento às quartas-feiras, às 9h30, aberto para todas as gestantes e familiares que querem conhecer o local. Durante o encontro, são explicados o funcionamento da casa de parto, os serviços oferecidos (acompanhamento da gestante no 3° trimestre, a partir de 28 semanas de gestação, grupos de gestantes, parto e acompanhamento pós-parto) e apresentação da infraestrutura. Como qualquer casa de parto, só aceita gestação de baixo risco. Gestantes com alterações como hipertensão gestacional (pressão alta), diabetes, cardiopatia e cesárea prévia não podem realizar o parto na Casa Ângela. O atendimento pode ser particular ou pelo SUS (nesse caso, a gestante precisar estar com o pré-natal em Unidade Básica de Saúde (UBS) da cidade de São Paulo).

Rua Mahamed Agui, 34, Jardim Mirante, São Paulo, SP.
5852-5332
facebook.com/CasaAngela.PartoHumanizado
casaangela.org.br

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Casa de Parto da Sapopemba
O atendimento é iniciado com consultas semanais com a enfermeira obstetra, em parturientes entre 35 semanas e 37 semanas de gestação, período em que são realizados exames para avaliação do bem-estar materno/fetal e também orientações sobre os sinais de trabalho de parto. Para parir na Casa de Sapopemba é necessário que seja gestação única, apresentação cefálica, com exames de pré-natal com resultados normais, sem cesárea anterior, ausência de doenças prévias ou gestacionais como diabetes, hipertensão, entre outros.

Rua São José das Espinharas, 400, Vila IVG, São Paulo, SP.
2702-6043
facebook.com/Casa-de-Parto-Sapopemba-268908269866230

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Centro de Parto Normal David Capistrano da Costa Filho
Ou casa de parto do Sofia Feldman, como é mais conhecida, referência em assistência obstétrica humanizada. Essa casa de parto está localizada no mesmo local que o hospital, de modo que em caso de transferência, a parturiente vai para o Hospital Sofia Feldman. A porta de entrada é o pronto atendimento obstétrico, no qual a mulher é avaliada; se for uma gestação de baixo risco, encaixando-se nos critérios da casa de parto, ela é informada sobre o espaço e assistência oferecida (o mesmo para a maternidade, cabendo a ela a escolha). Na casa de parto são utilizados apenas métodos não farmacológicos de alívio à dor. Caso a parturiente deseje anestesia medicamentosa, ela será transferida para a maternidade. Não podem parir na casa de parto do Sofia gestante com hipertensão, diabetes, fazendo uso de antibióticos ou se apresentar estreptococos positivo. Em caso de uma única cesárea anterior, a parturiente será avaliada e, estando dentro do protocolo recém-avaliado da casa de parto, poderá escolher entre a casa de parto ou a maternidade.

Rua Antônio Bandeira, 1601, Tupi, Belo Horizonte, Minas Gerais.
3408-2200
facebook.com/hospitalsofiafeldman
sofiafeldman.org.br
instagram.com/hospitalsofia

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Relato de quem pariu em casa de parto

“Tive a oportunidade de conhecer um lugar maravilhoso como a Casa Ângela por uma amiga, todas as mulheres deveriam ter a oportunidade de ter um acompanhamento como eu tive. Lá eu me sentia segura, me sentia capaz de qualquer coisa pela minha filha. Até falava para as meninas que não queria jamais ir para o hospital, que se eu fosse tinha certeza que meu trabalho de parto travaria. Dormi muito bem do dia 15 para 16 (de fevereiro de 2014), claro, como a maioria das gestantes acordei de madrugada para ir ao banheiro. Às seis horas da manhã levantei morrendo de vontade de fazer xixi, mas ao sair correndo da cama para ir ao banheiro não consegui segurar e fiz um pouquinho na roupa, me sequei e voltei para a cama. Não deu nem 10 minutos me veio a vontade novamente, saí correndo de novo, dessa vez até que consegui chegar ao banheiro mas comecei a observar não tinha cor de xixi. Saí novamente do banheiro e não chegou a dar cinco minutos me deu novamente a vontade. Peguei minha toalha, fui tomar banho e no banho saiu mais, não sabia como era quando a bolsa estourasse, mas tinha certeza que aquilo não era xixi. Sai do banho e fui logo avisando ao meu marido para não sair ainda (ele estava de saída para o trabalho), pois achava que minha bolsa havia estourado. Me vesti e fui logo ligar para Casa Ângela, lá me informaram que, sim, aquilo poderia ser a bolsa estourada. Pediram para que eu fosse logo para lá, pois não estava sentindo dor ainda e se eu não entrasse em trabalho de parto em seis horas não poderia ganhar lá. No momento em que me disseram isso, meu coração deu um forte aperto, pois não queria ir para o hospital de forma alguma, desliguei o telefone e fui correndo arrumar minha bolsa - pois é, 38+6 de gestação e eu ainda não tinha feito a minha bolsa e a da bebê estava pela metade.

Não estava ansiosa e pensava que fosse demorar mais um pouquinho para ela nascer, engano meu. Corri para terminar de arrumar a minha bolsa enquanto meu marido foi avisar minha mãe do ocorrido, minha mãe chegou, mas eu ainda não estava sentindo contrações, nenhum sinal de dor, aliás. Estava tudo bem até então e eu bastante calma enquanto minha mãe corria para se arrumar ir para o trabalho, enquanto seu esposo buscaria minha sogra para ficar com meu filho para meu marido me acompanhar no nascimento da nossa pequena. Por volta das nove, minhas contrações começaram bem fortes, mas com um tempo de 10 em 10, eu acho, pois estava vindo bem rápido, já tinha arrumado a minha bolsa e terminado de arrumar a bolsa da minha pequena, estava sentindo as dores das contrações, mas ainda estavam suportáveis, estava até lavando louça.
Por volta de 9h30 já não dava mais para fazer nada entre as contrações. Aí, fui parar para ver de quanto em quanto tempo estavam, já estavam constantes e ritmadas a cada 5 minutos. Logo em seguida a parteira da Casa Ângela ligou perguntando se eu não iria para lá, logo expliquei a situação e meu marido já estava para chegar com minha sogra para que nós fôssemos e que eu já estava com contrações a cada 5 minutos.
Chegando lá, por volta de 10h, fui direto para sala de parto. Já foram logo enchendo a banheira para que eu pudesse relaxar um pouco, pois as contrações não estavam perdoando, a parteira me examinou e fui direto para banheira. Lá fiquei um bom tempo tentando relaxar, mas as contrações não paravam nem para que eu pudesse comer um pouco, elas vinham com água, suco, bolo, fruta na boca, mas quando a contração vinha não parava nada no estômago voltava tudo. Mesmo tendo golfado tantas vezes elas não paravam de me oferecer alimento, até porque eu não havia comido nada em casa. Como não conseguia comer, estava com medo de não conseguir fazer forma no momento em que ela fosse nascer, falei isso acho que várias vezes para a parteira, mas ela falava a todo o momento que eu ia conseguir sim, para não me preocupar.

Saí da banheira e fui para a cama novamente, a parteira mais uma vez me examinou e ali fiquei, pois estava em uma posição confortável. Pediram para que eu fosse para a banheira, pois havia falado que queria que Laurinha nascesse na água, mas eu não quis, ali estava ótimo para mim, não queria mudar de posição. Logo em seguida a Laura começou a nascer. Nesse momento eu só sentia que ela estava vindo e eu rindo. Como pode né? Sentir uma dor imensa e com um sorriso no rosto, somente o nascimento de um filho mesmo.
Assim que a cabecinha dela apareceu, chamaram meu marido para vê-la nascendo, ela nasceu a 12h13min de 16 de fevereiro de 2014, pesando 2,735 kg. Minha pequena veio direto para meus braços, ficou comigo coladinha em meu corpo, não chorou assim que nasceu só chorou um ou dois minutos depois, ficou comigo enquanto o cordão ainda estava pulsando. Tentei que ela mamasse, mas naquele momento ela não quis, então assim que o cordão parou de pulsar meu marido cortou o cordão e ela saiu de meus braços para que pudesse ser examinada e pesada, logo que tomou seu banhinho e vestiu a roupinha já não chorava mais. Durante o tempo em que ela estava sendo examinada a placenta nasceu. Não tive laceração do períneo e nem corte, claro, pois não havia necessidade. Tomei um banho e me vesti; eu, minha pequena e meu marido já podíamos ir para o quarto ficar juntinhos novamente.

​Todo o cuidado que tive e toda a atenção são impagáveis, elas fizeram com que meu sonho tornasse realidade. Passar por tudo isso para mim foi uma experiência muito transformadora, eu amei tanto que quero demais ser doula quero ter a oportunidade de ajudar outras mulheres a passarem por esse momento tão lindo e maravilhoso. Pois todas nós somos capazes, nosso corpo foi feito para isso, nosso corpo está preparado para esse momento”.

Jéssica Rosa Coutinho (SP), mãe da Laura, de dois anos e nove meses.

*As casas de parto Centro de Parto Normal Mansão do Caminho, na Bahia, Casa de Parto David Capistrano Filho, no Rio de Janeiro, e o Centro de Parto Normal Agacil de Almeida Camurça, do Hospital da Mulher e da Criança Eneida Soares, no Ceará, não responderam as perguntas do taofe até o fechamento desse texto.

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