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Maternidade

Depressão pós-parto: como lidar consigo mesma e com o choque de realidade da maternidade

by Redação taofeminino Published on 10 de fevereiro de 2017

A depressão pós-parto atinge mais de 25% das mães brasileiras. Muito além de questões hormonais e fisiológicas do processo da recém-maternidade, está relacionada com a própria história da mulher e o desdobramento da maternidade durante o puerpério. Por Juliana Couto

Não sentir nenhum tipo de carinho pelo bebê, não sentir que o bebê é seu filho, não saber que o puerpério é um trem desgovernado, sentir pânico ao cuidar do bebê, sentir medo de machucá-lo, sentir-se completamente só, com melancolia e tristeza profunda, ter reações como palpitação e taquicardia, sentir pânico ao sair na rua, ansiedade extrema, sentir uma solidão absoluta, não superar a violência obstétrica, sentir que o parto foi violentamente roubado, não parar de chorar, sentir dor na alma, olhar-se no espelho e não se reconhecer - e ainda ser cobrada de estar feliz porque se tornou mãe ou ser qualificada como ingrata por não estar feliz como mãe. A depressão pós-parto atinge uma em cada quatro mulheres brasileiras entre os seis e os 18 meses de vida do bebê, de acordo com o estudo Factors associated with postpartum depressive symptomatology in Brazil: The Birth in Brazil National Research Study, realizado pela pesquisadora Mariza Theme, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) - desenvolvido no âmbito da pesquisa Nascer no Brasil. O que significa pensar que 26,3% das mulheres recém-mães brasileiras passam por uma, algumas ou todas as sensações supracitadas – relatadas (e vividas) por quatro mães que sofreram com a depressão pós-parto.

Para entender a depressão pós-parto é preciso compreender o puerpério. Período caracterizado por mudanças corporais, hormonais e na rotina, o puerpério é o período da reconstrução da identidade da mulher que se tornou mãe. É nesse período que essa mulher está conhecendo seu filho, criando uma rotina de cuidados, aprendendo a cuidar dele, aprendendo e estabelecendo a amamentação. Como cada mulher é única, o tempo que cada mulher leva para atravessar essa fase é único e diferente. Por definição, o puerpério é compreendido como o período da quarentena, os 40 dias após o parto, e é comum que se estenda de seis a oito semanas após o parto. É superficial se prender ao tempo preestabelecido, seja pela família, seja pela orientação médica, e compreender que o desmembramento do puerpério pode durar dias, horas ou semanas.

É esperado que a mulher se transforme em outra no pós-parto. O puerpério é a reconstrução da identidade dessa mulher, que agora é mãe, e é necessário considerar que ao reconstruir a identidade, essa mulher revive toda a sua condição humana e sua história, o que Laura Gutman, em A Maternidade e o encontro com a própria sombra, define como a “sombra” da maternidade. Como explica Daniela Andretto (SP), psicóloga, doula e mestre em saúde materna e infantil, a mulher passa por uma grande transição hormonal e emocional, com sintomas como dificuldades para dormir bem, choro excessivo, inclusive por pequenas coisas, mudanças de humor repentinas, irritabilidade, sentimentos de inadequação, sente como se "não fosse mais ela mesma". E de fato não é mais a mesma coisa. O pós-parto é um período enorme de quebra de rotina e paradigmas, além da prontidão obrigatória às necessidades do bebê. E como complementa Cláudia Aquino (SP), 35, psicóloga e doula pós-parto, mãe de Maitê, de três anos, “merece atenção extra comportamentos tais como indisposição, tristeza profunda, desinteresse pelas atividades do dia a dia, incluindo os cuidados com o bebê. Quão crônicos estes sintomas irão se tornar é o que diferencia a depressão pós-parto do baby blues. E quanto ao que a mulher costuma sentir no pós-parto também deve-se considerar questões dos temas vínculos afetivos, em especial o que é revivido pela filha que se tornou mãe, imagem corporal e sexualidade”.

Segundo Daniela, a depressão pós-parto pode durar meses e até anos e por isso é essencial que a mulher busque ajuda. “Ela é caracterizada pela presença de humor deprimido ou anedonia (ausência ou perda de interesse nas atividades anteriormente consideradas agradáveis), associada a sintomas como alterações do sono (insônia ou excesso), extrema irritabilidade, alterações de peso ou do apetite, sensação de fadiga, agitação ou retardo psicomotor, podendo estarem presentes sentimentos de desvalia ou culpa, perda de concentração e ideias de morte ou suicídio”. Para Cláudia, é um desdobramento à medida que a rede de apoio para a mulher no pós-parto não é suficiente e, além de não ser suficiente, é nociva ao empoderamento dessa mulher, a ponto dela mesma se sentir incapaz de ser mãe. “Considero que o ambiente e o acolhimento à puérpera podem influenciar para que um período de baby blues seja superado ou que evolua para sintomas de depressão”.

Paula Matos (SP), 27, mãe de Gabriella, seis anos, e Rafael, três meses, imaginava o puerpério como nos comerciais, tudo muito calmo, sereno, bebê dormindo no berço e sorrindo o dia inteiro. “Eu nunca tinha visto a maternidade real. O meu primeiro puerpério foi difícil, pois me dediquei 100% a minha filha. Peito rachado, bebê high need, ela não dormia à noite nem de dia, eram cochilos de 40 minutos durante 24 horas. Eu era muito jovem, me sentia pressionada em mostrar o meu melhor. Quando olhava para minha bebê e não sentia nenhum tipo de carinho, não sentia que era minha filha, além de parecer 100% ao pai, eu me sentia amamentando uma criança que não era minha, e não sentia prazer em cuidar dela, o fazia pois sabia que seria julgada e o bebê poderia adoecer porque dependia de mim 100%. Não passei por nenhum acompanhamento por vergonha mesmo. Tive muita ajuda do marido. Com o tempo tudo foi melhorando, comecei a me entregar mais à maternidade, a aceitar que ela não iria dormir mesmo, que ela não se parecia fisicamente comigo, porém tinha todo o meu jeitinho, e com as demonstrações de carinho dela para comigo. Os banhos pele a pele também ajudaram muito. No meu segundo filho eu já sabia o que estava por vir, e estava com muito medo de passar por tudo de novo, porém foi um bebê muito desejado e planejado, então acabei lidando bem com a situação, tenho muito apoio do marido, o que para mim foi e é fundamental. Hoje vejo que o puerpério não é fácil, é uma fase delicada na qual a mulher precisa de atenção e carinho e compreensão. Romantizar a maternidade não ajuda a ninguém.

A maternidade não é um comercial de margarina ou de fraldas descartáveis. Os bebês não sorriem todo o tempo e seu cabelo não fica perfeitamente penteado. As luzes não são tão claras assim e o café da manhã nem sempre é banhado pela luz do sol com dois filhos sorridentes que passam margarina no pão perfeitamente (na realidade, o ideal é que eles nem comam margarina) e seu companheiro é um homem maduro que apoiou sua maternagem em todas as suas decisões (e provavelmente você não apoiou todas as dele como pai, isso se ele estiver de fato sendo pai, contradizendo a ideia de “ajudante”). Destrua a ideia do imaginário publicitário, porque a maternidade é mais semelhante a um show de heavy metal. No caso de Gisele Soriano (BA), mãe de Fátima, de oito meses, se assemelhava mais a um trem desgovernado. “Eu não sabia que o puerpério era esse trem desgovernado, acredito que o meu, de fato, se materializou na hora que cheguei da maternidade, olhei para minha filha e me questionei o que eu havia feito da minha vida (praticamente me flagelei por ter pensado assim). A partir daí, passei a sentir um certo pânico quando tinha que cuidar da bebê. Tinha medo de machucá-la, de que algo ruim acontecesse com ela. Passei a ficar melancólica com sintomas depressivos. Sabia que eram sintomas de depressão porque sofro de Transtorno de Ansiedade Generalizada e uma das coisas que ocorrem quando o transtorno está “impraticável” é a depressão, eu fazia tratamento antes de engravidar e tive que interromper de forma radical quando descobri que estava grávida. Passei a me sentir completamente só, pois meu companheiro praticamente foi um dos principais contribuintes para que meu estado não melhorasse. Ele transformou meu puerpério que já estava terrível em algo que me traumatizou. Só tive o apoio de minha mãe e de uma amiga que teve bebê praticamente na mesma época que a minha. Foi essa amiga que me falou do baby blues e eu torci que fosse o baby blues, e infelizmente não foi”.

Ela ainda não superou a depressão pós-parto e segue fazendo acompanhamento psiquiátrico. “Percebi a DPP quando a minha melancolia passou para tristeza extrema e eu não aguentava mais o sofrimento. Sentia palpitação e taquicardia, ansiedade extrema. Nervosismo, medo de tudo, de viver, de morrer, do futuro. Pânico para sair na rua, pensamentos compulsivos e repetitivos. Tudo que falam para você, você passa a valorizar ao extremo e sofrer com isso. A mania de perseguição passa a existir de forma bem piorada, entenda a mania de perseguição como achar que todos estão contra você e passa a se incomodar com tudo. Quando me deitava sentia as pernas inquietas. Chorava copiosamente todos os dias. Foi quando eu decidi pegar minha filha e fui para casa de meus pais. Só busquei acompanhamento depois de quase 8 meses que a filhota nasceu. Meu psiquiatra receitou uma medicação que é compatível com a amamentação, mas não indicou o ansiolítico que é essencial para o tratamento. Não me dei bem ao medicamento pela falta do ansiolítico. Tomei apenas um dia. Retornarei ao médico para ver o que acontece, pois não quero deixar de amamentar. O choro alivia a ansiedade. A melancolia e o medo do futuro estão me matando. Larguei o pai da bebê, pois não quero ficar com uma pessoa que foi extremamente cruel no momento mais frágil de minha vida. Estou na casa dos meus pais com minha filha. Estou desempregada, precisando me atualizar para poder voltar ao mercado de trabalho. Acredito que se eu tivesse metade das informações que possuo hoje muita coisa poderia ter sido evitada. Teria procurado meu psiquiatra antes de ter bebê, teria buscado meios alternativos de ajuda. A depressão pós-parto é fato, ela está ali. Deveria se criar uma rede de apoio às mulheres. Que existisse mais informação a respeito. Orientação aos pais também”, conta.

Rede de apoio e vínculo mãe-bebê

A rede de apoio é essencial para a mulher puérpera e crucial na depressão pós-parto. Quem é crucial? Quem a mulher demonstrar que precisa estar por perto. Pessoas positivas, dispostas a ajudar e com uma fala acolhedora e positiva, e que também promova ajuda prática no dia a dia com tarefas da casa. “A mulher no puerpério deve ser servida e não se preocupar em servir o outro. Mulheres no pós-parto estão sempre em alerta, com sono prejudicado. Ter alguém de sua confiança para ficar com o bebê enquanto ela dorme, ou mesmo estar junto ali ajudando a mãe nas coisas que ela determinar é a melhor forma de ajudar. Cuidador: vá aberto a servir, disponível, acolhedor e sem julgamento”, aconselha Daniela. Família e acompanhantes devem estar atentos: “não devem ignorar ou julgar qualquer comportamento que a recém-mãe apresentar. Devem estar atentos aos sintomas já mencionados e, em especial, dar suporte, acolhimento, apoio e procurar ajuda logo que percebam qualquer comportamento exacerbado. O único excesso que é permitido nesta relação que se forma é o excesso de amor. Porque mesmo quando o amor parece um exagero, ainda há meios de encontrar o equilíbrio na dose. Já o contrário, dificilmente se equalizará. Uma mulher que desenvolva DPP e que receba os devidos acompanhamentos logo no início do quadro pode não comprometer esse necessário vínculo mãe-bebê que é essencial para o desenvolvimento emocional do bebê. O puerpério requer uma rede de apoio. Familiares, parceiro(a) da mãe, Doulas e quem mais fizer a mãe se sentir livre para assumir o desafio da maternidade devem fazer parte do pós-parto de uma mulher. Na DPP é imprescindível o acompanhamento psiquiátrico e psicológico. Além das indicações medicamentosas prescritas pelo médico que acompanhar a puérpera, é super-recomendado que essa mãe esteja em psicoterapia. Há várias formas de um processo terapêutico acontecer: em grupo, em atendimentos individuais, em rodas de conversas para mães e até em atividades que a mãe pode fazer com o bebê. O que não pode é a mãe no puerpério não ter um espaço para falar e ser escutada”, explica Cláudia.

Enfim, por que é tão importante o vínculo entre mãe e bebê? Porque o bebê, a princípio, é na medida que a mãe é, assim como só se é mãe na medida em que há um bebê. Quando nasce um bebê, nasce uma mãe que, consciente ou inconscientemente, revive toda a sua história de maternidade do ponto de vista de filha. Laura Gutman defende que bebê e mãe seguem fundidos no mundo emocional. O recém-nascido conserva as capacidades intuitivas, telepáticas que estão conectadas com a alma da mãe, de modo que esse bebê seja um sistema de representação da alma materna. “De outro modo, o bebê vive como se fosse dele tudo aquilo que a mãe sente e recorda, aquilo que a preocupa ou que rejeita. Porque, nesse sentido, são dois seres em um. (...) A tendência de todos nós costuma ser rejeitar as partes de sombra que escoam pelos desvãos da alma. Por algum motivo se chama ‘sombra’. Não é fácil vê-la, nem reconhecê-la, tampouco aceitá-la, a menos que insista em se refletir nos espelhos cristalinos e ouros que são os corpos dos filhos pequenos”.

Sob um ponto de vista emocional, é uma grande responsabilidade. Além da responsabilidade de gerar uma vida, de trazer essa vida ao mundo em um cenário obstétrico complexo, tendo em vista as intervenções de rotina, a violência obstétrica, a desnecesárea (e o contraponto da humanização do parto, ainda reservado na maioria das vezes, sim, a quem pode pagar para parir fora do sistema), a mulher que se torna mãe é responsável pela alma de outro ser em fusão com a sua alma, que ainda não sabe que está desconectado do corpo da mãe e ainda se descobrirá nesse mundo por meio dela. Pare, respire e reflita: com esse cenário emocional atrelado ao puerpério, às pressões sociais sobre o feminino e a identidade da mulher e as histórias individuais de cada pessoa, não é certo que muitas mulheres irão desenvolver depressão pós-parto? – o que não é um pressuposto para medicalizar e normalizar as sensações de uma mãe em razão do bom funcionamento da indústria farmacêutica.

Você é a melhor mãe que seu bebê pode ter. “Se é você a figura que está disponível para desempenhar este papel, não importa quão melhor outras pessoas achem que cuidam do seu filho, é o vínculo que se formará entre mãe-bebê que fará de você a melhor e única mãe que o bebê pode ter. Nesse vínculo também precisa ter espaço para as falhas, permita-se falhar mesmo quando o tempo todo você age na intenção de acertar. Vez ou outra navegue pelo turbilhão das redes sociais, mas a verdadeira pergunta faça a você mesma sempre que uma dúvida surgir. Atente-se às suas respostas! Conecte-se com o seu bebê de forma que você possa ser a porta-voz dele pelo tempo suficiente de formar um indivíduo saudável e seguro, até para falhar também no futuro, porque é preciso descontruir esse espaço social da perfeição. Por fim, abandone a capa da superheroína, peça e aceite ajuda. Ajuda quem favorece o exterior e o interior de uma recém-mãe sem apresentar regras e julgamentos. Se absolutamente ninguém conseguir transpor uma barreira que pode ter sido imposta por você puérpera, pergunte-se também o porquê de você não baixar a guarda. Quando se sentir segura, saia e relacione-se, tenha a certeza que as agruras da maternidade não são vividas somente por você”, aconselha Cláudia.

Recomendações para recém-puérperas (e familiares e rede de apoio, por favor)

1. Antes da chegada do bebê: organize a casa e rotina. Por exemplo, quem vai cozinhar, arrumar a casa, lavar roupas para a mãe enquanto ela amamenta e descansa nos intervalos da amamentação? Para quem vão pedir ajuda nessa etapa prática? Já deixaram alguém engatilhado? Pensar na substituição de tarefas que envolviam a mulher. Ela tem outros filhos? Quem poderá ajudá-la com eles? (buscar e levar na escola, atenção de afeto, etc.);
2. Após a chegada do bebê, esteja flexível para um novo dia a dia, que vai evoluindo conforme o conhecimento do bebê, dicas dele, e aprendizado JUNTO COM ELE;
3. Não se cobre de ser perfeita e ter o controle de toda situação; considere-se também em fase de aprendizado e tenha a mesma tolerância que tem com o bebê para com você. Seja flexível com você, com o bebê, com a nova rotina que sempre muda;
4. Receba pessoas que gosta, frequente grupos que tenham outras mães como grupos de pós-parto, atividades com mães e bebês como materna em canto, dança materna, Cinematerna, ou mesmo junte suas amigas que estão vivendo também o puerpério. Saia de casa, respire o ar de fora, não fique muito sozinha;
5. Converse com alguém acolhedor, um companheiro (a), uma amiga, um familiar, sua doula, sua equipe de saúde;
6. Familiares: exerçam a iniciativa. Antecipem sua ajuda nas necessidades do dia a dia, e quando não souberem como pode ajudar, perguntem objetivamente. “O que posso fazer para ajudar? O que eu posso fazer para te deixar mais feliz? Quero te ajudar, mas não sei como”. Proteja a mulher de situações que tragam estresse a ela. A prioridade agora é ela e seu bebê, absorva isso e exerça essa função de cuidador. Nem sempre as expectativas do cuidar e ser cuidado estão alinhadas. Conversem sobre isso abertamente.
7. Para mulheres que estão deprimidas: a depressão pós-parto é provisória! E tem tratamento. Procure ajuda e caso seja difícil, procure ajuda entre um familiar que a acolha e busque esse tratamento com você.
- Familiares: entrem em contato com algum profissional da saúde mental (psicólogo ou psiquiatra), explique a situação e peça seu auxílio, ambos têm capacidade técnica de avaliação e podem iniciar, sugerir ou encaminhar para o melhor tratamento.
- Familiares: fiquem juntos, disponíveis. Acolhedores, sem julgamento e promovam o apoio técnico profissional.*

Relatos de quem sofreu depressão pós-parto

Durante a gestação eu já tinha um certo medo do puerpério, mas tinha a ilusão que para mim seria menos difícil. Pelos relatos que havia lido, eu tinha uma certa ansiedade, mas ainda acreditava que seria mais tranquilo, sei lá acho que é aquela história de sempre achar que com a gente será diferente. Mas não imaginava que seria tão difícil, só vivenciando o puerpério para saber o que realmente é. Às vezes tenho a sensação que há um tabu em torno dele, um código, sei lá, só sei que todas dizem que é difícil, mas ninguém fala abertamente como é, ninguém nos prepara para absoluta solidão que passamos nessa fase! Eu acho que o puerpério é a porta aberta da depressão pós-parto, é tipo um VAI, é como se nos tirassem o pedacinho de chão que restava. Pelo menos foi assim que me senti. Mas não sei até que ponto o puerpério influenciou para minha depressão pós-parto, porque houve muitos fatos desde a gestação até o parto. Sofri muita violência obstétrica, e até hoje não superei isso, não consigo me perdoar, logo eu que li tanto, busquei tantas informações, investiguei a minha GO. Fui até meio paranoica na busca pelo parto humanizado, e hoje choro de dor e tristeza ao lembrar do dia que devia ser o mais feliz da minha vida, tive um parto violentamente roubado, não superei e não sei se um dia vou superar, as vezes nem quero superar, porque também me culpo. Percebi a depressão numa consulta com pediatra do meu filhote, quando ele me pediu o relato do parto e eu não consegui falar sobre, apenas chorei e disse que não chorava de emoção, mas de dor, minha alma doía. Depois de uma longa conversa, ele muito atencioso e delicado me sugeriu buscar ajuda, se não fosse por mim que fizesse isso pelo meu bebê, que precisava da mamãe dele feliz. Busquei ajuda da minha antiga psicóloga, pedi um encaixe, ela surpresa me atendeu no dia seguinte, havia me ‘liberado’ há 5 anos, quando fiz terapia pela primeira vez. Sobre sair da depressão, eu não saí ainda, a sensação que tenho é como se fosse um lugar em mim que às vezes tenho acesso, noutras não, então vou e volto, mas hoje posso dizer que sou mais compreensiva comigo e tento sempre analisar com calma minhas emoções e pensamentos. Hoje eu vejo o puerpério com mais carinho, é um momento que pede apenas acolhimento e amor. É um convite da vida à realidade, é apenas o princípio do tobogã de emoções e aprendizado. A depressão pós-parto já acho mais pesado, porque a recém-mãe é proibida de não estar feliz, se sentindo plena com o bebê nos braços. Para a nossa sociedade a depressão é doença de vagabundo, encostado, a pós-parto, então, é coisa de mulher ingrata, ‘com tanta mulher por aí sonhando em parir e você com essa besteira’, ‘se não dá conta do recado não devia ter engravidado’. Assim que fui tratada, é isso que ouvi de muita gente, tentaram me tirar tudo (emocionalmente). Tive que brigar e me fechar para poder amamentar meu filho e me tratar sem remédios. Mas ainda consigo ver a depressão como incentivo ao autoconhecimento, querendo ou não têm me fortalecido.
Viviane Silva Marchezini Rosa (MG), 35

Eu não via um puerpério pesado como dizem, afinal nos primeiros meses de vida da minha filha, tive ajuda e apoio 24h da minha família. Era 24h só mãe e bebê. Para mim estava tranquilo, eu vivi para minha filha, de manhã, tarde, noite e madrugada. Tinha alguém para me lembrar de comer e tomar banho quando ela dormia. E quando ela acordava éramos somente nós duas. Eu percebi a depressão quando chegou um momento em que não parava de chorar. Mas não foi no começo, foi com mais de seis meses pós-parto. Eu chorava com tudo e todos. Até com a minha filha. Cheguei no ápice de deixá-la chorando e sentar no chão e chorar junto, pois não sabia o que fazer. Não passei por acompanhamento, quem me diagnosticou foi a pediatra durante uma consulta de rotina. Eu sinto que saí quando me libertei de julgamentos. Quando entendi que sei o que é melhor para minha filha. E quando começamos a passear mais. Coisa que eu não fazia, fiquei trancada em casa por quatro meses achando que ela era muito nova para sair. Me arrependo, não faria isso novamente. Hoje eu acho que errei bastante comigo mesma, de ouvir os palpites ao invés de fazer o que eu achava melhor. A depressão pós-parto vem quando menos imaginamos, eu nunca pensei que fosse ter, li muito sobre ela e estava munida de apoio, achei que era tudo o que eu precisava. Mas não foi o suficiente.
Juliana Maltes (SP), 28, mãe de Leia.

*Recomendações elaboradas pela psicóloga Daniela Andretto.

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