Home / Maternidade / Gravidez / A gravidez e a maternidade realmente afetam a memória?

Maternidade

A gravidez e a maternidade realmente afetam a memória?

by Geovana Pereira Published on 22 de julho de 2016

Você já deve ter ouvido falar que a maternidade deixa as mulheres mais avoadas, com raciocínio lento e memória ruim. Mas será que isso é mesmo verdade?

O pregnancy brain e o baby brain consistem em alterações na memória e em outras habilidades cognitivas durante a gravidez e o pós-parto. Quatro entre cinco grávidas e mães recém-paridas alegam sofrerem com o fenômeno. A maternidade não muda apenas a sua rotina, mas seu cérebro também, daí a expressão “cérebro de grávida”. Dentre os estudos sobre a causas da confusão mental, estão os que defendem a desatenção como um sintoma de gravidez; e os que não encontram diferença alguma ao comparar testes de memória aplicados em grávidas e não grávidas. Mas, afinal, o esquecimento na gravidez é normal?

Por que isso supostamente acontece?

Por causa das mudanças hormonais, claro. De acordo com a neurocirurgiã pediátrica Raquel Rodrigues Zorzi, os hormônios são substâncias químicas responsáveis por executar uma determinada função fisiológica específica no organismo. A gravidez causa uma reviravolta hormonal no corpo da mulher: hormônios como estrogênio e progesterona estão em concentração de 15 a 40 vezes maior no sangue e consequentemente também influenciam o funcionamento do cérebro.

Em um estudo de neurocientistas da Universidade de Brigham Young, nos EUA, publicado em 2014, três grupos de mulheres passaram por testes cognitivos: grávidas no terceiro trimestre, novas mães após três meses do nascimento do bebê e mães após seis meses do nascimento. Eles compararam os resultados com os de mulheres que nunca estiveram grávidas e não encontraram nenhuma diferença entre os três grupos em termos de memória, pensamento e capacidade de organização. Assim, a pesquisa concluiu que não existe baby brain e é tudo coisa da nossa cabeça. Será?

O que o estudo trouxe à tona é que as mulheres grávidas e novas mães acreditavam que tinham resultados piores do que realmente tinham. Isso tudo é muito interessante porque foram testadas apenas 21 mulheres grávidas e 21 mulheres não grávidas, o que é, portanto, uma amostra muito pequena. Segundo os fóruns dos sites de maternidade, muitas novas mães têm experiências que contradizem essa conclusão. Gabriela Araújo (SP), 22 anos, mãe do Daniel, 2, e do Samuel de apenas dois meses, conta que uma vez, ao chegar em casa, tirou tudo de dentro da bolsa, mas, em um gesto automático, guardou o celular na bolsa novamente. Logo depois, Gabriela revirou tudo procurando o aparelho até finalmente lembrar que o tinha colocado na bolsa. A nova mamãe ainda diz que ultimamente esses lapsos de memória têm sido corriqueiros. Antes da primeira gravidez, ela até sabia números de telefone e datas de cor, mas não tem mais essa facilidade. Então, se o baby brain não existe, por que novas mães tentam escovar os dentes com gel de barbear, fechar a porta pressionando o botão da garagem ou perdem o telefone várias vezes ao dia?

Seria apenas a privação de sono?

Talvez não seja um fenômeno científico, mas algo que acontece como resultado de privação extrema de sono. Após várias noites mal dormidas não é nenhuma surpresa que seu cérebro pareça girar e você se encontre fazendo as coisas mais estranhas. “O baby brain não está bem elucidado quanto a suas verdadeiras causas. A perda de memória e o cansaço podem estar muito associados às emoções e às alterações físicas pelas quais a grávida passa. A falta de sono afeta e muito o equilíbrio do nosso organismo”, explica a ginecologista e obstetra Juliana Amato.

A partir do momento em que as mães são arrancadas da sua rotina de sono, elas se concentram imediatamente nas necessidades do bebê e passam para o automático tudo o que não diz respeito ao filho(a). Funciona como os hábitos matinais: levantar, lavar o rosto, escovar os dentes. Exceto que os pilotos automáticos são cansados e confusos. Raquel acrescenta: “estudos sugerem que a combinação do excesso de hormônios com a redução do tempo e qualidade do sono (comuns no 1º e 3º trimestre de gravidez e no pós-parto) fazem com que a grávida se sinta mais cansada e com mais dificuldade de ter atenção nas coisas. Como a memória depende muito da atenção, ela acaba prejudicada, por isso as queixas de pensamento ‘lento’ e esquecimento aparecem principalmente na memória de curto prazo, aquela que faz você lembrar onde deixou suas chaves ou sua bolsa. ”

Os cérebros das mães estão constantemente produzindo uma série de novos pensamentos. Há pouco espaço sobrando para relaxamento e foco. Elas não acordam revigoradas depois de uma boa noite de sono. Em vez disso, têm uma cabeça cheia de pensamentos novos, desde o momento em que os olhos abrem. "Que horas são? Será que eu realmente consegui dormir na noite passada? Oh, não, as fraldas estão acabando, tenho que lembrar de comprar algumas. Que horas eu marquei a consulta médica? Onde foi que eu coloquei aquele livro? Onde está a vitamina? ” Esses são alguns exemplos nos quais as mães pensam nos primeiros momentos do dia. Dessa forma, não é surpreendente que as mentes fiquem menos focadas em todas as pequenas tarefas cotidianas.

Levantem as mãos as mães que já foram para um cômodo e ficaram lá, paradas, pensando “o que eu vim fazer aqui?”. Segundo Raquel Zoezi, outra explicação para essa perda de memória recente vem de uma teoria na qual os movimentos do bebê, mesmo quando ainda não são sentidos pela mulher, geram uma “reação” cerebral. Como isso funcionaria? A ideia é que o cérebro da mulher passaria por uma mudança de foco, com uma alteração no funcionamento químico e estrutural desencadeada pelos hormônios e movimentos fetais. Isso permite que o cérebro desenvolva algumas habilidades essenciais para a vida da futura mamãe: maior sensibilidade, aumento da percepção, foco nas necessidades do bebê, sono mais leve, entre outras.

Baby brain existe ou não?

Os estudos sobre o assunto são antigos e divergentes, portanto, essa pergunta não pode ser respondida com precisão. Se você perguntar para uma mãe, provavelmente vai ouvir que ela se tornou mais esquecida depois de ter um bebê. Por volta dos quatro meses de gestação, Erica Camargo (SP), 26, começou a se sentir mais “avoada”. Mãe do Nicolas, de sete meses, ela conta que logo depois de comprar um copinho para seu filho, colocou-o para ferver e seguiu a sua rotina. “Fui para a sala com meu bebê no colo, brinquei por um bom tempo com ele, dei banho, coloquei para dormir e fui para a sala assistir um pouco de TV. À essa altura eu já tinha sentido cheiro de queimado, mas pensei que era no vizinho. Quando lembrei do copo dei um pulo do sofá. Ele estava completamente derretido. ”

E quanto tempo o “raciocínio lento” dura? “Não existe um tempo preciso para a duração do baby brain, na verdade acredita-se que ele começa na gravidez com o pregnancy brain, famoso cérebro de grávida. A duração varia em cada mulher, pois deve-se levar em consideração o tempo que ela leva para adaptar-se à nova rotina, reduzir seu nível de estresse e voltar à normalidade hormonal e física. Sabemos, no entanto, que a fase mais ‘turbulenta’ do ponto de vista hormonal e estresse pós-parto corresponde ao puerpério, período que vai do nascimento do bebê até seis e oito semanas após o parto. Espera-se que após esse período a mulher possa notar alguma melhora”, finaliza a neurocirurgiã.

Reação fisiológica hormonal ou social, devido ao cansaço, a mulher, tanto grávida quanto recém-mãe, não vai escapar da transformação do corpo e da rotina – e, infelizmente, da privação de sono. Essas transformações, incluindo a do cérebro, são parte da maternidade. Continuar esquecendo do celular, de compromissos ou onde guardou alguns objetos não é um grande problema se você está se preparando para dar à luz ou para cuidar de um bebê fofo. Mas, se cuide – a privação extrema de sono e o cansaço excessivo podem prejudicar essa nova rotina e, por isso, é importante que, desde a gestação, você tenha a seu redor a rede de apoio. Companheiro(a), família e amigos, esse é trabalho de vocês .

Texto escrito por @compergeovana e editado por @gabrielamori

Leia mais:

by Geovana Pereira