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Áurea Carolina é negra, jovem e a vereadora mais votada de BH

by Redação taofeminino Published on 30 de março de 2017

Sobre os primeiros meses de mandato: "O jogo não é feito pra nós, não é feito por nós, não é feito pra que a gente permaneça nele." Por Mirela Mazzola

Aos 32 anos, a cientista política e educadora popular Áurea Carolina de Freitas e Silva conseguiu um feito e tanto: ser eleita a vereadora mais bem votada de Belo Horizonte (MG), com 17.420 votos, maior número para um só candidato nas últimas três eleições. Formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com especialização em Gênero e Igualdade pela Universidade Autônoma de Barcelona, ela começou a descobrir a política ao se engajar no movimento hip hop e cantar rap. Jovem, negra e de esquerda, Áurea foi ainda a primeira vereadora a levar o PSOL a ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores. Suas lutas permeiam a participação popular, a representatividade de mulheres, minorias étnico-raciais e comunidade LGBT e o apoio a movimentos populares e da periferia. Conversamos com ela sobre os primeiros meses de mandato e os projetos em andamento. Quer conhecê-la melhor? Então dá uma olhada.

Qual foi seu primeiro contato com a política? Quando descobriu que esse era o seu meio de promover mudanças sociais?

Minha primeira experiência foi no movimento hip hop. Em 2002, comecei como cantora de rap no grupo Dejavuh. No ano seguinte, já estava em Recife, participando da Bienal da UNE, mesmo ano que participei da organização do “Espaço de Referência da Cultura Hip Hop”, no Fórum Social Brasileiro, e da criação do Coletivo Hip Hop Chama, articulado por jovens da Grande BH. A possibilidade de vivenciar, por meio do hip hop, o encontro das questões juvenis, das culturas periféricas, de gênero e étnico-raciais foi determinante para minha formação sociopolítica. A descoberta da vocação política não aconteceu em um momento que possa ser determinado, mas foi fruto de um processo de envolvimento com as lutas da cidade desde cedo e da constatação de que a política é extremamente importante para concretizar as transformações que desejamos.

Considerando esses primeiros meses de mandato, como a prática está se mostrando em relação às suas expectativas antes de ser eleita?

Nós sabíamos que seria difícil, mas apenas o cotidiano da política institucional nos dá a dimensão do quanto é exaustivo, masculino, machista e racista. O jogo não é feito pra nós, não é feito por nós, não é feito pra que a gente permaneça nele. Cada vez isso fica mais evidente. Por outro lado, estamos — eu, Cida Falabella e Bella Gonçalves, com quem estou em um mandato compartilhado — muito apoiadas, e essa foi uma expectativa que se tornou realidade. A cidade está vindo, está chegando e ocupando o mandato, as ativistas e os movimentos nos dão força, subsídio e legitimidade para seguir nessa construção que só será possível se for coletiva e aberta.

Se pudesse deixar um legado do seu mandato, qual seria?

Estamos ousando fazer um mandato progressista — feminista, antirracista, de esquerda — no contexto de um golpe de Estado, de avanço sobre direitos conquistados, de crescimento do ódio. Queremos contribuir com o fortalecimento da resistência popular em Belo Horizonte e trazer as pessoas para dentro desse espaço de poder, que lhes pertence, por meio da radicalização da democracia e da participação popular real. Não é algo fácil de ser mensurado mas, sem dúvida, é o que mais nos move.

Qual é sua posição em relação à medidas que marginalizam a cultura urbana, como a da Prefeitura de São Paulo ao apagar grafites? Tem medo de que isso chegue a BH e a outras cidades do país?

Acredito que são medidas que visam criminalizar a juventude negra e periférica, gentrificar e higienizar as cidades. Visam impor um único entendimento ético e estético a todos e fazem parte de um projeto mais amplo e complexo de marginalização e exclusão. Em Belo Horizonte, esse é um risco real. O Judiciário vem enquadrando pixadores em formação de quadrilha e jovens que, pela lei, cometeram contravenção, mas estão recebendo penas de até oito anos de reclusão. O Ministério Público e projetos da Câmara Municipal têm buscado a condenação de pixadores enquanto é condescendente com os responsáveis pela destruição do Rio Doce, por exemplo.

Leia a entrevista com as artistas Nina Pandolfo e Criola, entre as mais lembradas do país quando o assunto é grafite.

Quais são seus projetos prioritários hoje?

O fomento dos Grupos Fortalecedores e dos Laboratórios Populares de Leis (LabPop), oficinas temáticas para qualificar a atuação parlamentar das vereadoras tanto na incidência sobre projetos de lei em tramitação quanto na proposição de novos projetos. Nesses encontros são convidados colaboradores com atuação em diversas causas e movimentos. Já os Grupos Fortalecedores são espaços temáticos de reflexão sobre pautas e demandas urgentes da cidade. Esses grupos serão abertos a quaisquer interessados, sobretudo ativistas de movimentos sociais, estudiosas e trabalhadoras especializadas. O desejo é que os trabalhos desenvolvidos nos Grupos Fortalecedores evoluam para propostas legislativas.

Como você gostaria de inspirar outras mulheres a buscar participação política (mesmo em cargos não governamentais, como grêmios, associações, etc.)?

Estarmos aqui e fazermos um trabalho sério, comprometido com as demandas concretas das pessoas, é o maior incentivo que podemos dar. A minha entrada na política institucional vem na esteira de uma busca por representatividade. Eu fui me convencendo de que poderia me candidatar, fui entendendo que tinha uma contribuição real a dar e que tinha que ser gente como eu. A gente tem o hábito de dizer que precisamos de mais mulheres na política, mais negras e periféricas, mas quem será essa figura se não nós mesmas? Minha decisão foi uma resposta a uma chamada de responsabilidade. Não adianta falar que tem que ter, a gente precisa se colocar nesse lugar.

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Do seu ponto de vista, quais são as maiores dificuldades que os cargos legislativos enfrentam na atual crise institucional do país?

A crise política apresenta enormes desafios, como o de conduzir uma agenda progressista nesse contexto. Apesar de termos a possibilidade de tentar colocar em pauta, a partir da descrença na forma como a política vem sendo conduzida, que uma outra política é possível, a “anti-política” vem ganhando uma força assustadora, como resultado de uma situação real — o mau uso dos cargos públicos. A quem interessa que mulheres, pessoas negras, indígenas, pessoas LGBTIQs, trabalhadoras e trabalhadores estejam distantes dos espaços de poder? Essa é uma pergunta que sempre temos que fazer.

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