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Eu, mãe: “Sofri dois abortos, mas consegui engravidar”

por Redação taofeminino Publicado em 10 de fevereiro de 2016

Audrey relata como foi passar por perdas, médicos e muitos países até voltar para o Brasil e realizar o sonho de ser mãe. Depoimento a Juliana Couto

“Eu sou do interior do estado de São Paulo. Desde sempre, tive vontade ter filhos. A única coisa que nunca mudou com os anos foi esse desejo ardente de ser mãe. Comecei a ter problemas de cólicas e excesso de sangramento aos 13 anos. Meus pais me levaram ao hospital e nada de descobrirem o que era. Aos 17 anos, chegou ao extremo, fiquei sangrando por mais de 30 dias e então fizeram um procedimento médico (curetagem) para parar o sangramento. Quando eu tinha 18 anos, fui diagnosticada com Síndrome de Ovário Policístico e me prescreveram pílulas. Não pude tomar as pílulas por muito tempo, porque eu ficava com muita dor de cabeça e não rolava me sentir mal o tempo todo, então eu parei de tomar. Basicamente, lutei com esses problemas a vida toda, aos 25 anos já morava nos EUA quando o meu médico indicou que eu congelasse meus óvulos caso pensasse em ter filhos no futuro. Iniciei o tratamento em Los Angeles (LA) e, quando estava para começar a tomar injeções, tive uma crise renal muito forte e abandonei a ideia. Aos 30 anos, já morando no Japão, eu conheci o meu ex-marido e pai do meu filho. Ele é australiano, me mudei para a Austrália e nos casamos.

Depois de dois meses amanheci com muita hemorragia, fui ao médico e tinha sofrido um aborto espontâneo de um bebê que eu nem sabia que existia – foi muito triste, pois nem tive a chance de sentir a felicidade de saber que estava grávida ainda que por alguns dias ou horas. Nessa época saiu uma reportagem, no Brasil, de um chá de várias ervas. Tomei o chá por uns 10 meses e então descobri que estava grávida novamente. Felicidade geral, muita ansiedade, enjoo, azia, tontura, infecção de urina, peito doendo e muita, muita felicidade! Ao acordar uma manhã, eu me senti estranha, pois meus seios doíam muito, e naquela manhã eu não sentia nada, nem enjoo, nem azia, tontura ou qualquer outra coisa. Liguei para o médico e ele me mandou ir para o hospital imediatamente. Cheguei lá e me levaram para fazer ultrassom. Não havia mais batimento cardíaco. Havia perdido outro bebê.

A gestação estava em 15-16 semanas...

...E foi um sofrimento sem igual. Tive que fazer curetagem e encontrar uma maneira de sobreviver à horrível depressão que seguiu por meses e anos. Os médicos ridicularizaram o meu choro quando eu estava para entrar no centro cirúrgico, perguntaram a razão do meu choro e ainda desdenharam dizendo que aquilo era normal e que havia coisa bem mais importante que perder um ser que nem existiu – fui violentada no meu coração, no meu sonho, na minha alma! Cerca de três meses depois, eu quase morri de infecção, devido a tecidos do feto que ficaram no meu organismo. Fiz outro procedimento, via laparoscopia, e então descobriram que tenho endometriose. Fiquei tão mal que nem quis saber de nada por uns anos.

Passados três anos sem engravidar novamente, fui a uma clínica de fertilidade e iniciei uma indução de fertilização, tomei as injeções duas vezes por dia durante uma quinzena, ovulei e o esperma foi inserido no meu ovário, mas nada aconteceu! Nesse procedimento eu tinha três óvulos maduros, mas a fecundação não ocorreu. Depois de um mês com mais remédios e injeções que resultaram em nada, nenhum óvulo! Partimos para fertilização In Vitro: loucura total de hormônios injetáveis, orais e nasais, que resultaram somente em desgaste emocional, físico e financeiro. Resolvi parar com tudo e retomar o meu sonho de adotar. Como na Austrália praticamente não há crianças para adoção, pois o aborto é liberado, então comecei a pensar em países na Europa que tivessem crianças para adoção. Corri atrás e quase caí dura com o valor do processo, o meu dinheiro não dava! Meu casamento já estava mal por inúmeras razões e resolvi voltar para o Brasil depois de 16 anos morando no exterior.

Meu ex achou que essa mudança seria a resposta para os problemas que enfrentávamos. A minha família sabia que eu tinha um grande desejo de ter filhos e já tinham visto um advogado para me ajudar num possível processo de adoção. Na semana em que chegamos ao Brasil, numa reuniãozinha na casa da minha prima, eu conversei com a cunhada dessa minha prima sobre a minha vontade de adotar. Ela então falou para eu comer ovo, pois ela mesma tinha engravidado depois que foi numa médica homeopata, que a colocou numa dieta de ovo (a justificativa da médica era: gema é o quê? Vida... Coma vida, coma ovo!). Eu gosto de ovo e não foi nenhum sacrifício, acordei na manhã seguinte e já comecei a atacar os ovos. Comia muitos ovos por dia e fui levando a vida de readaptação no Brasil. Mais ou menos 40 dias depois, eu estava numa festa com a mesma turma e eu e a minha prima começamos a conversar sobre período fértil, ela fez as contas e eu estava no auge da fertilidade naquela noite. Depois de duas semanas, comecei a me sentir mal e descobri que naquela noite da festa nós fizemos o Daniel. Tive uma gravidez muito assistida e até mimada.

O meu médico e a sua equipe foram verdadeiros anjos durante a minha gravidez, parto e pós-parto. Tive que tomar hormônios para ajudar a segurar a gestação e também para que o bebê recebesse os alimentos necessários – o meu corpo tem uma deficiência hormonal que faz com que o feto não se desenvolva por falta de alimento. O meu filho nasceu com 36 semanas de gestação, um bebezão com quase 4kg e perfeito, perfeito e lindo. Deus não poderia ter sido mais generoso comigo. Hoje ele tem seis anos e já está alfabetizado e sonhando em fazer um cruzeiro num navio para crianças!”

Audrey Florêncio Pereira (SP), 43, mãe do Daniel, 6. Comanda o Projeto Mamãe Ursa, promovendo cursos e consultorias para famílias e escolas sobre a educação infantil e desenvolvimento saudável das crianças. Foto: Arquivo pessoal.

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