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Tipos de parto: parto lótus e o desligamento natural da placenta

by Redação taofeminino Published on 23 de maio de 2017

Prática que espera que a placenta se desligue do bebê tardiamente, é recorrente em partos naturais e domiciliares e vê a placenta como órgão vivo e essencial para o bebê no pós-parto, invalidando a lógica de mero lixo hospitalar. Por Juliana Couto

Vinculado ao parto natural no Brasil, o parto lótus consiste em permitir que a placenta se desconecte naturalmente do bebê após o parto, de modo que o cordão umbilical não é clampeado, nem mesmo após três minutos após o nascimento, procedimento recomendando por órgãos de saúde como OMS e Acog. O costume de descartar a placenta como lixo hospitalar é recente e decorre da instrumentalização do parto, evento que se concretizou durante o século 20, quando o parto definitivamente deixou de ser um evento caseiro entre mulheres para passar a ser um evento controlado e mecanizado por um especialista de saúde, majoritariamente do século masculino, em um primeiro momento. Entre os costumes antigos, um dos principais consistia em plantar a placenta no pós-parto sem que a mulher soubesse onde ou somente após o resguardo.

Mas o que é, afinal, a placenta?

É um órgão presente nos mamíferos que se desenvolve durante a gestação e faz o intercâmbio entre a circulação de nutrientes materna e do feto. Atua temporariamente como pulmão, intestino, rim e fígado, realiza atividade endócrina, é responsável por transmitir gás carbônico, carboidratos, anticorpos, bactérias, toxinas e vírus para o bebê. Realiza a comunicação entre mãe e feto também termos emocionais e psicológicos, criando o primeiro vínculo entre mãe e filho. Possui duas faces, sendo que uma fica em contato com o útero materno e a outra fica ligada ao bebê pelo cordão umbilical. É ela que também controla o hormônio gonadotrofina coriônica, que só existe durante a gestação e é indispensável para fixar o embrião ao útero.

A placenta nasce após o bebê em um parto normal, em média após 30 minutos do nascimento. É a ocitocina presente no parto que contribui para que ela nasça. Um parto mal assistido por profissionais da saúde se torna perigoso, pois é no período da dequitação da placenta que pode acontecer hemorragia interna, quando ela não se descola devidamente da parede do útero. De acordo com a doula Bárbara Zimmermann (Beulshausen, Alemanha), 32, “placenta é viva e carrega em si muita sabedoria, pois sabe, por exemplo, a quantidade exata de nutrientes e de sangue necessários para determinada fase do embrião. Ela é geneticamente igual ao bebê”.

Como é o parto lótus?

É um parto normal domiciliar, ou seja, natural, sem intervenção medicamentosa. No Brasil, o parto lótus só pode ser realizado em casa, pois nas maternidades brasileiras há dois protocolos: ou a placenta é descartada como lixo hospitalar ou, se for de decisão da parturiente, pode ser congelada e levada para casa. Na maioria das maternidades brasileiras ainda é realizado o procedimento ultrapassado de clampear o cordão umbilical assim que o bebê nasce, procedimento que vai contra as indicações oficiais de vários órgãos, incluindo o Ministério da Saúde, que recomenda esperar até três minutos, garantindo um aporte de nutrientes e oxigênio essencial para o bebê.

De acordo com Olímpio Barbosa de Moraes Filho, da Febrasgo, escolher onde e como parir é um direito da mulher. Cientificamente, segundo ele, não há nenhum benefício em não cortar o cordão umbilical. Ele ressalta que “se o recém-nascido nasce com algum problema e necessita de alguma assistência neonatológica de suporte, faz necessário o clampeamento do cordão precoce. Se não necessidade de assistência neonatológica, como por exemplo nos casos de anoxia perinatal, a OMS recomenda que o clampeamento do cordão seja realizado entre 1 a 3 minutos após o nascimento”.

O que se faz com a placenta no parto lótus?

Thaynara Fernanda Priesnitz (PR), 23, mãe de Enzo, de um ano e dez meses, ouviu sobre parto lótus em uma roda de conversa da qual participava semanalmente durante a gestação. E, sim, achou estranho. “Eu já havia decidido fazer o corte tardio do cordão, para garantir que todo o sangue do Enzo ficasse com o Enzo, mas não via a placenta como vejo hoje. Então, encontrei alguns textos na internet, e um grupo no Facebook (Lotus Birth) destinado à informação, discussão e apoio a quem quer fazer esse tipo de parto. Aí eu vi que na Europa é comum, inclusive, dar de presente aos bebês uma bolsinha de crochê para guardar a placenta. Que eles têm feito parto lótus em casos de prematuros, pois ajuda na recuperação dos bebês. Que a placenta continua viva por cerca de cinco dias após o parto, e é capaz de auxiliar o metabolismo do fígado e rins, que nascem imaturos. Conversei com várias pessoas que relataram que os bebês não perdiam peso, ou, se perdiam um pouco, recuperavam em questão de horas. Fui amadurecendo a ideia, mas nada estava decidido. Uma semana antes do Enzo nascer, assisti a um relato de parto lótus e me encantei. Naquela noite, eu virei a madrugada pesquisando mais e mais, e decidi que também queria fazer. Aí foi só avisar a equipe de parto (ele nasceu em casa, não sei se funciona da mesma forma em hospitais).”

Para ela, a placenta é mais do que nutrir e proteger o bebê dentro do útero. É também um corpo que se desenvolveu e cresceu junto com ele. “Ela carrega uma energia, uma força vital de três DNAs (da mãe, do pai, e do bebê), três histórias, três almas, e um campo energético. Um ser, que morre para possibilitar a vida do bebê. A única coisa que o bebê conhece além do corpo da mãe, e que, assim como o bebê sente falta do corpo da mãe quando nasce, também sente falta da placenta”, explica.

Mas quais são os cuidados com a placenta? A placenta é um órgão que nasce vivo. Após o nascimento do bebê, com o cordão umbilical já branco e maleável (sinal que todo o sangue de seu interior já foi para o bebê), é preciso limpar a placenta gaze e soro fisiológico. Thaynara optou por armazená-la em um pote com gelo nas primeiras horas de pós-parto. “Depois, coloquei dentro de um saquinho plástico, com sal marinho e camomila. No segundo dia, o cordão já começou a mumificar, ficando enrijecido e marrom. Tem que vestir o bebê com roupinhas de abotoar na barriga, para acomodar melhor o cordão mumificado. Eu limpava o umbigo com cotonete e soro fisiológico, e trocava o sal marinho e a camomila diariamente. E para dar banho no bebê, usava uma fralda com água morna (sem banho de imersão enquanto estiver com a placenta ligada). Nós passávamos quase o dia todo na cama, e quando precisava sair do ninho, carregava bebê e placenta juntos dentro daqueles sacos de pano que a gente enrola o bebê”, explica.

O parto lótus atrapalha a amamentação?

Não, segundo Thayanara. Seguir com a livre demanda e se antecipar às necessidades do bebê seguem com pré-requisitos para estabelecer a amamentação. “Oferecendo-lhe não apenas o peito, mas o colo, a voz, o cheiro e o ritmo cardíaco da mãe como seu alimento. É não o deixar chorar de fome para oferecer o seio. E deixá-lo saciar-se desse alimento levando o tempo que ele quiser. Alimentar de conforto e calor, um ser que acaba de chegar a esse mundo estranho, silencioso e frio; e ter alguém disponível para cuidar da recém mãe, da casa, dos outros filhos, para que assim ela possa também estar disponível física e emocionalmente para oferecer esse alimento”. A placenta conectada ao bebê só exige cuidados com ela mesma, manutenção higiênica e transporte adequado. A rotina, o (re)conhecimento e o estabelecimento da amamentação seguem da mesma maneira.

Quando a placenta se desliga naturalmente?

De acordo com a doula Bárbara Zimmermann, usando como base o livro Placenta - The Forgotten Chakra, de Robin Lim e Miyuki Akiyama, o cordão e a placenta seguem conectados de três a nove dias e no seu ritmo se desprendem naturalmente. “Desta forma, sem violência e pressa, a placenta termina sua função física e “se despede no seu tempo” do seu bebê. Para a boa conservação da placenta e evitar que esta solte um cheiro forte, ela é conservada com sal, ervas e flores, às vezes em uma bacia, às vezes em uma bolsinha”, explica.

No caso de Enzo, o desligamento não foi natural. Como explica Thayanara, foi tardio, mas não De acordo com a doula Bárbara Zimmermann, usando como base o livro Placenta - The Forgotten Chakra, de Robin Lim e Miyuki Akiyama, o cordão e a placenta seguem conectados de três a nove dias e no seu ritmo se desprendem naturalmente. “Desta forma, sem violência e pressa, a placenta termina sua função física e “se despede no seu tempo” do seu bebê. Para a boa conservação da placenta e evitar que esta solte um cheiro forte, ela é conservada com sal, ervas e flores, às vezes em uma bacia, às vezes em uma bolsinha”, explica.natural. “O Enzo nasceu em julho, em Curitiba. Fazia muito frio e estava muito úmido por aqui naqueles dias. Com 10 dias, o cordão ainda estava bem úmido e branquinho perto do umbigo, parecia que ia demorar para cair, e eu queria poder dar banho, colocar no sling, carregar sem medo de deixar a placenta cair e machucá-lo, então eu cortei com um bisturi, a uma distância de uns oito centímetros do umbigo, ele não sentiu e nem chorou. Aliás, até esse dia, o Enzo só tinha chorado no parto. Um tempo depois de cortar ele chorou, e até hoje eu acho que aquele choro foi em protesto. Eu chorei também, mas também acho que a placenta cumpriu o seu papel, porque o Enzo perdeu só 20g entre o primeiro e o segundo dia, e com 10 dias ele já havia recuperado e engordado mais 400g. Além disso, a icterícia foi muito leve, durou três dias desde o início até a resolução. O coto umbilical só caiu com 16 dias. Acredito que a demora seja devido à umidade e ao frio”.

O que mais pode ser feito com a placenta?

Há muito o que se faz com a placenta. Um dos principais costumes antigos, encontrado em diversas civilizações, é plantar a placenta. A de Enzo ainda está no congelador. “Queremos esperar o momento certo para plantar ela na terra, quando o Enzo puder ajudar e assimilar esse ritual. Às vezes, ele abraça o congelador... acho que ele ainda sente a energia”. Há outras possibilidades, como fazer uma pintura com a placenta e do cordão, de modo que seu formato e suas propriedades formem a estampa. Em diversas culturas, a placenta segue representada como dragão, anjo, elefante, cobra, flor de lótus ou mesmo como a árvore da vida. Uma das possibilidades que causa espanto é comer a placenta. Sim, comer.

Acredita-se que ingerir a placenta traga benefícios para a recém-mãe, agindo diretamente para evitar a depressão pós-parto, aumentar o leite materno ou fortalecer o instinto maternal, mas estudo da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, publicado no periódico científico Archives of Women’s Mental Health em 4 de junho de 2015 alerta que não há benefícios comprovados da ingestão e ainda não há estudos aprofundados que avaliem os riscos da prática. Prática comum em outros países, a placenta é usada como base de cosméticos. No Brasil, a comercialização de cosméticos com matéria-prima humana ou animal é proibida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), mas é possível adquiris produtos à base de placenta na Amazon, por exemplo. A maioria dos produtos são fabricados na Ásia e na Oceania.

Bela Gil comeu a placenta no pós-parto

A prática de comer placenta é comum entre os mamíferos, mas não há registro da prática ser realizada entre humanos. A placenta pode ser encapsulada, depois de cozida e preparada para o encapsulamento, pode ser batida com frutas e ingerida como vitamina, pode ser preparada com molho pesto. Há diversas receitas. A chef e apresentadora Bela Gil, filha do cantor Gilberto Gil, declarou ter comida a placenta de seu filho como vitamina de banana. Em entrevista à Veja Rio, em 2016, ela declarou “é uma fonte incrível de nutrientes. Nem senti o gosto, porque misturei com vitamina de banana. A Flor, minha primogênita, também bebeu enquanto comemorava a chegada do irmão”.

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