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Relatos de violência obstétrica: saiba o que é para se proteger

Publicado por Redação taofeminino
em 16 de março de 2017

Gritar, xingar, amarrar, ironizar e desrespeitar a mulher em sua autonomia e sua integridade física e mental, suas escolhas ou suas preferências, é violência obstétrica. Além de ter uma vertente que expõe a mulher de muitas maneiras, é sutil, minando aos poucos a mulher que está se tornando mãe. Por Juliana Couto

“Na hora de fazer, você gostou, né?”, “Se você continuar com essa frescura, eu não vou te atender”, “Na hora de fazer, você não tava gritando desse jeito, né?”, são frases comuns que as parturientes escutam durante o trabalho de parto. Ora explícita, ora sutil, a violência obstétrica atinge todas as classes sociais, mas são as mulheres com menos privilégios que sofrem mais com abuso não só psicológico, mas sexual e físico - durante o trabalho de parto, principalmente. No Brasil, uma em cada quatro mulheres sofre violência durante a gestação ou parto segundo a pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado, feita pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o SESC. Entre as principais agressões apontadas pela pesquisa estão o exame de toque de forma dolorosa, negar algum tipo de alívio para sua dor, gritar com a mulher, não informá-la de algum procedimento que está sendo feito em seu corpo e amarrar a mulher tirando sua autonomia.

O cenário da obstetrícia brasileira está mudando, porém, desde 2015, quando a taxa caiu 1,5 pontos percentuais. Dos 3 milhões de partos realizados no Brasil naquele ano, 55,5% foram cesáreas e 44,5%, partos normais. Ao analisar apenas o Sistema Único de Saúde (SUS), a porcentagem de partos normais é maior, sendo 59,8% e 40,2% de cesarianas. Em 2017, de acordo com dados preliminares, a tendência de estabilização se mantém com o mesmo índice de 55,5%, ou sejam pela primeira vez, desde 2010, o número de cesáreas não cresceu no Brasil tanto na rede pública quanto na privada, país referência no nascimento via cesárea agendada. O Ministério da Saúde reafirmou o compromisso de reduzir as altas taxas de intervenções desnecessárias como a episiotomia (corte no períneo), o uso de ocitocina (hormônio que acelera o parto), a cesariana e a aspiração das vias aéreas do bebê.

Os registros se complementam com as novas diretrizes de assistência ao parto normal no Brasil, divulgadas pelo Ministério da Saúde e já preconizadas pelo movimento de humanização do parto no Brasil, promovido principalmente por instituições como a ReHuNa, organização em vigor desde 1993, e pela Parto do Princípio, formada essencialmente por mulheres que lutam pelos direitos de todas as mulheres. Entre as premissas das novas diretrizes estão elaboração de plano de parto, escolha de como, onde e de que forma as mulheres desejam parir, direito de escolher a posição para parir, dieta livre (adeus jejum obrigatório), acompanhamento de doulas, acesso a medidas alternativas para amenizar a dor, além de reconhecer os centros de parto normal, ou casas de parto, como locais seguros para partos de baixo risco. Em 2015, o Ministério da Saúde, em parceria com a Agência Nacional de Saúde, criou novas regras para incentivar o parto normal na rede privada, em que a taxa de cesárea chega a 84%. Em 2016, lançou um documento para incentivar o parto normal, intitulado Protocolo Clínico de Diretrizes Terapêuticas para Cesariana, publicado no Diário Oficial. Esse conjunto de medidas e de novas diretrizes é um avanço no cenário obstétrico brasileiro e vai contribuir para a autonomia da mulher e para a redução de cesáreas eletivas. No entanto, a violência obstétrica é institucionalizada no Brasil. O caminho entre a real implementação de tais medidas e o fim da violência obstétrica está distante. Por isso, ler sobre relatos de violência obstétrica, compartilhar com outras gestantes e se informar ao longo da gestação é essencial para que a parturiente garanta sua autonomia durante sua gestação, trabalho de parto e pós-parto.

"Eu só queria que aquilo acabasse, que meu filho ficasse bem, e acabei aceitando"

“Inúmeros exames de toque. Ocitocina. Parto com uso de vácuo. Não tive poder sobre os exames de toque. Autorizei a ocitocina após oito centímetros de dilatação. E autorizei o vácuo pois estava exausta e o bebê em sofrimento. Eu tinha uma doula, queria parto normal, estávamos vendo a casa de parto. Mas Theodoro nasceu com 35 semanas. Me indicaram os hospitais Ipiranga e Vila Alpina como plano B, e eu optei pelo Vila Alpina, pois no Ipiranga eles não permitiam acompanhante homem no pós-parto. Mas tudo que aconteceu me deixou com problemas de saúde por quase quatro meses após o parto, meu filho ficou na UTI por 10 dias, tivemos inúmeros problemas com amamentação e até hoje eu não consigo ter uma vida sexual, porque tomei mais de 40 pontos por lacerações, que eu sei que poderiam ter sido evitadas se o atendimento tivesse sido outro desde quando dei entrada no hospital. E me culpo por ter deixado as coisas acontecerem como foram. Dei entrada no hospital com 35 semanas de gestação, bebê GIG, três centímetros de dilatação e bolsa rompida há uma hora. A enfermeira e médica da triagem foram supergrossas, fizeram toque sem avisar, e me trataram como se a culpa de meu filho estar nascendo prematuro fosse minha. A médica não quis me ouvir quando eu disse que já havia feito o exame do cotonete e que o resultado tinha dado negativo, mas eu não tinha o papel comigo, só na internet. Por isso resolveu que eu precisava de duas doses de antibiótico, e que o bebê não podia nascer nesse intervalo de seis horas entre uma e outra. Me colocaram em um quarto com meu marido, onde passei das 1h30 às 7h30 da manhã sem poder levantar da cama, sem auxílio de nenhuma enfermeira, e duas das vezes que levantei para ir ao banheiro e em que precisei ficar de cócoras para aliviar as dores, tomei bronca da enfermeira que entrou no quarto, me dizendo que meu bebê não podia nascer, que eu era irresponsável e que devia voltar para cama. Nesse período, mesmo o bebê não podendo nascer, uma enfermeira entrou querendo aplicar o sorinho, que eu recusei. Por volta de 8h, após a troca de plantão, permitiram que minha mãe entrasse no quarto (trocando com meu marido), e me autorizaram a fazer exercícios, no entanto eu estava exausta, quase desmaiando, implorando por uma anestesia. Uma das enfermeiras disse em tom de deboche, que lá era parto humanizado, que não tinha anestesia, se eu não sabia disso. Minha mãe convenceu a médica a administrar um calmante para a dor e me convenceu a aceitar a ocitocina, e com isso consegui começar a fazer força. Foi quando a obstetriz percebeu que o meu bebê estava lateralizado. Então passei mais três horas fazendo força para que ela pudesse girar o meu filho e encaixar na posição correta para o expulsivo. Por volta de 12h30, a equipe médica entrou e me disseram que o meu filho estava em sofrimento e que eles iam puxar com o vácuo. Eu só queria que aquilo acabasse, que meu filho ficasse bem, e acabei aceitando. Só consegui recusar a episiotomia, o que não impediu que eu sofresse lacerações que resultaram em uma hemorragia, o que me fez rebaixar na sala de parto e ir pra UTI por três dias, pois também tive uma infecção uterina. Meu filho nasceu com Apgar 4 no primeiro minuto. Cortaram o cordão e levaram ele para examinar e para todos os procedimentos hospitalares padrão. Implorei para que me deixassem pegar ele e colocaram ele no meu colo por menos de 30 segundos. Depois disso levaram ele pra UTI e a pediatra veio conversar comigo sobre o leite, infelizmente como acabei indo pra UTI, entraram com fórmula e antibióticos para ele. Nenhuma intervenção feita nele foi perguntada ou explicada. A única coisa que a pediatra perguntou se poderia era dar fórmula para ele, no entanto eu não pude negar, diante da minha condição clínica. Devido a infecção que eu tive, resultante do longo parto e de tudo que aconteceu, meu filho precisou colocar um pique na cabeça para administração de antibióticos, para isso uma parte do cabelo dele foi raspada. E para mim, se o parto tivesse sido mais tranquilo, ele com certeza não precisaria ter ficado na UTI e não teria sido privado de contato comigo e colo desde que nasceu”.
Alba de Souza Wodianer Marcondes (SP), 30, mãe de Theodoro, de dez meses.

"Chorei, chorei muito, porque me senti incapaz"

“A busca pelo meu parto começou há mais de três anos, impossível relatar o que aconteceu entre os dias 28 e 29 de fevereiro de 2016 sem voltar um pouco no tempo, na gravidez e nascimento do Guilherme, em 2013. A cesárea salva vidas quando bem indicada. Caso contrário, mata três vezes mais e traz inúmeros riscos aos bebês, por isso sempre tive medo, era mais uma questão racional que emocional, a princípio. Mas eu não imaginava que era tão difícil parir no Brasil, não estava a par dos interesses da corporação médica e do lucro das cesáreas agendadas. Gravidez tranquila, sem intercorrências e quando completei 40 semanas ouvi: "só tem um centímetro de dilatação, se não entrou em TP (trabalho de parto) até agora, não entra mais. Além disso, seu bebê é muito grande, vou marcar a indução". Até ouvir que não entraria em TP, acreditava que meu corpo era perfeito e feito para parir. Indicação médica para tricotomia, soro, jejum (inclusive de água), ocitocina e a ordem de esperar. Ficamos no quarto e a cada tanto vinham me mandar deitar para medir batimentos cardíacos, contrações, pressão e mais exames de toque. Quase não sentia dor, mas a dilatação estava evoluindo. A médica chegou, estourou a bolsa, aumentou a ocitocina e as contrações começaram a incomodar. O bicho começou a pegar e meu marido chamou a médica, que disse que minhas contrações já eram de expulsivo e eu não tinha dilatação total então eu precisava de anestesia. Eu disse que não queria, ela disse que eu precisava pois não aguentaria. Implorei por uma dose pequena, queria continuar me movimentando. Chorei, chorei muito, porque me senti incapaz. Não fui respeitada e logo não consegui mais me movimentar, fiquei deitada esperando a dilatação chegar enquanto a médica mandava aumentar a ocitocina. Eu em posição de litotomia (posição ginecológica), médica me mandando fazer força e eu não sentindo nada. O tempo foi passando e ele não saía e eu não sentia vontade de fazer força, só fazia quando a médica mandava, mas nem sabia se estava fazendo força mesmo ou só a cara de força. O anestesista começou a empurrar minha barriga (fiquei com a marca dos dedos por mais de um mês), a médica assistente começou a dizer que era hora de desistir, a pediatra fez coro com ela, estava atrasando suas cesáreas agendadas. A médica que me atendia alocou dois tipos de fórceps, o que também não funcionou. Guilherme descia nas contrações e subia quando passava e nasceu com pequenos cortes na cabeça devido a isso. Mesmo sem motivo, trataram como cesárea de urgência, não me vestiram e me levaram ao centro cirúrgico numa maca, atropelando médicos e enfermeiros que estavam no caminho, chamando atenção de pacientes e curiosos. No trajeto lembraram de jogar um pano para me cobrir. Chorei inconsolavelmente. Amarraram meus braços e tive que lidar com a reação da anestesia, passei a cirurgia com coceiras incontroláveis e vomitando. Guilherme chegou ao mundo de forma cruel: luz forte na cara, sala fria, não teve seu tempo respeitado, não recebeu todo seu sangue (o cordão umbilical foi cortado em seguida), não teve seu direito a hora de ouro (primeira hora de vida) respeitada, não mamou nessa hora, não sentiu o calor do colo da mamãe. Ao contrário, foi para o berçário onde foi apertado, aspirado, teve colírio de nitrato ardido no olho, chorou, chorou muito e não pudemos aconchegar nosso bebê. Naquela hora, eu já sabia que tudo estava errado, ninguém merece chegar ao mundo desta forma. Minha primeira pergunta na consulta pós-parto foi: "Se eu engravidar de novo, posso ter parto normal?" Queríamos um irmão para o Guilherme, mas eu não conseguia me imaginar vivendo tudo isso novamente, menos ainda ver mais um filho meu chegando ao mundo dessa forma. A resposta foi que sim, se fosse após dois anos do nascimento do Gui. E esse virou nosso plano.

Em 2015, descobrimos com seis semanas que a gravidez era gemelar, marido ria e eu chorava. Tive medo, medo da prematuridade, medo de novamente não poder parir, medo de cuidar de dois RNs, de amamentar três, pois Guilherme ainda mamava. Fomos nos preparando de todas as formas possíveis: muita conversa com o médico (humanizado), com a EO (enfermeira obstetra), doula, cursos e grupos de gestantes, li tudo que me foi indicado, fiz yoga, tentei meditar, exercícios. Quando completamos 37 semanas, comemoramos ter ultrapassado a barreira da prematuridade, mas junto com a felicidade veio uma paranoia de que não entraria em trabalho de parto. Equipe tentando me acalmar e eu alternando momentos de muita alegria com momentos de medo. Com 38 semanas, senti uma contração, fiquei feliz, comemorei, contei pra doula por mensagem e disse que não iria me animar muito, sentia que estava longe ainda. Tentei me ajeitar no sofá para ganhar uma massagem, mas não achei posição, senti dor de barriga e corri para o banheiro. Sai do banheiro, tentei outra posição e a dor voltou, fui para o banheiro de novo e entrei no chuveiro, percebi que eram contrações, tentava sair do banho, mas a dor logo voltava. Em uma das idas e vindas do banheiro, minha bolsa estourou com mecônio, muito. Voltei ao banho e desabei, tentava achar em meu arquivo mental de mecônio era indicação real de cesárea e nada, não vinha nada, não conseguia lembrar, só chorava e perguntava para minha mãe: por que de novo? Na maternidade, passei horas e horas na bola de pilates, embaixo do chuveiro, único lugar que me parecia possível ficar era debaixo d’água. A dor insuportável era no ciático, pela posição de meu primeiro bebê. As horas foram passando e dilatação evoluindo, até que por volta das 7h da manhã estava com dilatação total, mas praticamente sem contrações e com muita dor. Pela primeira vez falamos seriamente na possibilidade de cesárea. Então optamos por ocitocina sintética e anestesia. Continuei na bola até o anestesista chegar. Estava com muito medo por causa do que tinha passado no nascimento do Guilherme, novamente implorei para não perder meus movimentos e dessa vez fui atendida. Deitei após a anestesia e consegui descansar, até conversar sobre política e feminismo com a equipe. O obstetra ligou para a pediatra para que ela viesse, pois já estava perto de nascer. Nessa hora entendi que estava na hora, que eu não podia desistir. Perguntei se poderia levantar, a doula me ajudou, eu estava bem, com movimentos normais, apenas um leve formigamento. Senti vontade de fazer força, mas ainda sob o efeito da anestesia não conseguia ter certeza. Disse pra doula que estava com vontade de fazer coco e junto veio uma sensação diferente, coloquei a mão e assustei, disse que havia algo estranho ali. Estava nascendo. Lara ficou no meu colo mamando ainda conectada ao cordão por volta de 40 minutos, ficamos nos reconhecendo, nos sentindo, foi indescritível, a meia luz, tudo quieto, nosso tempo sendo respeitado. Levantei da cama e saiu um pouco de líquido, logo depois a bolsa estourou por completo, eu já estava achando que viria empelicado. Líquido transparente dessa vez. As contrações vindo cada vez mais forte, eu com medo, não estava conseguindo me entregar. De cócoras, senti uma incontrolável vontade de fazer força, primeiro tentei segurar, mas foi impossível e me entreguei, deixei meu corpo agir e foi a sensação mais prazerosa que poderia haver. Olhei para o médico e falei: "está nascendo e eu não consigo sair daqui". Ele deitou no chão, sem tempo nem de colocar as luvas e aparou meu bebê. Maternidade sem berçário, bebês e mamães sempre juntos, nada de levar para fazer exame, para dormir, para banho. Nada de passarem por práticas dolorosas só por rotina. Os gêmeos nasceram com toda segurança, com o respeito que todo bebê merece, com as boas práticas que recomendam os órgãos de saúde, puderam receber e sentir todo o nosso amor. E eu renasci como mãe e mulher, me descobri forte, leoa! O parto foi muito diferente do que planejei e muito melhor do que sonhei. Não imaginava que poderia ser tão lindo e respeitoso esse momento”.
Nathalia Anconi Leishman (RS), mãe de Guilherme, três anos, e dos gêmeos Lara e Gael, de um ano.

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Puerpério: a reconstrução da identidade da mulher
Depressão pós-parto: como lidar consigo mesma e com o choque de realidade da maternidade

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