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O que são as intervenções de rotina na mulher durante o trabalho de parto

by Redação taofeminino Published on 14 de dezembro de 2016

Quando usadas rotineiramente e sem embasamento científico, as intervenções médicas no trabalho de parto podem trazer prejuízo para a saúde da mãe e do bebê. Por Juliana Couto

Você está grávida e começou a conhecer obstetras que podem vir a ser o médico que vai acompanhar o seu parto. Ou ainda marcou consulta com a sua ginecologista que também é obstetra – você tem certeza que é a médica mais indicada para acompanhar seu parto. Iniciada a consulta, você, agora parte do mundo da gestação e do assunto “parto”, quer compreender sobre o ato de parir um filho e o profissional em questão fala sobre episiotomia, que ela precisa ser feita, que ele vai “fazer” seu parto. Corra desse tipo de profissional, pois desde o princípio do seu pré-natal, independentemente do estágio da gravidez, ele está empurrando a você uma intervenção de rotina.

O que são as intervenções de rotina? São as intervenções realizadas pelo obstetra que aceleram o processo do trabalho de parto e são as intervenções de protocolo realizadas no bebê pelo neonatologista e equipe pediátrica sem necessariamente trazer benefícios à saúde do binômio ou ainda sem respaldo científico. Para compreender melhor as intervenções na parturiente, é preciso compreender o cenário obstétrico brasileiro. Apesar da mulher ter direito a parir em local onde se sinta segura e poder optar, por exemplo, por viver um parto domiciliar ou um parto em casa de parto, se se enquadrar nos critérios adequadamente, mulheres são conduzidas a realizarem cirurgias cesáreas eletivas como via de parto principal e a passam por uma desnecesárea, ou seja, vivem uma cirurgia de médio porte sem indicação com embasamento científico, como explica o obstetra Jorge Kuhn em Obstetrícia Baseada em Evidências Científicas na Assistência ao Parto Vaginal, publicado no Manual de Orientação – Assistência ao Parto e Tocurgia, da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO, 2002), que a Medicina Baseada em Evidências busca provas científicas honestas para nortear as tomadas de decisões em saúde. Quando conseguem ultrapassar a falácia da desnecesárea, são conduzidas para um parto normal instrumental, isto é, marcado por uma série de intervenções que aceleram o trabalho de parto e podem ser prejudiciais para mãe e bebê.

Mais do que conhecer as fases do trabalho de parto e se preparar para elas, é importante que a parturiente compreenda a estrutura do sistema praticado em maternidades privadas e públicas. A Febrasgo estabelece, no texto do obstetra Jorge Kuhn, procedimentos benéficos para a parturiente, procedimentos em que se deve balancear benefícios e prejuízos, procedimentos cujo benefício é desconhecido e procedimentos provavelmente não benéficos ou prejudiciais. As intervenções de rotina estão no último tópico, o que significa dizer que as federações de medicina em escala federal e estadual sabem dos riscos e dos prejuízos.Segundo Simone Grilo Diniz, em Gênero, saúde materna e o paradoxo perinatal, “a própria possibilidade de a mulher ter escolhas informadas sobre sua assistência pode fazer uma grande diferença na interpretação feita por ela sobre a 'normalidade' da sua experiência. No Brasil, além do parto espontâneo ser percebido pelos profissionais como mais arriscado para o bebê, também é tido como mais arriscado para a própria mãe, sendo associado a danos sexuais irreversíveis. Os profissionais praticam intervenções sobre a vagina, como a episiotomia (que é uma laceração de 2º grau, no mínimo) e os fórceps, que aumentam os riscos de danos genitais graves, e quando estes danos ocorrem, responsabilizam o parto em si pelos danos. Desta forma, o dano iatrogênico é invisibilizado e re-descrito como um dano ‘natural’ do parto, associado ao processo fisiológico e não às intervenções. O uso rotineiro da episiotomia e do fórceps para primíparas ainda é ensinado em importantes faculdades de medicina, à revelia de toda evidência científica de sua inadequação e sem que as mulheres tenham qualquer chance de fazer escolhas informadas”.

Intervenções de rotina na mulher durante o trabalho de parto

Exames de toque
O exame de toque serve basicamente para avaliar a evolução da dilatação do colo do útero no trabalho de parto e posicionamento do bebê. Realizado fora do trabalho de parto, não tem validade. Aconteceu um sangramento? Um exame de toque pode provocar infecções. Toque em uma gestante com 25 semanas para ver se o colo está alto? Exceto se a parturiente estiver apresentando alguma queixa, não é necessário. Infecção urinária e confirmação de parto precoce ou de contrações de treino (Braxton) podem ser identificados por outros fatores antes que se decida pelo exame de toque. Ainda é preciso considerar que a parturiente pode não autorizar um obstetra a fazer o exame de toque e que há obstetras que realizam descolamento de membrana, para dar o gatilho do parto, sob a prerrogativa de estarem fazendo um exame de toque. Curiosidade: a obstetriz Ana Cristina Duarte explica no texto Curiosidades da Partolândia que “Não existe dilatação de 5 dedos. A dilatação se mede com 1 dedo, 2 dedos e a partir disso são contados os centímetros, até chegar em 10 cm. E, salvo raríssimas exceções, não existe mulher que não dilata. O que existe são profissionais sem paciência para esperar a fisiologia do parto adequadamente. O que dilata não é a vagina, mas o colo do útero. O canal vaginal é formado de tecido elástico, que não precisa dilatar para o nascimento, mas sim esticar, logo retomando sua forma original. Por isso, a vagina não fica larga após um parto normal”.

Litotomia
Posição para parir deitada. A parturiente é conduzida a se deitar em posição ginecológica na mesa, utilizada para fins obstétricos e de nascimento há mais de 200 anos. Além de desconfortável, foi associada a desvantagens para a parturiente e para o feto, como maior incidência de episiotomia, parto vaginal assistido e anormalidades na frequência cardíaca fetal. A última revisão da Cochrane, em 2012, que avaliou posição no segundo período do parto, em mulheres sem analgesia, encontrou 22 estudos randomizados, envolvendo 7280 mulheres. E a conclusão é exatamente essa: a mulher deve ter a liberdade para escolher a posição na hora do nascimento. O processo de horizontalização do parto se processou simultaneamente à medicalização do nascimento com o advento dos cirurgiões obstétricos. Foi sob a influência da escola obstétrica francesa, liderada por François Mauriceau no século 17, que o parto horizontal foi introduzido. Mauriceau, com grande influência na corte francesa de Luís XIV, ao assistir ao parto da rainha Louise De La Vallière, o fez na posição horizontal numa cama de parto (lit de misere) para que o rei também o assistisse. Dois anos após, Mauriceau recebeu a visita de Hugh Chamberlen, membro da aristocracia britânica e que possuía o segredo do fórcipe, e conheceu o valioso instrumento. A posição horizontal facilitava as intervenções médicas como o uso do fórcipe e o estudo físico do mecanismo de parto e foi de extrema importância no alijamento do saber empírico das parteiras e marginalização da sua prática no século 18.

Tricotomia
É a raspagem de pelos. Não é obrigatório que os pelos da região pubiana sejam raspados para um parto normal. Principalmente porque a definição de tricotomia do ponto de vista da enfermagem é a raspagem de pelos para impedir micro-organismos e bactérias em caso de cirurgia. Parto normal não é cirurgia. Sob a prerrogativa da “higiene”, muitas instituições adotam a tricotomia como protocolo de rotina para internação de trabalho de parto. A parturiente tem o direito de não autorizar a raspagem de pelos, caso essa seja a vontade dela. Pelos não são anti-higiênicos.

Enema
Lavagem intestinal realizada com medicamento ou supositório sob a prerrogativa de esvaziar o intestino da mulher para o parto e facilitar o parto. Não facilita. Não há evidências científicas que comprovem que a lavagem intestinal facilita o expulsivo ou abrevia o trabalho de parto. Ao contrário, causa cólica na mulher e pode influenciar as contrações uterinas. No trabalho de parto natural, sem intervenções de rotina, a mulher pode vir a defecar, afinal, a pressão que a cabeça do bebê faz para que passe pelo canal vaginal faz com que toda a região seja pressionada. É normal defecar durante o trabalho de parto e a equipe médica já está preparada para que isso aconteça. Há risco do enema ser realizado e a mulher ter diarreia durante todo o trabalho de parto, não somente no expulsivo. O uso rotineiro da lavagem intestinal aparece no Guia Prático de Assistência ao Parto Normal publicado pela Organização Mundial da Saúde em 1996 como um procedimento ineficaz e desnecessário. O relatório ainda cita que em dois estudos científicos não foram percebidas diferenças significativas entre casos de infecção quando ocorreu a eliminação involuntária de fezes em casos de partos, com ou sem lavagem intestinal. Há ainda o risco de poder contaminar o bebê devido aos resquícios de água e fezes que podem permanecer em estado líquido no intestino – situação diferente de um parto em que o corpo da mulher, seja durante o trabalho de parto, seja no expulsivo, se prepara para defecar.

Ocitocina sintética
Conhecido como “sorinho”, a ocitocina sintética é usada para acelerar a contração do útero e tornar o parto mais rápido. Diferentemente de outras intervenções, como episiotomia, não é vilã e pode ser indicada sob contexto adequado. Mas, então, qual o problema da ocitocina sintética? O uso como protocolo para induzir o parto na maioria dos hospitais públicos e privados do Brasil. O uso desmedido, somente para acelerar o parto, pode ocasionar mais dor para a mulher e, ao abreviar o expulsivo, pode aumentar a chance de laceração grave ou ainda, por efeito em cadeia, provocar outras intervenções, como episiotomia e anestesia. A ocitocina sintética é administrada por via intravenosa, ela não chega ao cérebro e, portanto, não pode produzir os efeitos positivos de euforia no nascimento. A ocitocina sintética é um medicamento e que quando bem utilizado muda o curso do parto, por exemplo, em casos de trabalho de parto que não se desenvolve naturalmente. No entanto, ela impede a secreção de endorfinas, hormônios que ajudam a controlar a dor naturalmente. Enquanto a ocitocina natural é secretada no corpo natural e atinge um pico conforme avança o trabalho de parto, a sintética precisa ser administrada em maior quantidade para obter o mesmo resultado, já que ela não atinge o cérebro. E a parturiente não vai sentir um pico hormonal durante o expulsivo, que seria natural. Além disso, a ocitocina sintética interfere na secreção da ocitocina natural, o que pode tornar a ligação entre mãe e bebê mais difícil.

Rompimento de bolsa
Ou amniotomia, é o procedimento realizado para acelerar o trabalho de parto, pois aumenta as contrações. Popularmente, a ideia de parto é a bolsa rompendo e uma enxurrada d’água saindo. Não é exatamente assim. A maioria das mulheres entra em trabalho de parto sem que a bolsa se rompa. Ela se romperá durante o trabalho de parto conforme o colo do útero dilata. Não necessariamente o líquido saíra como uma enxurrada. Algumas mulheres podem ter o rompimento de bolsa e não sentirem contrações (indicação falsa de cesárea e largamente aplicada por obstetras, a maioria das mulheres vai entrar em trabalho de parto nas próximas horas). Antigamente, nascer sem o rompimento da bolsa, ou seja, empelicado, era visto como sorte. A bolsa de líquido amniótico começa a se formar quando o embrião se implanta no útero; dentro dessa bolsa é produzido o líquido amniótico durante toda a gestação e inclusive durante o parto (não existe parto sem líquido, completamente seco). Conforme explica a doula Adèle Valarini (DF) em seu blog, “O líquido amniótico é produzido constantemente. Parte da produção se deve à ação da placenta, que é o órgão responsável pelas trocas sanguíneas com a mãe, e que fica "enraizado" na parede uterina. A outra parte do líquido vem do próprio feto, que engole, digere, urina e defeca ali dentro. A placenta efetua a função de filtro eliminador dos dejetos do líquido amniótico. Assim, ao final da gestação, é possível observar (com instrumentos adequados, claro!) a presença de pequenas quantidades de mecônio (cocô do bebê) no líquido, que fica esverdeado por um tempo, e depois vai ficando transparente de novo, sob a ação da placenta.” O rompimento precoce, dessa maneira, aumenta o risco de infecções do bebê e por ser realizado fora do momento natural pode aumentar o risco do prolapso de cordão, isto é, quando o cordão umbilical sai antes do bebê (indicação real e emergente de cesárea). Conforme as recomendações da OMS para atendimento ao parto natural, o uso rotineiro de amniotomia precoce durante o início do trabalho de parto é classificado como “Condutas frequentemente utilizadas de forma inapropriadas”.

Manobra de Kristeller
A manobra de Kristeller, que consiste em empurrar a barriga da mulher durante o trabalho de parto, ainda é realizada e trata-se de violência obstétrica. Segundo informações do site da Febrasgo e definição da ginecologista-obstetra Melânia Amorim, “é desnecessária e prejudicial, pois pode levar a ruptura do períneo por uma pressão muito grande e pode causar a redução da oxigenação do bebê”. Para o Conselho Regional de Medicina de São Paulo, a manobra é procedimento proscrito, atrelada a traumas materno-fetais. O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde condenam a prática, que traz riscos à saúde da mãe e do bebê. Ainda assim, pesquisa de 2014 da Fundação Oswaldo Cruz revelou que 37% das gestantes pertencentes ao grupo de risco obstétrico habitual foram submetidas à manobra no Brasil. Para impedir a realização do procedimento, a parturiente precisa apresentar um plano de parto à maternidade, que deve ser protocolado pela instituição com assinatura da equipe médica, deve garantir ter um acompanhante, direito previsto na lei 11.108, em vigor desde 2005, no qual a parturiente tem direito à acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto, independentemente da estrutura do hospital, independentemente da via de nascimento, seja parto normal, seja cirurgia cesárea. Na maioria dos casos, principalmente homens, sejam companheiros, pais, irmãos, são excluídos das salas de pré-parto pelo fato delas serem compartilhadas com outras mulheres. A mulher tem o direito garantido seja qual for a estrutura hospitalar. Em caso de a parturiente sofrer uma manobra de Kristeller durante o parto ou ser impedida de ter acompanhante, ela pode formalizar queixa no Ministério Público de cidade em que reside, ligar para a Ouvidoria Geral do SUS (136), acionar o Ministério da Saúde (hospitais públicos), ANS (hospitais particulares), Procon, ANVISA, além de secretarias de saúde do município ou do Estado.

Episiotomia
Uma das intervenções mais ultrapassadas do parto normal instrumentalizado, é violência obstétrica. A primeira episiotomia data de 1903 e decorre da litotomia. Como explicou a obstetra Ana Thais Vargas em encontro de gestantes na Lumos Cultural, em São Paulo, a episiotomia começou a ser praticada para resolver problemas criados pelos médicos. A medicina ocidental começou a ser descrita durante o Iluminismo e, a fim de facilitar o estudo do nascimento humano, médicos usavam a inalação de éter como anestesia intraparto, de modo que, semiconsciente, a parturiente era deitada para continuar a parir e já sem forças era conduzida para que o nascimento acontecesse. A episiotomia, ou corte no períneo, passou a ser feita, assim, para abreviar o expulsivo e contribuir para o nascimento conduzido pelo médico. Em 1989 já havia um estudo francês, realizado com 60 parturientes, que demonstrava as consequências negativas do procedimento. Uma metanálise da Cochrane de 2005 indicou que a episiotomia não abrevia o expulsivo, não diminui a morbidade neonatal, aumenta a dor na mulher, pode provocar dor no sexo pós-parto e facilita o surgimento de infecções no pós-parto. Uma revisão de 2011 avalia ainda que a episiotomia aumenta a chance de lacerações graves, ou seja, de terceiro e quarto graus (laceração do períneo em graus: 1º, atinge mucosa; 2º, atinge pele e músculos; 3º atinge pele, músculos e esfíncter; 4º, acesso à luz intestinal). Por que ela ainda é praticada por escolha médica em parturientes?

Puxo precoce
Puxo é a vontade de fazer força quando há dilatação total (10 cm) e o bebê já está encaixado no canal vaginal, acontece na fase do parto chamada de expulsivo. Em um parto normal e natural, sem intervenções médicas, é uma sensação natural do corpo. Quando direcionada pelo médico, é classificada de precoce. A literatura médica classifica o puxo realizado pela mulher como, ironicamente, tardio. De acordo com a publicação da Febrasgo, “os esforços expulsivos maternos podem ser orientados ou não, precoces (em se completando a dilatação) ou tardios (somente quando a parturiente sentir vontade de fazer força). Uma revisão sistemática comparou puxos precoces e tardios em mulheres sob analgesia peridural, incluindo 9 ensaios clínicos randomizados e 2.953 mulheres. Nas mulheres que efetuaram puxos tardios, observou-se aumento da duração do segundo estágio do parto (em torno de 58 minutos), porém uma significativa redução da aplicação de fórceps médio e uma tendência à redução da cesariana. Não houve influência nos escores de Apgar, na frequência de laceração perineal, na admissão em UTI neonatal e na satisfação materna. Outra revisão sistemática incluiu 8 ensaios clínicos randomizados e 4.732 mulheres, verificando maior chance de parto espontâneo com os puxos tardios, com maior duração do período expulsivo passivo (a partir da dilatação completa), porém com menor duração da fase ativa do período expulsivo. O risco de lacerações perineais foi inalterado e os desfechos perinatais não foram avaliados. Um pequeno ensaio clínico randomizado avaliou os efeitos de puxos orientados ou não no segundo estágio sobre a função e a estrutura do assoalho pélvico, encontrando maior risco de disfunção urodinâmica e tendência à hiperatividade do detrusor no grupo com puxos orientados. Em resumo, os puxos precoces reduzem a duração do período expulsivo, porém aumentam os riscos de parto instrumental e podem acarretar lesão do assoalho pélvico. Esses efeitos precisam ser discutidos com as mulheres quando elaboram seus planos de parto, e a definição por uma ou outra prática deve ser individualizada de acordo com as características e as expectativas das parturientes”.

Fórceps e vácuo extrator
São instrumentos usados pelo obstetra para puxar o bebê para fora. A utilização deles só é válida em casos comprovados de sofrimento fetal agudo. O vácuo extrator é mais recomendado que o fórceps, que pode causar lesões na cabeça do bebê, além de laceração no períneo e no canal vaginal. De acordo com informações em texto da obstetra Melânia Amorim, intitulado Parto instrumental: fórceps e vácuo-extração na Obstetrícia moderna: Parte 1 e publicado em seu blog Estuda Melânia, Estuda, revisão sistemática da Cochrane incluiu 32 ensaios clínicos randomizados e 6597 mulheres e concluiu que “fórceps tem menor chance de falha e aumenta o risco de laceração perineal grave, trauma vaginal, uso de anestesia e incontinência de flatos; vácuo-extração reduz o trauma materno e a necessidade de analgesia; lesão da face fetal é mais frequente com fórceps, cefalematoma maior com vácuo; vácuo de metal é mais efetivo, porém acarreta maior risco de escoriação do couro cabeludo e cefalematoma. A seleção do instrumento deve considerar o percentual de falha, o balanço entre riscos e benefícios maternos e neonatais e a experiência do operador”.

Aceleração do delivramento
Após o nascimento, se inicia a última fase do parto, o delivramento, ou seja, o nascimento da placenta. De acordo com a Febrasgo, é considerado prolongado se não se completar com 30 minutos, quando se adota conduta ativa, e 60 minutos com conduta fisiológica. Na conduta fisiológica, o obstetra pode injetar ocitocina sintética na parturiente para acelerar o processo. Sem indicação correta e autorização da parturiente, porém, se torna inadequado. Quando o médico não espera o tempo de a mulher ter contrações e expulsar a placenta, ele pode forçar sua saída com puxos, o que pode causar lesões uterinas. Ainda de acordo com o material da Febrasgo, “o momento exato de administração da ocitocina persiste por ser determinado. Enquanto alguns estudos sugerem benefícios com a administração antes do delivramento, outros demonstram maior redução do risco de hemorragia pós-parto quando se aguarda a saída da placenta”.

Revisão manual da cavidade uterina
Após o delivramento, o nascimento da placenta, o obstetra pode fazer massagem uterina para se certificar da saída completa placenta. O exame é dolorido e não é necessário, pois um exame da placenta pode confirmar se ela saiu ou não inteira. De acordo com documento da Febrasgo, intitulado Assistência ao segundo e terceiro períodos do trabalho de parto baseada em evidências, “a revisão da cavidade uterina e a revisão instrumental do trajeto não fazem parte dos protocolos de assistência ao parto e só devem ser realizadas com indicações específicas, como no caso de hemorragia não-decorrente de hipotonia uterina. Para afastar a possibilidade de restos placentários ou de membranas, recomenda-se a revisão dos anexos depois do delivramento”. Ainda no parecer do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (COREN-SP, nº 048/2010), “Após a retirada fetal, a dequitação, na maioria das vezes, ocorre de forma espontânea. Estudos controlados que comparam a dequitação espontânea com a remoção manual da placenta têm mostrado que esta última é mais danosa, associando-se ao incremento da perda sanguínea materna e do risco de infecção. Assim, a retirada manual da placenta deve ficar restrita aos casos em que, espontaneamente, não se deu a dequitação, em período razoável de tempo para o procedimento cirúrgico”.

Relatos de quem sofreu intervenções de rotina

“Sofri uma única intervenção, que foi o uso de ocitocina intravaginal. Eu autorizei a intervenção, porém a forma como foi dito parecia que eu só tinha a opção de utilizar a ocitocina, na verdade não sei se poderia ter dito não. Acredito, hoje, com as pesquisas que fiz, que eu poderia ter tido um parto mais tranquilo sem o uso da ocitocina, foi desnecessário, pois já estava em trabalho de parto e com dilatação. Na hora do parto achei que aquilo era o normal, mas depois percebi que não havia motivo para pressa, poderia ter seguido um curso mais tranquilo, e isso tudo me deixou triste”.
Rutielle Isabel Domingues Evangelista (SP), 25, mãe de Vinicius, cinco meses.

“Inúmeros exames de toque. Ocitocina. Parto com uso de vácuo. Não tive poder sobre os exames de toque. Autorizei a ocitocina após 8 de dilatação. E autorizei o vácuo pois estava exausta e o bebê em sofrimento. Me sinto triste, frustrada, traumatizada com essas intervenções. Eu tinha uma doula, queria parto normal, estávamos vendo a casa de parto. Mas Theodoro nasceu com 35 semanas. Me indicaram os hospitais Ipiranga e Vila Alpina como plano B, e eu optei pelo Vila Alpina, pois no Ipiranga eles não permitiam acompanhante homem no pós-parto. Mas tudo que aconteceu me deixou com problemas de saúde por quase quatro meses após o parto, meu filho ficou na UTI por 10 dias, tivemos inúmeros problemas com amamentação e até hoje eu não consigo ter uma vida sexual, porque tomei mais de 40 pontos por lacerações e que eu sei que poderiam ter sido evitadas se o atendimento tivesse sido outro desde quando dei entrada no hospital. E me culpo por ter deixado as coisas acontecerem como foram. Dei entrada no hospital com 35 semanas de gestação, bebê GIG, 3 cm de dilatação e bolsa rompida há uma hora. A enfermeira e médica da triagem foram supergrossas, fizeram toque sem avisar, e me trataram como se a culpa de meu filho estar nascendo prematuro fosse minha. A médica não quis me ouvir quando eu disse que já havia feito o exame do cotonete e que o resultado tinha dado negativo, mas eu não tinha o papel comigo, só na internet. Por isso resolveu que eu precisava de duas doses de antibiótico, e que o bebê não podia nascer nesse intervalo de seis horas entre uma e outra. Me colocaram em um quarto com meu marido, onde fique das 1h30 às 7h30 da manhã sem poder levantar da cama, sem auxílio de nenhuma enfermeira, e duas das vezes que levantei para ir ao banheiro e que precisei ficar de cócoras para aliviar as dores tomei bronca da enfermeira que entrou no quarto, me dizendo que meu bebê não podia nascer, que eu era irresponsável e que devia voltar pra cama. Nesse período, mesmo o bebê não podendo nascer, uma enfermeira entrou querendo aplicar o sorinho, que eu recusei. Por volta de 8h após a troca de plantão, permitiram que minha mãe entrasse no quarto (trocando com meu marido), e me autorizaram a fazer exercícios, no entanto eu estava exausta, quase desmaiando, implorando por uma anestesia. Uma das enfermeiras disse em tom de deboche que lá era parto humanizado, que não tinha anestesia, se eu não sabia disso. Minha mãe convenceu a médica a administrar e me convenceu a aceitar a ocitocina, e com isso consegui começar a fazer força, foi quando a obstetriz percebeu que o meu bebê estava lateralizado. Então passei mais três horas fazendo força para que ela pudesse girar o meu filho e encaixar na posição correta para o expulsivo. Por volta de 12h30, a equipe médica entrou e me disse que o meu filho estava em sofrimento e que eles iam puxar com o vácuo. Eu só queria que aquilo acabasse, que meu filho ficasse bem e acabei aceitando. Só consegui recusar a episiotomia, o que não impediu que eu sofresse lacerações que resultaram em uma hemorragia, o que me fez ir pra UTI por 3 dias, pois também tive uma infecção uterina”.
Alba de Souza Wodianer Marcondes (SP), 30, mãe de Theodoro, sete meses.

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by Redação taofeminino